« Não se preocupe com o futuro. Se você precisar enfrentá-lo, o fará com a mesma razão que o guia hoje diante do presente » Pensamento do dia de Marco Aurélio

Não se preocupe com o futuro. Muitas vezes, sofremos por eventos que ainda não ocorreram. A nossa mente divaga sobre o que poderá acontecer, levando-nos a viver mentalmente dificuldades que, por vezes, nem sequer chegarão a acontecer. A ansiedade em relação ao futuro muitas vezes precede os problemas de fato. Só é necessário que uma data limite apareça na nossa agenda, dias ou semanas adiante, para que o nosso espírito comece a se preparar.

Antecipamos conversas difíceis antes de realmente acontecerem. Tememos uma má notícia, um despedimento ou um jantar desconfortável. Nada ocorreu ainda, e talvez nada aconteça como o imaginamos, mas a nossa atenção já está voltada para esse futuro incerto.

Este texto não é um conselho terapêutico. Propõe sim uma reflexão em torno de um antigo lema estoico, conectado a algumas pesquisas modernas que abordam ideias semelhantes. As investigações mencionadas são, na sua maioria, de pequena escala ou observacionais: as tendências observadas em um grupo não permitem determinar o que uma pessoa pode sentir individualmente.

Marco Aurélio, imperador romano de 161 a 180 d.C., redigiu suas Meditações como reflexões pessoais

No livro VII, ele apresenta uma ideia bastante simples: «Que o futuro não te perturbe. Se for necessário enfrentá-lo, fazê-lo-á com a mesma razão que te guia hoje em relação ao presente.»

À primeira vista, esta frase pode parecer um simples convite à serenidade. No entanto, Marco Aurélio expressa uma ideia mais concreta: não é necessário ter hoje as respostas para os problemas de amanhã. A razão que nos permite enfrentar o presente estará também presente quando o futuro se tornar o presente.

O hábito de viver problemas antes que se apresentem

Não se preocupe com o futuro, pois a ansiedade, muitas vezes, dá a ilusão de que estamos a nos preparar. Pensar repetidamente sobre uma dificuldade pode parecer uma forma de retomar o controle. Acreditamos que antecipar um problema o ajudará a enfrentá-lo melhor quando surgir.

É precisamente esta ideia que Marco Aurélio desafia. As dificuldades de amanhã não precisam ser vividas hoje.

Sobretudo considerando que a maior parte do que tememos nunca se concretiza.

Em uma pesquisa realizada por Lucas LaFreniere e Michelle Newman, 29 indivíduos com transtorno de ansiedade generalizada registraram suas preocupações durante dez dias. Os pesquisadores, em seguida, verificaram quais dessas preocupações realmente se materializaram. Cerca de 91% das preocupações anotadas nunca ocorreram.

Embora a amostra seja reduzida e específica, esse resultado destaca um fenômeno interessante. Nossa mente pode gastar muita energia em cenários que permanecem hipotéticos. Entre as preocupações que se concretizaram, as consequências foram, em um terço dos casos, melhores do que o esperado.

Essa mesma pesquisa é também mencionada em nosso artigo sobre a fala interior negativa e os pensamentos ansiosos.

LaFreniere resume o problema de forma simples. Querer evitar um sofrimento futuro pode fazer-nos infelizes no presente. Em outras palavras, preocupar-se pode fazer-nos pagar hoje o preço emocional de um acontecimento que ainda não ocorreu.

Uma reflexão que também encontramos em nosso estudo sobre a ansiedade que retira a tranquilidade de hoje sem resolver os problemas de amanhã.

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Não se preocupe com o futuro & o que Marco Aurélio entende por «a mesma razão»

Marco Aurélio não diz simplesmente: «Não se preocupe, tudo ficará bem.» Ele não promete um futuro fácil nem a ausência de desafios.

A sua ideia é diferente. Quando a dificuldade realmente chegar, teremos então a nossa razão, o nosso julgamento e a nossa capacidade de agir. Os recursos mentais que usamos hoje para enfrentar o presente estarão ainda disponíveis quando amanhã se tornar o hoje.

A psicologia moderna parece alinhar-se, em parte, com esta intuição. Os psicólogos Timothy Wilson e Daniel Gilbert estudaram a nossa maneira de antecipar as nossas reações emocionais. As suas investigações sugerem que tendemos a sobrestimar a intensidade e, principalmente, a duração de certas emoções futuras.

Uma explicação para isso reside na nossa dificuldade em antecipar a nossa capacidade de adaptação. Na sua análise, Wilson e Gilbert observam que as pessoas frequentemente subestimam a rapidez com que poderão se adaptar psicologicamente a certos eventos.

Assim, imaginamos, por vezes, uma provação futura sem considerar um dado importante: a pessoa que a viver poderá refletir, adaptar-se e reagir a uma situação que se torne concreta.

Esta diferença entre antecipação útil e ruminação está também no cerne do nosso artigo sobre os hábitos que ajudam a manter o bem-estar mental.

Não se preocupe com o futuro não significa não planear

O pensamento estoico pode ser mal interpretado. Não se trata de recusar toda a planificação ou de ignorar as dificuldades.

Os estoicos, por sua vez, refletiam deliberadamente sobre obstáculos e possíveis perdas. Mas essa antecipação tinha como objetivo preparar-se, não ficar preso a cenários ansiosos.

Donald Robertson, psicoterapeuta cognitivo-comportamental e autor de várias obras sobre estoicismo, distingue precisamente esta prática da preocupação repetitiva. Segundo ele, considerar algumas dificuldades pode, sim, ajudar a diminuir gradualmente o medo do desconhecido e fortalecer a confiança na nossa capacidade de enfrentar os eventos.

A diferença pode estar aqui: planear envolve identificar um problema, tomar as ações razoáveis que podem ser feitas hoje e, depois, voltar ao presente. Preocupar-se tende a revisitar o mesmo cenário repetidamente sem novas informações nem soluções.

Isso é o que distingue uma reflexão construtiva de uma ruminação excessiva que gira em círculo.

Portanto, Marco Aurélio não nos pede para ignorar o amanhã. Ele nos convida a não carregar hoje todo o peso emocional de um evento que ainda não aconteceu.

Não se preocupe com o futuro: devolvendo os problemas futuros ao futuro

O que fazer quando a nossa mente começa, apesar de tudo, a antecipar uma dificuldade?

O pensamento de Marco Aurélio oferece uma resposta simples: deixar este problema para a pessoa que seremos quando ele se concretizar. Esta versão futura de nós mesmos não apenas terá a mesma capacidade de raciocínio, mas também informações que ainda não possuímos hoje.

Portanto, não se trata de acreditar que o evento temido nunca ocorrerá. Trata-se de reconhecer que não precisamos vivê-lo duas vezes: uma vez na nossa imaginação, e, se acontecer, uma segunda vez na realidade.

Essa reflexão está também conectada a todas essas «coisas terríveis» que imaginamos e que, no final das contas, não se concretizam.

Não se preocupe com o futuro não significa acreditar que tudo sempre correrá bem. Significa apenas confiar na nossa capacidade de responder aos eventos quando se tornarem reais.

Se as preocupações em relação ao futuro se tornarem constantes, invasivas ou afetarem de forma duradoura a vida cotidiana, pode ser útil consultar um profissional de saúde ou um terapeuta qualificado.

Este artigo é fornecido apenas para informação e reflexão. Não constitui, em nenhum caso, um parecer médico, psicológico ou profissional. As noções aqui abordadas baseiam-se em pesquisas publicadas, bem como em observações editoriais, sem resultado de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.

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