E se algumas das rotinas em casa pudessem transformar uma criança num agressor e fomentar o bullying nas escolas? Em recreios, corredores e até nas redes sociais, as situações de bullying entre crianças são uma preocupação crescente. Muitos pais pensam que esses comportamentos só afetam os outros ou que se tratam de casos isolados. Contudo, as investigações revelam que é um fenómeno muito mais comum do que se imagina, abrangendo diversos tipos de crianças e realidades sociais. Compreender as suas origens é fundamental para a prevenção. Neste contexto, o papel da família é frequentemente analisado.
Existem muitos conselhos sobre a forma de ser um bom pai ou mãe, todos com o mesmo objetivo: criar crianças empáticas e solidárias. Descobrir que um filho pode ter praticado bullying torna-se, assim, particularmente difícil de aceitar.
Nos casos mais extremos, isso pode desestabilizar profundamente os pais, que se questionam sobre as suas escolhas educativas. Embora a maioria dos pais considere o bullying como destrutivo, até 20% das crianças já teriam intimidado um colega durante a sua escolaridade, desde a escola primária até ao secundário, segundo um estudo publicado no American Journal of Public Health.
Consequências do Bullying para Todas as Crianças Envolvidas
O mesmo estudo indica que tanto os autores de bullying como as vítimas apresentam um aumento dos problemas de saúde mental e são mais propensos a encontrar dificuldades escolares e sociais.
Crianças que praticam bullying podem enfrentar um maior risco de comportamentos delinquentes na adolescência e na vida adulta, enquanto as vítimas podem ter mais dificuldades em se integrar socialmente e em desenvolver relações saudáveis.
Portanto, torna-se essencial compreender porque razão alguns crianças adotam esses comportamentos e de que forma o ambiente familiar pode desempenhar um papel, muitas vezes indireto. Por isso, os especialistas recomendam estarem atentos a determinadas práticas parentais que, sem intenção consciente, podem influenciar o comportamento de uma criança fora do lar.
O Papel da Família na Formação de Comportamentos Agressivos

Conforme explica a psicóloga clínica Amber Thornton, o bullying está frequentemente associado a uma **falta de autoconfiança**. Quando se sentem inseguros, algumas crianças são mais propensas a agredir os outros.
“Geralmente, as crianças praticam bullying para se sentirem mais fortes ou para exercer controle. Frequentemente, isso ocorre quando estão inseguras ou têm dificuldade em expressar as suas emoções”, explica Thornton.
“Se uma criança está irritada, frustrada ou triste, pode descarregar essa frustração em outra para aliviar essa sensação, quando lhe faltam outras estratégias. O bullying também pode surgir quando uma criança já foi vítima de agressões ou menosprezos, por parte de outros colegas, irmãos ou até dos pais.”
Pesquisas em psicologia do desenvolvimento mostram que as crianças expostas a ambientes familiares onde predominam críticas constantes ou pouco apoio apresentam comportamentos agressivos e um risco superior de praticar bullying contra os seus colegas.
Práticas Educativas e Insegurança
Em cada momento em que um pai ou mãe permite que uma criança se sinta **invisível, incompreendida ou menosprezada**, o risco de comportamentos problemáticos pode aumentar, segundo Thornton.
“Isso pode manifestar-se através da minimização ou negação das emoções da criança, através de punições severas ou críticas contínuas. Tudo isso pode fazer com que as crianças se sintam impotentes, invisíveis, sem valor”, salienta.
“Podem procurar compensar essa falta de diversas formas, sendo uma delas o controle sobre os outros através do bullying.”
Pesquisas na área de psicologia do desenvolvimento, incluindo as de Hope e Chapman (2019), mostram que crianças expostas a interações parentais invalidantes costumam ter mais dificuldades de regulação emocional, um fator associado a um aumento de comportamentos agressivos.
Os Efeitos do Humor no Comportamento Infantil
Os pais devem também estar alerta para comportamentos desvalorizantes, mesmo que disfarçados de humor. Comentários repetidos sob a forma de “piadas” podem impactar a autoestima de maneira significativa.
“É complicado, pois os pais podem agir assim sem intenção, por fadiga ou sobrecarga mental”, explica Thornton. “A falta de tempo ou disponibilidade pode, sem querer, levar à minimização das necessidades da criança.”
Estudos longitudinais na área de psicologia do desenvolvimento, como os de Skripkauskaite et al. (2015), mostram que interações familiares negativas e críticas parentais estão associadas a dificuldades de regulação emocional e a comportamentos agressivos na adolescência.
Condições Familiares e Comportamentos Agressivos

