As pessoas mais solitárias são frequentemente aquelas que pensamos ser as mais fortes e disponíveis

A **solidão** não se apresenta sempre como imaginamos. Muitas vezes, aqueles que se sentem mais sós estão rodeados e ativos, parecendo nunca estar isolados. São frequentemente pessoas que estão sempre disponíveis quando chamadas, vistas como fiáveis, sólidas e capazes de gerir tudo sem ajuda. Ao vê-las constantemente a ajudar os outros, esquecemos que elas também precisam de **apoio**. Mas quem se lembra de perguntar realmente como estão, para além dos serviços que prestam?

Nos diversos grupos, são muitas vezes as pessoas mais amáveis e dedicadas que acabam por se sentir sozinhas no plano emocional. As mais **solitárias** participam de iniciativas locais, como o cuidado de um jardim comunitário ou a organização de actividades de bairro. Prestam assistência contínua, seja a cuidar de crianças, ajudar na mudança ou ouvir um amigo em dificuldades. A sua disponibilidade cria a ilusão de que, por estarem sempre alheias às suas necessidades, não precisam que estejamos lá por elas.

Para aqueles que se sentem mais sozinhos:

Psicólogos têm reiterado que a solidão não se resume a um **isolamento** físico ou social visível. Ela pode existir mesmo numa vida social activa, quando as interacções se tornam unidireccionais. Pesquisa recente indica que o ambiente desempenha um papel crucial na percepção de solidão.

Uma estudo recente publicada na revista Health & Place revela que adultos que vivem em áreas com mais **vegetação** e biodiversidade relatam, em média, níveis mais baixos de solidão.

Isso sugere que a presença de espaços naturais nas cidades pode contribuir para o **bem-estar mental**, oferecendo locais de **respiração**, convívio e reconexão, enquanto as cidades procuram também melhorar a qualidade de vida e reduzir o impacto ambiental.

O paradoxo do cuidador: o papel oculto da pessoa sempre disponível

As pessoas mais sozinhas
Imagens Pexels e Freepik

Atos de bondade podem verdadeiramente injetar ânimo. Um artigo da psicóloga social Natalie Kerr, publicado na Psychology Today, cita investigações que mostram que a gentileza pode levar as pessoas a se sentirem mais felizes e “menos sós”. Isso explica por que o voluntariado pode ser uma verdadeira lufada de ar fresco após uma semana stressante.

Contudo, há uma armadilha que muitas entidades e associações de voluntários reconhecem, mesmo que não a nomeiem.

Quando alguém se torna a pessoa de referência para ajudar, pode ser vista como um serviço fiável e não como um ser humano com **necessidades**. Assim, se parecem bem, por que pensar em perguntar duas vezes? É fácil ignorar.

Os efeitos da solidão no corpo e na saúde

A solidão não é apenas um estado passageiro de má disposição. Em França, é reconhecida como uma verdadeira questão de saúde pública: cerca de um quarto da população afirma sentir-se só regularmente, e quase 12% estão em situação de isolamento relacional.

Investigações em saúde pública mostram que esse isolamento não é isento de consequências para a saúde: está associado a um aumento do risco de doenças cardiovasculares de cerca de 29%, de acidentes vasculares cerebrais de aproximadamente 32%, bem como a um aumento do risco de morte prematura. Para além dos números, a solidão também está ligada a maior incidência de depressão, declínio cognitivo e perda de qualidade de vida, especialmente entre os idosos.

Esse fenómeno também se manifesta na saúde mental.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a solidão e o isolamento social estão relacionados a um maior risco de distúrbios psicológicos, como depressão e ansiedade, assim como a problemas de saúde física, como obesidade e doenças cardiovasculares.

A OMS destaca ainda que pessoas em situação de isolamento podem desenvolver uma maior sensibilidade aos sinais sociais negativos, incluindo rejeição ou exclusão, o que pode intensificar o seu mal-estar.

A Organização Mundial da Saúde é muito clara nas suas afirmações. Afirma que a solidão e o isolamento social aumentam os riscos de doenças como acidentes vasculares cerebrais, doenças cardíacas, diabetes, declínio cognitivo e mortes precoces. A Comissão da OMS estima que cerca de 871 mil óbitos por ano estão relacionados com a solidão.

