Concurso de Ganadarias em Moura

Após temer-se que a praça José de Almeida não abriria as suas portas na temporada de 2017, eis que Paulo Pessoa de Carvalho e João Cortez conseguiram levar a bom porto as negociações para que tudo resultasse do agrado da empresa em particular e do aficionado em geral.

Uma breve nota para a forma como fomos recebidos, muito profissionalismo, educação e amizade (um exemplo a seguir).

A praça da cidade Salúquia registava 3/4 muitos bem preenchidos, adiando em 30 minutos o início da corrida por lapso na concepção dos cartazes (foi anunciado às 22h), e por isso mesmo muita gente ainda se encontrava na procissão religiosa.

Cartel muito bem montado reunindo vários estilos de toureio, dois Grupos de Forcados de pergaminhos e um Concurso de Ganadarias para apimentar ainda mais a noite, posto isto antevia-se uma noite de grande competição.

Fizeram cortesias posteriormente a um minuto de silêncio em memória de José Palha, os cavaleiros António Ribeiro Telles, Luís Rouxinol e João Ribeiro Telles Jr, Forcados de Vila Franca de Xira e Real de Moura. Os toiros para Concurso de Ganadarias pertenciam às divisas de Santiago, Calejo Pires, Pinto Barreiros, António Lampreia, Monte Cadema e Maria Guiomar Cortes de Moura. A noite foi abrilhantada pela banda local, e dirigida com acerto pelo Sr. Agostinho Borges.

Vamos ao que interessa.

Abriu praça António Ribeiro Telles, perante um toiro de Santiago com 510kg, mal visto, manso colaborante, escasso de força, procurando com assiduidade os curros. Lide sem história fruto da colaboração do astado (ou falta dela), ferragem da ordem colocada de forma um pouco irregular.

No campo da forcadagem abriu praça o Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca. Bateu as palmas ao toiro Francisco Faria, o oponente manteve o comportamento já demonstrado na lide, na 1ª tentativa o toiro ensarilhou e o forcado não conseguiu reunir nas melhores condições tem sido desfeiteado com violência. Na 2ª tentativa o toiro sai solto não tendo o forcado conseguido mandar na investida e não resultou novamente. À 3ª tentativa já com ajudas carregadas o toiro na altura da reunião e fruto da sua deficiência, tira a cara e o forcado nem chega a reunir, consumando apenas à 4ª com o grupo a ajudar carregado.

Luís Rouxinol teve pela frente um toiro de Calejo Pires de 460kg algo escorrido, gravito a fazer-nos recordar a antiga casta portuguesa, toiro aplaudido aquando da sua entrada em praça. A lide não foi certamente a sonhada e resultou regular com o comportamento do toiro a evidenciar-se a menos com o decorrer da lide.

Para este toiro o Cabo do Real de Moura, Valter Rico escolheu o forcado João Caeiro. Na 1ª tentativa no momento em que queria carregar a sorte o toiro já tinha arrancado, não tendo tempo para recuar e reunir sendo imediatamente desfeiteado. Na 2ª tentativa houve alguma precipitação podendo e devendo o forcado mandar vir o toiro, foi buscá-lo ao sítio “onde seca a boca”, este arranca brusco não dando tempo mais uma vez para recuar e o forcado sai novamente da cara do toiro, à 3ª tentativa consegue realizar uma rija pega com a entrada do primeiro ajuda Carlos Mestre a ser fundamental.

Para tourear o Pinto Barreiros com 520kg saiu à praça João Telles Jr., toiro manso sem romper no embroque, fazendo com que Telles Jr. passasse algumas vezes em falso e sofrendo alguns toques. De ressalvar o labor do cavaleiro da Torrinha para dar a volta ao toiro, lide sem história.

Para este toiro foi escalado o forcado Márcio Francisco de Vila Franca, um forcado que nos habituou a grandes pegas. Confesso que havia muito tempo que não o via em praça, e foi mais do mesmo, calmo, cite bonito, mandou vir e boa pega com o grupo a fechar bem.