A dinâmica familiar visível no dia-a-dia tem também um papel crucial. A conselheira em saúde mental Anita Powell, que trabalhou com crianças em contextos escolares e extraescolares, indica que as crianças que têm comportamentos de bullying muitas vezes reproduzem padrões relacionais que observam em casa.
Quando os pais frequentemente perdem a calma, gritam ou demonstram comportamentos desvalorizantes, as crianças podem ter dificuldade em identificar interações sociais saudáveis.
“Quando expostas a esses comportamentos sem um contexto explicativo, elas acabam por considerá-los normais”, explica Powell. “Isso pode criar confusão sobre o que é uma relação respeitosa e equilibrada.”
As pesquisas de Diana Baumrind (1971), confirmadas em meta-análises posteriores como as de Pinquart (2017), demonstram que o estilo parental autoritativo, que combina calor e estrutura, está associado a menos comportamentos agressivos nas crianças. Por outro lado, estilos autoritário, permissivo ou negligente estão relacionados a mais dificuldades comportamentais.
A Importância da Comunicação e da Educação Emocional
Powell enfatiza a necessidade de diálogos reparadores e do desenvolvimento de competências emocionais.
“Devemos incentivar as crianças a serem solidárias com os outros e dar o exemplo desde muito cedo”, afirma. “Elas precisam aprender a estar cientes das suas emoções e compreender como expressá-las de maneira adequada.”
Salienta ainda que é essencial criar ambientes seguros onde a criança possa expressar o que sente sem medo de ser julgada.
Grandes meta-análises na área de psicologia da educação, incluindo as de Durlak et al. (2011) e Taylor et al. (2017), mostram que programas de aprendizagem socioemocional (SEL) estão associados a uma redução significativa no bullying e a uma melhoria do clima escolar.
Powell acrescenta que é importante ajudar as crianças a reconhecerem os seus erros, a pedir desculpas e a entender as consequências das suas ações, adaptando as respostas educativas de acordo com a idade.
Como Lidar com Comportamentos de Bullying e Crianças Agressivas

Conforme sugere Thornton, a primeira etapa ao lidar com comportamentos de bullying não deve ser a punição imediata, mas sim a **compreensão do que se passa**.
“A primeira fase consiste em tentar entender o ponto de vista da criança”, explica. “É importante iniciar a conversa com curiosidade e sem julgamentos, enquanto se deixa claro a gravidade da situação.”
Ela recomenda aos pais que explorem não só os comportamentos, mas também as emoções e pensamentos subjacentes a eles.
Em alguns casos, esses diálogos podem ser suficientes para provocar uma mudança. Em outros, pode ser necessário um apoio mais estruturado, incluindo ajuda psicológica ou trabalho nas competências sociais.
Estudos clínicos e ensaios controlados, como o estudo longitudinal de Castillo-Gualda et al. (2013) e a meta-análise de Durlak et al. (2011), demonstram que intervenções precoces centradas na regulação emocional e nas competências sociais reduzem significativamente os comportamentos agressivos nas crianças e adolescentes.
Prevenção Através da Escuta e Regulação Emocional

De acordo com os especialistas, a **prevenção do bullying** baseia-se em grande parte na qualidade do vínculo entre pais e filhos.
Uma criança que se sente ouvida e que pode expressar o que sente tem menos probabilidade de desenvolver comportamentos agressivos, segundo várias pesquisas em psicologia do desenvolvimento. Assim, os pais estarão menos propensos a criar um agressor.
Ao fomentar a inteligência emocional e promover um ambiente familiar estável e solidário, os pais podem contribuir para reduzir os riscos de comportamentos de bullying e evitar transformar uma criança num agressor, ao mesmo tempo que favorecem relações mais saudáveis.
Este artigo é meramente informativo e reflexivo. Não constitui, em nenhum caso, um parecer médico, psicológico ou profissional. As noções aqui abordadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, não resultando de uma avaliação clínica. Para a sua situação particular, consulte um profissional qualificado.