O que um estudo do Porto revelou

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A equipa do projeto Saúde e Lugar analisou 657 adultos em Porto, Portugal, medindo a solidão em 2022 através da escala de solidão da UCLA (pontos superiores a 32 indicam uma “forte solidão”). Avaliando a vegetação e os recursos hídricos nas imediações com índices de satélites e incluindo uma medida de biodiversidade chamada índice de riqueza específica.

Os resultados indicaram que a proximidade é fundamental. Uma vegetação mais abundante a cerca de 100 metros da residência estava relacionada a níveis de solidão mais baixos. A maior riqueza de espécies entre 300 e 500 metros também apresentou tendência similar, enquanto os “espaços azuis” não apresentaram associação clara nas análises.

Os investigadores também notaram que as medições de longo prazo não mostraram ligações significativas. Isso lembra-nos que esta pesquisa ainda está em evolução.

A biodiversidade pode ser mais crucial do que ter simplesmente “verde”.

Um jardim pode ser verde e, no entanto, parecer vazio. Os investigadores estão a questionar cada vez mais a influência da biodiversidade – os pássaros, plantas e insetos que dão vida a um espaço – na nossa percepção do bairro.

Uma análise sistemática publicada em 2024 na revista Landscape and Urban Planning destacou que o contacto com a natureza e espaços verdes pode reduzir a solidão, promovendo um sentido de pertença, laços sociais e coesão social, especialmente em atividades grupais.

Dados de outras fontes corroboram esses resultados. Uma análise realizada em 2024 envolvendo 26.811 adultos urbanos no Canadá apontou correlações sugerindo que a presença de espaços verdes nas cidades contribui para a diminuição da solidão e do isolamento social, mesmo que este tipo de estudo não estabeleça, por si só, uma relação de causalidade.

Os jardins comunitários como uma acção climática que pode auxiliar os mais solitários

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Se a biodiversidade é a centelha, os espaços comunitários são frequentemente o fósforo. Uma síntese de 50 estudos publicada em 2025 demonstra que jardins comunitários podem fortalecer o capital social através de laços mais próximos e maior envolvimento cívico, oferecendo também benefícios ambientais, como a produção local de alimentos e a vegetação de terrenos vagos.

Aqui, a noção de “voluntário” ganha um significado profundo. Projetos comunitários podem, sem dúvida, reunir pessoas. Mas frequentemente também dependem de um pequeno grupo de indivíduos que estão sempre presentes.

Em um jardim, isso pode ser visível: as mesmas pessoas a trabalhar enquanto outras conversam.

Quando o planeamento urbano cria laços sociais

A criação de espaços verdes nas cidades é frequentemente apresentada como uma ferramenta para enfrentar as alterações climáticas, e com razão.

A Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA) afirma que árvores e vegetação ajudam a refrescar cidades, fornecendo sombra e evapotranspiração, advertindo que **ilhas de calor** urbanas resultam em maior demanda energética, custos elevados de climatização, além de poluição atmosférica e emissões de gases de efeito estufa, como o CO₂.

Na prática, isso significa uma conta de luz mais elevada.

A psicologia revela que a solidão mais desafiadora na velhice não é apenas a solidão, mas a consciência de que algumas amizades se esvaem quando não são nutridas. Além da compreensão de que muitas nunca foram baseadas em atenção mútua, mas na nossa disposição em fornecer todo o trabalho emocional necessário.

Contudo, a dimensão social não surge automaticamente. Um pequeno parque sem bancos, sem passagens seguras ou iluminação pode permanecer deserto. Por outro lado, um passeio sombreado com espaços para paradas pode transformar um caminho apressado para o trabalho em uma oportunidade de troca de palavras.

Considere isso como **infraestrutura social**: esses espaços do cotidiano que facilitam o sentimento de pertença e podem apoiar os mais solitários.

O que devemos reter agora sobre os mais solitários

A **solidão** pode ser invisível, e é essa invisibilidade que a torna difícil de detectar.

Se uma pessoa já está em estado de alerta, contactá-la pode parecer mais arriscado do que parece, o que explica, em parte, porque um simples “Está tudo bem?” muitas vezes não é suficiente.

Actividades em grupo na natureza, como uma jornada de plantação comunitária, podem aliviar a pressão, pois realizam algo lado a lado.

Para a maioria de nós, o primeiro passo, simples e humano, é verificar como estão as pessoas mais **solitárias**, o que pode já ser uma grande ajuda, sem esperar nada em troca.



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