Análise II: Cavaleiros Alternativa 2019 por Miguel Ortega Cláudio

Crónica

O toureio a cavalo, a beleza do imperfeito

 

A arte de tourear, qualquer que seja a sua vertente, o intérprete, o momento, o lugar, quando se dá o “click”, culmina numa fonte de inspiração, que comove e desperta sentimentos como poucas coisas. Felizmente este ano os aficionados tiveram vários momentos em que expressaram o que lhes pedia o corpo e recomendava a alma: Com uma espontaneidade explosiva, que impulsiona e excita barbaramente todos os que gostamos disto da Festa dos Toiros.

 

Moura Jr., a estrela da Temporada 2019! Criou, com sua concepção de tourear a cavalo, uma nova ortodoxia, polindo o classicismo, a par de inovar na irreverencia. Atingindo extremos improváveis! João, introduziu nas praça de toiros valores fundamentais como a, harmonia, levando à exaustão o bem feito, sem pressas, com temple, com uma perfeita clarividência dos terrenos, as condições do toiro e a capacidade de cada cavalo. Baseia o mais possível o seu toureio nos axiomas do toureio a pé, aproveitando ao máximo o paralelismo existente entre estas duas formas de expressão e os remates da Mourinas que não são mais que isso…

 

António Ribeiro Telles, claro que não é perfeito. Ninguém é! Mas toca a perfeição na nobre arte de tourear a cavalo. Parece pura magia quando toureia. Ou devaneio puro. António, é um cavaleiro que marca uma época nesta arte, mais uma vez sentou cátedra na temporada 2019. Dá a sensação por vezes que tudo parece fácil e natural, que não têm perigo ou risco… António, é um eleito nesta da nobre arte! É uma fonte de inspiração, Toureiro de Toureiros, espelho de artistas. Mestre de Mestres!

 

Francisco Palha, toureia a cavalo não só para citar o toiro, burlar as suas acometidas e cravar… Francisco, é raça, persistência a par da sua arte.  De saída, o galope do cavalo acompanha o tranco do toiro, mostra sua bravura, tentando templar o mesmo desde o inicio das lides. De frente, dando o peito cita o toiro, convida-o para o “ataque” e, quando o toiro atinge a sua jurisdição, crava de alto abaixo. Imprimindo a tudo isto um misto de emoções que fazem o público parecer ter molas e ovacionar de pé o toureiro. Existe um elo de ligação em todas as sortes, havendo uma continuidade avassaladora nas suas lides que poucos toureiros conseguem.

 

Luís Rouxinol, valores como esforço, entrega e capacidade de superar que são projectados além da arena, estão incorporados na sua personalidade e carreira este ano ficaram mais visíveis que nunca. Fiel aos seus princípios, ideias e estilo, sempre com a verdade por diante, transparente, um exemplo de superação, de bravura, de capacidade de vencer as adversidades, marcam o seu toureio e mais uma vez ficaram patentes durante 2019.

 

Marcos Bastinhas, baseia na coragem e raça o seu toureio, foi capaz de crescer diante de dificuldades. É um toureiro recursivo, com coragem, com muito público, soube tirar proveito de seu carisma e das suas condições como artista. A sua heterodoxia, não sendo um toureiro profundo, mas é pragmático, sendo uma arma que usa com inteligência. As corridas em que esteve presente foram de uma entrega e de uma verdade intransponíveis, triunfando com força em muitas praças.

 

João Moura, assenta as seus triunfos desde que entra na arena, a sua disposição especial e única. A pureza do seu conceito de toureiro, pertence a esse tipo de artistas… pode-se dizer eleitos pela Graça de Deus. As qualidades são inquestionáveis e, mesmo nas tardes menos felizes, a sua personalidade vêm ao de cima e tenta limar as arestas que tem por diante.Quando as coisas lhe correm de feição monta cátedras que deviam ser vistas e estudadas pelos que querem começar nesta nobre arte.

 

João Ribeiro Telles, é um exemplo de conhecimentos do toiro e do cavalo. Sabe tirar proveito das dificuldades que tem por diante, dá vantagens para potenciar as investidas, busca a mobilidade dos seus oponentes, além das qualidades. Têm o sentido do espectáculo dentro de si! Isso é patente com a resposta que o público lhe dá, têm essa graça intrínseca dos artistas e arrasta seguidores que o acompanham por essas praças fora. Esta temporada deixou claro o bom momento que atravessa, a sua disposição e a lucidez foram patentes em quase todas as tarde e noites.

 

Rui Salvador, sendo um ortodoxo, por vezes é um heterodoxo, um caso único, um irreverente. Trinta e cinco anos de alternativa contemplam um toureiro que combina virtudes tradicionais, como coragem, vocação e inteligência com outras menos convencionais com um ponto de “loucura” pelos terrenos que pisa. Salvador, é um lidador exemplar! O toiro é a sua fonte de inspiração, é o “animal a ser domado”, que determina o seu toureiro. A técnica, a arte e um conjunto de conhecimentos fazem plasmar grandes momentos de toureio.