A abrir a segunda parte António Telles teve por diante um toiro do Monte de Nossa Senhora, um Lampreia que se mostrou algo sonso ao início, reservado, mas que foi crescendo no decorrer da lide, mostrando alguns pormenores interessantes, revelando-se então o melhor até ao momento. O cavaleiro tentou andar ligado ao toiro conseguindo dois bons ferros ao estribo com seriedade.

Rui Branquinho do Grupo de Moura teve a responsabilidade de pegar este toiro, na 1ª tentativa o toiro sai com pata e o forcado não reúne nas melhores condições acabando por rodar na cara do toiro e saindo prontamente. Na 2ª tentativa aconteceu um dos momentos da noite, mesmo não reunindo na perfeição com braços de ferro aguentou tudo e ficou na cara do toiro até o grupo fechar, extraordinária pega onde a praça de pé exigiu a segunda volta ao forcado.

No hay quinto malo … se alguém tivesse dúvidas quanto a esta expressão espanhola em Moura seriam prontamente contrariada. Do Monte Cadema e a acusar na balança 605kg, saiu da porta dos sustos um “boi”, um manso perdido a que Luís Rouxinol tudo fez para dar uma lide possível, o toiro não tinha qualquer interesse no cavalo, mas assim que avistava o capote a história mudava de figura, o público entendeu o labor do cavaleiro e sai de praça ovacionado.

Ricardo Castelo, e bem quanto a mim, manda para a volta, confiando em João Maria Santos e em Carlos Silva a difícil tarefa de “cernelhar” este problema. A dupla fez uma tentativa mas o sentido do toiro não permitiu a entrada, pensamos que poderia ter havido ali mais uma ou duas hipóteses de entrada mas a dupla assim não o entendeu. Passado o tempo limite Rui Godinho vai tentar de caras resolver este problema, com o grupo todo em curto o toiro investe com violência onde primeiro ajuda aguentou tudo até que em tábuas saindo de forma violenta, a expressão de Rui Godinho era de quem estava ali para dar tudo de si para resolver, tentou mais algumas tentativas já com vários elementos extra em praça mas a força e o poder do Cadema não estavam a permitir. Era muita força animal para a inteligência do homem. O Cabo em sinal de exemplo, já com o grupo todo em praça saiu à dobra e foi ele também desfeiteado com violência. Por fim o grupo levou de vencida este muito sério problema e que colocou em sentido toda a praça fazendo com que esta percebesse o que estava ali e as repercussões que poderiam advir. Se por um lado este toiro é o que qualquer grupo quer evitar, por outro é o que alimenta a união de um grupo, e isso viu-se em praça, todos para o mesmo desde caras a ajudas, mas nem sempre as coisas resultam como queremos. Fica para a história da praça, do público presente e porque não dizê-lo para a história do Grupo de Vila Franca.

Para fechar a noite Telles Jr. tem pela frente um Guiomar Cortes de Moura com 620kg e num gesto de solidariedade dedicou a lide ao grupo de Vila Franca devido aos momentos difíceis que viveu no toiro anterior, é de salutar o gesto de respeito pelo Forcado Amador. Este toiro foi muito cumpridor, a arrancar-se de forma cadenciada de qualquer sítio, permitiu ao ginete alcançar o tão desejado triunfo. Lide muito ligada, ferros ao píton contrário fazem com que o público aplauda e reconheça que estávamos perante o vencedor do troféu bravura e da melhor lide da noite, Telles Jr. mostrou em Moura a diversidade de montadas que possui e que lhe permitem ambicionar o lugar que tanto procura.

Para a última pega salta a arena outro consagrado do Grupo de Moura, Cláudio Pereira, iniciou um cite bonito com garbo, carregou, aguentou, recuou e reuniu de forma perfeita para fechar à 1ª tentativa esta noite de toiros.

Em noite de concurso de ganadarias o prémio bravura e apresentação ficaram na casa Guiomar Cortes de Moura, se quanto à apresentação poderia haver alternativas, a bravura só podia ir para Monforte. Corrida morna, uma excelente lide de Telles Jr. boas pegas e os momentos de emoção que o Monte Cadema criou, é o que fica desta noite de 16 de Julho na cidade Salúquia.

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