As mulheres nascidas entre 1960 e 1980 são frequentemente as mais isoladas. A solidão é muitas vezes vista como a ausência visível e dramática de interações sociais. No entanto, ela pode se insidiar nas vidas mais atarefadas, convivendo silenciosamente com agendas lotadas e interações constantes. Isto torna-a especialmente difícil de reconhecer. Recentemente, conversava com uma amiga que mencionou que não partilhava uma refeição com alguém há doze dias. Ela o disse como um fato simples, sem dramatização ou queixa.
Ela não me chamou por se sentir sozinha, mas porque acreditava estar com um resfriado. Ouvi aqueles onze dias e permaneci em silêncio por um momento. Na casa dos quarenta, ela é uma das pessoas mais cercadas que conheço.
O que me impressionou é que ela não se conforma à imagem tradicional do isolamento. É sociável, divertida, sempre cercada de convites. O seu dia-a-dia é repleto de mensagens, projetos, grupos de amigos e compromissos. E, no entanto, falta-lhe algo simples: a presença regular de alguém, um momento partilhado sem um objetivo específico, como um jantar durante a semana.
Este é um quadro que vai além do seu caso pessoal.
Ele toca numa geração de mulheres que, ao longo de sua formação, aprenderam que a amizade seria suficiente e que os vínculos escolhidos poderiam substituir as estruturas mais tradicionais que organizavam a vida dos seus antecessores.
Essa promessa funcionou durante algum tempo. Contudo, não antecipou o que acontece quando todos avançam, mudam de ritmo e os momentos de disponibilidade mútua tornam-se escassos.
A amizade e o amor não são intercambiáveis

A amizade traz consigo um passado comum, referências partilhadas e a facilidade de quem se conhece há tanto tempo que não são necessárias explicações. Ela oferece um sentimento de pertença, apoio e a certeza de ser amada por alguém que foi escolhido. Nada disso é irrelevante.
O casal, por outro lado, oferece algo diferente: alguém que sabe como foi a segunda-feira porque estava no quarto ao lado, alguém que se lembra dos compromissos sem que precise ser lembrado, e que partilha os dias comuns assim como os grandes momentos. Essas duas dimensões foram apresentadas a uma geração de mulheres como se fossem praticamente intercambiáveis, mas não são. Elas exercem papéis diferentes, e uma não pode substituir a outra.
Christos Pezirkianidis e seus colaboradores, cujos estudos sobre amizade e bem-estar na vida adulta estão publicados em Frontiers in Psychology, descobriram que o que realmente protege o bem-estar não é apenas ter amigos, mas sim a qualidade dessas amizades: sua intimidade, constância e a importância que os indivíduos sentem uns pelos outros. A amizade, em sua forma mais plena, proporciona proteção verdadeira.
Mas mesmo em sua forma mais desenvolvida, ela provê algo específico: pessoas que nos conhecem, e não a pessoa com quem partilhamos a vida. Esse fosso, entre ser conhecido e viver plenamente, é algo que a promessa não previu, e que se manifesta de maneira marcante na vida adulta.
As mulheres mais isoladas não previram que a vida social continuaria organizada em torno do casal.
Tudo, na vida adulta, é concebido para dois, mas elas chegaram sozinhas.
As estruturas sociais na vida adulta organizam-se amplamente em função dos casais. Jantares são muitas vezes realizados em pares, e as férias são frequentemente planificadas com base nos parceiros. Formulários médicos pedem um contato de emergência, e a maioria das pessoas indica um cônjuge ou familiar, mesmo que uma pessoa de confiança possa, em teoria, ser um amigo. Na prática, esta não é a primeira opção que vem à mente. As questões administrativas, questões legais ligadas à vida familiar, a presença de alguém em emergências, tudo isto ainda se baseia na ideia de um referente estável e identificado. Elas aprendem a se virar sem isso, mas isso não representa um problema até certo ponto.
Isso não é dramático em si. É a repetição diária de chegar em casa sozinha, dirigindo. Uma amiga, que vou chamar de Stéphanie, contou que preenchia três vezes neste ano a ficha de contato de emergência no novo médico, parando sempre na mesma linha.
Não porque não tivesse ninguém a inscrever, mas porque nenhuma resposta realmente correspondia à pergunta feita. É a percepção de um alerta médico numa quarta-feira à noite e a realização de que não há ninguém para ligar que estaria disposto a deixar tudo para ajudar. A sociedade adulta não é hostil ao celibato, simplesmente não o prevê. Na vida adulta, quando a maioria vive organizada em torno de alguém, essa falta aparece de um modo que não existia aos trinta anos.
A independência das mulheres mais isoladas tornou-se uma identidade