 

Ana Batista, é uma toureira plena de inspiração, dominadora, estética, de cite harmónico e profundo.Empresta às suas lides a suavidade da seda, é a  elegância personificada, o poderio de uma cavaleira curtida em mil batalhas. É sempre agradável assistir a uma boa lide da Ana.

 

Rouxinol Jr., a valentia de um toureiro é suposta, sem necessidade de ser demonstrada. Mas o Luís faz de cada tarde ou noite disso o seu cartão de visita, o seu selo pessoal. É um toureiro ousado, arrojado, corajoso! O respeito pela profissão, começa com respeito pelo toiro e público e isso fazem parte do ADN deste toureiro. O Luís, é um “Grande” no sentido mais nobre do termo. Um toureiro cheio de virtudes que nos próximos anos teremos o prazer de ver por essas arenas fora a triunfar

 

Manuel Ribeiro Telles, é o cristalino, o intenso, a classe, o gosto, o ritmo, a estrofe rimada ou o verso solto. O toureiro que com as rédeas nas pontas dos dedos conduz os cavalos, crava ao estribo e remata com graça toureira. Manel, é a arte arrebatada, o que se tem ou não tem… O que se tem se Deus os toca com a varinha… Um artista!

 

Moura Caetano, a presença, profundidade e requintada expressão artística na arena são essências indeléveis das suas lides que lhe garantem uma posição de honra na lista dos eleitos. A técnica, a escola possibilitam a arte e sempre que surge o toiro ideal, isso é reflectido na arena, surge o toureio…

 

Rui Fernandes, isto do toureio não é uma questão de números, mas reflecte em parte o estado de alma de cada um. Foram poucas as corridas de Fernandes em Portugal. Espanha foi o seu porto de abrigo, toureado nas grandes feiras e alcançando triunfos, sendo um dos cavaleiros portugueses mais intencionais.

 

Filipe Gonçalves, tem um selo contrastado de corajoso e popular. Toureiro de um  valor desmedido, de uma entrega absoluta, que joga em todas as tardes com a emoção. Tenta dar a volta a todos os toiros, dando espectáculo e agradando aos que pagam entradas para o verem, poucas vezes defrauda os presentes.

 

Miguel Moura, destaca-se pela sua sobriedade. Puro, sem muitos “alardes às galerias”. O seu toureiro mostra verdade, alma e pureza. É um estilista, quando as coisas lhe correm de feição é um toureiro fino, destapando o tarro das essências e ai sai a arte que lhe corre nas veias, deleitando os aficionados com o seu toureio.

 

Salgueiro da Costa, é difícil para um toureiro artista estar inspirado todas as tardes, principalmente porque a inspiração não se vende…. O João, toureia com a alma, o seu toureio tem uma alta componente de inspiração e magia. O  factor surpresa está sempre presente nas suas lides, com o João na praça não há lide preconcebidas, existe sempre a aparência do inesperado. É um artista que mostrará o que leva dentro nos grandes palcos da tauromaquia em temporadas vindouras, para se consagrar com figura do toureio.

 

Brito Paes, toureiro sóbrio, senhor de uma grande monta, por vezes a falta de espectacularidade do seu toureio faz com que não chegue muito ao público. Templa os toiros com toreria, crava com arrojo e mostra o arranjo dos seus cavalos de uma maneira assombrosa que são um deleite para os presentes nas bancadas.

 

Duarte Pinto, é um toureiro de uma educação extrema, tenta sempre dar o seu melhor e agradar o público. Interprete de um toureio clássico, onde imprime a verdade, o toureio de frente, de praça a praça, sempre a dar vantagens ao toiro. Tenta sempre imprimir nas suas lides serenidade, classe, sempre a querer alcançar um novo patamar nas suas lides e temporadas, sonhando o toureio que leva dentro.

 

António Prates, é o poder, a irreverencia da juventude! Sempre que entra numa arena vai a por todas. Se o toiro não investe, mete tudo da sua parte para alcançar o triunfo. Foi o primeiro ano como cavaleiro de alternativa e foram muitos os degrau que subiu para alcançar a meta que qualquer toureiro sonha, ser figura do toureio.

 

O toureio tem uma grande força expressiva, já que o próprio toureiro e o toiro estão unidos entre si numa arena… pode-se dizer que possui uma força expressiva, sentimental incalculável! Aqui  não se pode corrigir… como na Pintura, Escultura, Escrita… Cada um dos que assiste a uma corrida têm uma interpretação, um sentimento, uma vivência diferente. Aqui fica a minha reflexão referente alguns dos nossos cavaleiros de alternativa do que foi a temporada vista por mim no ano de 2019.

 

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