Raramente se fala na solitude masculina e nos homens benevolentes. Contudo, muitos deles existem e, à primeira vista, parecem bem integrados. Inspiram confiança, promovem segurança e são vistos como aqueles em quem se pode contar. A sua presença é apreciada, no entanto, o seu mundo interior é frequentemente discreto. Reprimem conflitos e preferem apoiar os outros em vez de se expor. Com o tempo, essa postura molda a forma como se relacionam.
Estes homens, que são atentos aos que os rodeiam mas carentes de amizades mais profundas, parecem pertencer a uma classe à parte. Todos têm em comum o foco no bem-estar alheio em detrimento da expressão da própria vulnerabilidade, algo que, segundo algumas investigações, pode impactar seu bem-estar ao longo dos anos.
Estão sempre prontos a ouvir, ajudar e apoiar. No entanto, raramente pedem ajuda para si mesmos ou partilham os seus sentimentos mais profundos. Os homens benevolentes que não têm amigos próximos representam, assim, uma categoria peculiar. A sua escolha de priorizar o altruísmo em detrimento da vulnerabilidade, pode ter repercussões significativas, como documentado em algumas pesquisas.
Este comportamento traz uma sensação de segurança: são valorizados pelo que fazem pelos outros, mais do que pelo que são na intimidade. Contudo, a longo prazo, pode limitar a sua capacidade de estabelecer relações sinceras, equilibradas e duradouras, particularmente com outros homens.
Gentis e solidários… mas, por que se encontram sozinhos?
Homens benevolentes sem amigos próximos: compreendendo o isolamento
1. Um modelo adquirido desde a infância

A escolha de favorecer a ajuda mútua em vez da vulnerabilidade começa frequentemente na infância, especialmente quando figuras de autoridade, como pais mais rígidos, ensinam que deve haver força e obediência.
Estudos demonstram que o desenvolvimento psicológico de meninos e meninas é distinto. Os meninos enfrentam mais dificuldades na adolescência e na fase adulta, muitas vezes devido à incapacidade de gerir emoções na infância.
Essas investigações revelam que a influência de sociedade, pais e educadores impulsiona a formação da identidade de género desde tenra idade e pode desencadear dificuldades mais tarde, quando os meninos não aprendem a controlar suas emoções desde cedo.
A repressão emocional aprendida na juventude transforma-se num obstáculo intransigente na vida adulta.
2. Um funcionamento integrado na vida adulta

Na vida adulta, muitos interiorizam a ideia de que o seu valor reside na ajuda que prestam aos outros. Demonstram verdadeira benevolência ao atender às necessidades materiais daqueles que os rodeiam. Contudo, essa benevolência é frequentemente acompanhada de um controle sutil, que os leva a manter distância de qualquer manifestação de necessidades emocionais.
Uma pesquisa aponta que os homens costumam obter suporte maioritariamente de parceiras femininas, enquanto o apoio por parte dos amigos masculinos é limitado. Tendem a abordar seus problemas de forma indireta, por receio de parecer vulneráveis ou de admitirem suas dificuldades.
Quando pedem ajuda, frequentemente é para questões pontuais, em vez de preocupações mais abrangentes. Entre os desafios encontrados, destacam-se os papéis sociais tradicionais, uma sensação de invulnerabilidade e a dificuldade em se abrir emocionalmente. De maneira geral, homens que buscam ajuda, seja de profissionais ou amigos, ainda consideram que isso pode ser mal visto.
3. Uma identidade construída em torno da ajuda

Ajudar os outros proporciona um sentido de satisfação e valor pessoal. Envolver-se em tarefas diárias, atuar como voluntário e ser uma presença útil proporciona-lhes uma sensação de força.
A investigação sobre papéis de género revela que os homens frequentemente consideram a ajuda como um ato heroico, ao passo que as mulheres o associam mais à atenção e cuidado.
O apoio prestado pelos homens ocorre frequentemente em interações pontuais, por vezes com desconhecidos, enquanto as mulheres tendem a oferecer ajuda em relações próximas e duradouras, o que pode explicar algumas das diferenças na capacidade de cultivar e manter amizades significativas.
Para muitos, existe uma parte que incentiva sinceramente os outros a se aproximarem com benevolência, enquanto uma outra permanece à distância emocional, revelando um ciclo mais profundo de desconexão social e necessidade de ligação.
4. Um comportamento reforçado pela valorização

Receber agradecimentos é uma fonte significativa de satisfação. Muitos homens aspiram à valorização, protegendo-se da vulnerabilidade.
Um estudo analisou a influência de género nas reações a agradecimentos: muitos homens sentem que o reconhecimento os eleva socialmente quando alguém pede ajuda e expressa gratidão.
A forma como o pedido é feito também influencia a resposta.
Para alguns homens, a gratidão pode ser vista sob um prisma de hierarquia social, e corresponder pode ser percebido como um meio de reforçar seu estatuto, um comportamento que é frequentemente menos proeminente entre as mulheres.
5. Um ciclo que se repete ao longo do tempo

Este padrão relacional leva muitos homens a controlar a relação e a evitar riscos de rejeição relacionados à intimidade.
Esse mecanismo serve como uma proteção contra a exposição emocional, onde a vulnerabilidade é frequentemente vista como fraqueza, e a fraqueza como incapacidade de atender às expectativas dos outros.
Proteger-se emocionalmente, em certos casos, significa evitar experimentar plenamente as próprias emoções. Assim, uma fronteira invisível se forma, enviando ao outro uma mensagem implícita: não se aproxime demasiado. Este limite pode se tornar contínuo, mesmo com pessoas próximas.
Para alguns, essa barreira foi construída desde a infância, quando as tentativas de quebra-la foram desestimuladas. Com o tempo, essa barreira se transformou em uma prisão de solidão, dificultando o acesso a relações abertas e profundas.
Uma última reflexão

Com o passar do tempo, esta dinâmica pode criar a ilusão de uma vida social sólida. Contudo, pode faltar o essencial: ligações profundas e recíprocas.
Uma investigação publicada no Journal of Social and Personal Relationships indica que o suporte emocional dos homens provém, frequentemente, de suas parceiras românticas em detrimento dos amigos, gerando uma dependência emocional maior e menos diversificada.
Ao focar demasiado em ser útil para os outros, estes homens podem, sem querer, afastar-se do seu próprio mundo emocional.
No entanto, a habilidade de receber, solicitar ajuda e mostrar vulnerabilidade é tão crucial quanto a capacidade de apoiar. É muitas vezes neste equilíbrio que florescem as relações mais sólidas e duradouras.
Sair deste ciclo não requer renunciar à benevolência. Implica, sim, abrir-se aos outros em ambas as direções. Aceitando ser visto pelo que se é, e não apenas pelo que se oferece, a solidão pode lentamente dar lugar a vínculos mais ricos e autênticos.




