Crónica de uma pré-corrida sem expectação

Faz já meia hora que me sentei à torreira deste sol que bate como baldes de água a ferver. Salva-me um boné de uma marca de tratores que para lá tinha e uns folhetos de corridas que hão-de ser, que me distraem os olhos do sol chapado. O cimento vai-me braseando enquanto os vendedores ainda não ambulam, escondidos dos baldes de água fervente. Estou eu e mais vinte condenados neste sector de sol, num dia vulgar de meio de agosto do Alentejo. A corrida, vaidosa, proclama-se “Extraordinária“, ainda que sem razão aparente. Aos três toureiros, dos vinte e um condenados que estamos neste sector, ninguém reconhece especial arte e a um nem sequer o nome. Aos forcados – que deles se sabe porque dois são ainda aparentados com o senhor de sandálias duas filas acima, que lhes mudou as fraldas e estão hoje uns homens feitos, de barba na cara e mulheres na unha – não se reconhece mais do que a valentia a uns poucos e o peso a uns quantos. Dos toiros, esperam-se seis, de quatro patas, dois cornos, um rabo e pretos. Parece que pastam em terras de beira rio, onde a erva verde e água fresca lhes cresce e corre por baixo dos pés. Invejo sempre os toiros quando a meio de Agosto, o sol se lembra de bater sem medo.


Faz já meia hora, debaixo deste sol, que a corrida devia ter começado e ainda tarda a banda em assentar. Falta um bombo, um oboé, e um homem a uns pratos que entretanto chegaram e pacientemente aguardam sentados por alguém que lhes pegue. O inteligente chegou agora e trouxe com ele dois civis, a autoridade e um polícia. Olhou a porta dos artistas e a banda, descompostas e negligentes, guardando a esperança que o sol impiedoso vá baixando o tom de voz. Mandou tocar um sinal decornetim e apressaram-se as hostes em aparecer nos devidos lugares, com desagrado e calor estampados no rosto, enquanto de vinte e um passámos a quarenta e poucos condenados a este sector de cimento e brasas.


Tardam-se em cumprimentos, acenos e retoques os artistas enquanto a banda já composta e inteira vai, desafinada e lenta, tocando um pasodoble novo, que aprendeu entretanto, quando a época ainda era de chuva e frio, quando os artistas, abrigados e quentes nas suas casas, ainda não tardavam, quando o cimento, desabrigado e só, ainda não nos fervia nas costas, quando os toiros, pacientes e quedos, ainda não corriam em gotas de água pelas testas. Ajeito-me no lugar e vou travando novas amizades a troco de palavras de circunstância, enquanto irrompem, formais e sorridentes, umas cortesias hesitantes entre a passage e o chouto. A nós, resta-nos esperar que o sol baixe e que invista a corrida. Que invistam os toiros, os cavaleiros, os forcados e a parca companhia de sector. E que os parentes do senhor de sandálias duas fila acima voltem inteiros para sua casa. E que os vendedores cumpram a função e, finalmente ambulando, nos matem a sede  Talvez no fim, feitas as contas, ainda me valha a pena o bilhete.

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