A juventude atual herdou uma maldição geracional inédita que começa a se fazer sentir

Numéricas e omnipresentes, as tecnologias digitais tornaram-se um pilar da nossa vida quotidiana. Os smartphones conectam-nos a cada instante, enquanto as redes sociais moldam os nossos comportamentos e hábitos. Cada vez mais, as pessoas partilham detalhes íntimos das suas vidas, levantando questões sobre o que constitui a esfera privada numa época em que essa linha se torna cada vez mais difusa.

Atualmente, parece que quase todos utilizam plataformas sociais, incluindo os pais, que não hesitam em partilhar fotos e vídeos dos seus filhos com um vasto público. Esta prática, que à primeira vista revela carinho e registo de momentos importantes, pode esconder armadilhas que merecem ser analisadas.

Numa época em que muitos pais sentem a necessidade de documentar os progressos e marcos na vida dos filhos, surge uma reflexão espontânea sobre as consequências que esta partilha pública pode ter. Entre a vaidade, a preocupação e, por vezes, o desapontamento, torna-se habitual relatar as experiências familiares nas redes sociais, onde sempre existe uma comunidade pronta a reagir ou comentar.

No entanto, uma inquietação crescente começa a ser manifestada por muitos: que consequências terão estas práticas no longo prazo?

Uma mãe partilha as suas preocupações sobre a exposição digital

Imagens Freepik e Pexels

Randi Rossario, mãe e criadora de conteúdo, alertou outros pais sobre os perigos de partilhar demasiadas imagens dos seus filhos, especialmente em momentos que os possam retratar de forma vulnerável. Segundo ela, isso estabelece uma *nova maldição geracional*.

“Acredito que percebo do que esta geração terá de se recuperar”, disse ela em um dos seus vídeos.

“Penso que as maldições que lançamos sobre os nossos filhos se manifestam online, evidenciando a sua intimidade.”

Rossario afirmou que muitos pais filmam seus filhos nos momentos em que estão triste ou em conflito. Em plena crise de emoção, o pai ou a mãe filma as lágrimas do filho para partilhar com milhares de estranhos na internet. E, como a rede não esquece, essas emoções ficam eternamente registradas.

“Nem tudo precisa ser gravado”, afirmou. “Às vezes, é melhor manter certas coisas entre nós.”

Ao invés de publicar os momentos difíceis dos filhos, Rossario recomenda que os pais falem com amigos sobre isso. “Expressem-se de forma a não impactar o seu filho”, aconselha. “Conversem. Mas nem tudo precisa ser partilhado online.”

Sharenting e as suas consequências

A prática do sharenting, que envolve a partilha de momentos privados dos filhos online, pode ter consequências negativas para as crianças à medida que vão crescendo. O compartilhamento de fotos íntimas pode parecer inofensivo quando as crianças são pequenas e não percebem que estão a ser filmadas ou publicadas.

Contudo, cedo ou tarde, os filhos também estarão nas redes sociais e poderão se deparar com vídeos seus, em momentos de vulnerabilidade, o que pode ser bastante desconfortável. Reviver essas situações é difícil, especialmente quando esses registros podem vir acompanhados de comentários de estranhos.

Alguns pais até chegam a criticar os seus filhos publicamente, chamando-os de “gente pequena” e lamentando-se do seu comportamento. Já consideraram como isso pode afetar a autoestima das crianças durante a adolescência?

E o que acontecerá quando outros, como recrutadores, amigos ou até mesmo bullies, encontrarem esses conteúdos?

Estudos revelam que as crianças já consideram embaraçoso e frustrante o compartilhamento de vídeos íntimos nas redes sociais. A suposição é que essa visão se manterá ao longo dos anos.

Adolescentes afirmam que isso gera conflitos entre a imagem que desejam construir e a que é apresentada pelos seus pais.

O problema cresceu a tal ponto que algumas crianças, que agora possuem idade suficiente para entender que os seus pais partilharam vídeos sem o seu consentimento, chegam a confrontá-los.

A CNIL alerta para os riscos envolvidos na partilha de fotos e vídeos dos filhos nas redes sociais, destacando a possível violação da sua privacidade e as situações constrangedoras que podem surgir.

Riscos de segurança para crianças online

Além de ser prejudicial para o bem-estar psicológico, o sharenting coloca igualmente em risco a segurança das crianças.

Uma vez publicadas, os conteúdos relacionados com os seus filhos permanecem na internet, muitas vezes de forma irreversível. Isso significa que podem ser redistribuídos em sites potencialmente perigosos ou utilizados para cometer fraudes.

Embora os pais não queiram que isso aconteça, as consequências são inevitáveis. Os riscos aumentam exponencialmente uma vez que essas fotos e vídeos são disseminados na internet.

Leah Plunkett, especialista em direito da família e tecnologia na Harvard Law School, explica que pessoas mal-intencionadas podem usar uma simples foto para cometer fraudes.

“Os números de segurança social das crianças, juntamente com a sua data de nascimento, nome e endereço, são frequentemente alvos preferenciais para a usurpação de identidade”, afirmou ela à NPR.

É gratificante para os pais interagir com outros, receber conselhos sobre parentalidade e até elogios pelos feitos dos filhos. Contudo, é crucial que esses mesmos pais priorizem o bem-estar e a segurança dos seus filhos.

Mesmo que já tenham partilhado fotografias de seus filhos, ainda é possível corrigir esse erro.

“Revise as suas publicações e elimine aquelas que parecerem inadequadas”, aconselha Plunkett.

“Depois, coloque a sua conta em modo privado.”

É tempo dos pais tomarem medidas para quebrar esta maldição geracional antes que seja tarde demais.

Este artigo é apresentado apenas para fins informativos e reflexivos. Não constitui de forma alguma um aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As ideias discutidas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para situações específicas, consulte um profissional qualificado.

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