As mulheres mais isoladas desta geração cresceram observando suas mães com necessidades, anseios e a busca de reconhecimento, e concluíram, de forma acertada, que viver com menos necessidades se mostraria mais seguro. Tornaram-se independentes.
Mudaram-se sozinhas, superaram desafios e construíram vidas que não necessitavam da ajuda de ninguém. Na vida adulta, a independência não era apenas um hábito, mas um verdadeiro estilo de vida. Eram as que se viravam, que encontraram soluções, que transmitiam a tranquilidade que os outros apreciavam.
O custo a pagar é sentido de forma insidiosa. Quando a solidão se instala, e ela se instala, essas mulheres ficam desorientadas, pois pedir o que necessitam é um hábito que abandonaram há muito tempo. Ligar para alguém e dizer que apenas querem companhia, não porque algo está errado, mas simplesmente porque não desejam estar sozinhas, requer uma facilidade que nunca lhes foi ensinada. Por isso, não o fazem.
As mulheres mais isoladas planejam quando podem. Vão se virando quando não podem. Seus amigos, igualmente ocupados e competentes, deixam de perguntar como estão, pois elas deixaram claro que essa necessidade não existe.
Uma vida visível e uma vida invisível
Seu calendário é real. Suas amizades existem. O trabalho que vale a pena, os projetos com seus entes queridos, aquele sábado que, de fora, parece a vida que sonharam construir. Nada disso é uma encenação.
Mas existe uma versão que ninguém vê: aquela que transcorre numa terça-feira à noite, uma vez que a última mensagem foi respondida, o silêncio retorna ao apartamento, e ninguém sabe, nem se importa verdadeiramente, como foi o dia. Essa parte não aparece nas fotos. É raramente mencionada nas conversas.
Frank Infurna e seus colegas, cujas pesquisas sobre a evolução histórica da solidão na vida adulta, constataram que os adultos maduros se sentem significativamente mais sozinhos do que as gerações anteriores, numa mudança parcialmente atribuída ao declínio dos laços comunitários e à transformação das estruturas sociais.
Esses estudos revelam que a solidão nesta faixa etária não se traduz necessariamente em isolamento. Ao invés disso, as mulheres mais isoladas possuem tudo o que se espera delas, vivem tranquilamente, sem exigir nada, pois, do exterior, nada parece faltá-las a ponto de ser percebido como uma perda.
Entre a fadiga, a ocupação e o silêncio

Não se fala de solidão, fala-se de estar ocupadas, cansadas, tudo parece bem.
Assim que um imprevisto ocorre, elas justificam de maneira diferente. Estão sobrecarregadas. Dormem mal. Precisam apenas de uma pausa. Não são mentiras; estão realmente ocupadas e cansadas, mas essas desculpas servem a um propósito. As mulheres mais isoladas escondem o que permanece silenciado: a tranquilidade peculiar de uma vida cheia, mas sem a presença daqueles que apenas assistem aos eventos.
Aqueles que não precisam ser informados. Aqueles que notam quando algo não vai bem. Essa tranquilidade é então confundida com as frases “estar ocupada”, “estar cansada” ou simplesmente “precisar de férias”.
Se esse sentimento permanece indefinido, é em parte porque a palavra não corresponde plenamente ao que elas sentem. A solidão implica uma forma de isolamento que elas não conhecem: a ausência de amigos, o sentimento de estar completamente sozinhas. Elas estão rodeadas de pessoas. O que sentem é algo mais preciso: uma sensação profunda e persistente que se oculta sob uma vida bem preenchida, que não surge de repente nem se manifesta de forma espontânea.
Não há remédio evidente, nem solução clara a adotar. Ninguém com quem falar realmente entenderia o que sentem, pois as pessoas que poderiam chamar são precisamente aquelas que provam que não estão sozinhas. Assim, esse sentimento permanece indefinido, fundindo-se com a fadiga, com o ritmo acelerado do dia a dia, na simples necessidade de uma pausa.
O retorno de necessidades esquecidas

Elas começam a querer coisas das quais aprenderam a não precisar.
Algo começa a mudar, lentamente. Elas começam a nomear esses sentimentos, ou ao menos a se permitir olhar para eles. Para algumas dessas mulheres isoladas, tudo começa com uma observação pequena, quase casual, que não relegam para o fundo de uma caixa.
Para outras, é um momento específico: um aniversário que passa sem a pessoa que gostariam tanto de ter por perto, uma amizade que, outrora, foi central em suas vidas e que gradualmente se afastou, uma conversa com um desconhecido em um avião, que é, ainda assim, a mais sincera que tiveram em semanas. O instante em que o que mais desejam é simplesmente a presença diária de outra pessoa, alguém que está ali.
O que elas começam a desejar não é nada complicado ou espetacular. Trata-se, principalmente, de coisas ordinárias que um relacionamento estável proporciona: alguém para voltar a casa, alguém que se interessa, alguém que está simplesmente presente, no seu estado normal, e não apenas quando passam por um momento difícil.
Disseram-lhes que não precisavam dessas coisas, que desejá-las era um anseio ultrapassado, ou mesmo inexistente. Mas estas mulheres mais isoladas descobrem, aos quarenta e cinco, cinquenta e cinquenta e cinco anos, que este desejo pode ser um **necessidade fundamental que sempre foi legítima**, a qual simplesmente aprenderam a renunciar.
Este artigo é apenas informativo e reflexivo. Não constitui conselho médico, psicológico ou profissional de qualquer tipo. As ideias discutidas baseiam-se em investigações publicadas e observações editoriais, e não resultam de avaliação clínica. Para a sua situação específica, recomenda-se a consulta a um profissional qualificado.




