Acreditem em mim, não se trata de facciosismo ou teimosia, chamem-lhe crença, se assim o entenderem… A convicção profunda que o Toureio Clássico à Portuguesa, respeitando a sacrossanta regra de ir de frente para os toiros, abrir os quarteios o menos possível, sem batidas, e deixando os ferros de alto abaixo e ao estribo, é aquele que, por mais arriscado, se torna mais puro, válido e emocionante. Em resumo, é nesse tipo de Toureio que reside a Verdade, tão necessária à sobrevivência da Festa Brava. Porque só quando se concedem todas as vantagens ao toiro e o homem “joga” ao máximo a sua própria segurança se cumprem na plenitude os preceitos éticos que fazem da Tauromaquia uma Arte maior!
Mas não é só no momento das cravagens dos ferros que se materializa essa forma de tourear que tanto me preenche… A lide total, “mexendo” nos toiros, sabendo passar-lhes por um e outro píton para os equilibrar, obrigando-os a ligarem-se às montadas, para os desenganar de querenças e alegrar as investidas, jogando com os seus terrenos, técnicas que se empregam para que possam exprimir o que levam dentro, de mau ou de bom, em prol do brilhantismo da actuação… A brega intencional, adequada a cada adversário que se tem por diante, para que também o público possa compreender que cada toiro tem os seus problemas e pede diferentes soluções… E tudo isto feito com naturalidade e senhorio, mais uma vez de acordo com os cânones: montadas sujeitas pela mão esquerda e conduzidas com as pernas, sem “martingalas”, sem esforço aparente, como se o binómio homem-cavalo se transformasse num só… Este é “O” Toureio a Cavalo!
E foi mais uma vez em Vila Franca, nesse verdadeiro palco dos sonhos que é a “Palha Blanco”, que o maior expoente de hoje e de há vários anos dessa autêntica Arte de Marialva voltou a ditar cátedra! Aconteceu no quarto da noite, descastado e sem transmissão, como todo o desinteressante curro de Passanha, mas que pareceu bem melhor nas mãos experientes de quem o soube tratar exactamente como pedia, pondo da sua parte tudo o que o toiro não tinha, bregando com extrema inteligência e sempre muito ligado, enchendo praça com beleza e parcimónia e obrigando sempre o adversário a “lembrar-se” que a sua função era a de investir a quem sempre lhe pisou os terrenos de frente e com muito compromisso, entrando absolutamente recto nos momentos de colocação dos ferros, resultando absolutamente extraordinários o primeiro e o quinto curtos, numa actuação que só não atingiu os níveis de apoteoses passadas porque, efectivamente, por mais imaculada que tenha sido, não contou com a tão necessária casta e emoção que têm de ser dadas pelas investidas de um verdadeiro Toiro Bravo…Não obstante, António Ribeiro Telles foi de novo ART(e), perfeito em tudo o que fez, ainda e sempre orgulhoso e máximo representante da sua forma de entender e expressar o Toureio a Cavalo. E, como em tantas outras vezes, para quem, como eu, só se emociona verdadeiramente com essa maneira de o abordar e revelar, foi novamente “Santo António” quem nos valeu…
No que diz respeito às lides equestres, a Corrida contou igualmente com uma boa intervenção de João Moura Júnior no quinto da função, segundo do seu lote. Desenvolveu uma lide onde sobressaiu a sua inteligência toureira, não só na abordagem ao oponente, mas sobretudo na sensibilidade para entender e conectar com o público. Este último facto foi claramente marcado no brinde a António Ribeiro Telles, após o seu magnífico momento no toiro anterior e na forma como, ao contrário do que aconteceu no seu primeiro, quase prescindiu dos bandarilheiros na arena, logo desde a saída, consciente que a sua presença constante é das coisas que mais incomoda e exalta o sábio público Vilafranquense.
Iniciou a função com um emocionante e muito ajustado comprido à porta gaiola, perfeito de execução e colocação, que desde logo aqueceu os ânimos do respeitável. Nos curtos empenhou-se numa brega bastante mais intencional e ajustada do que a da sua primeira actuação, apenas pecando por atacar demasiado o adversário no caminho para as cravagens, não o deixando tomar iniciativa, pelo que acabava por entrar de tal maneira nos seus terrenos sem que este arrancasse (outro exemplar absolutamente descastado), que alguns acabaram por resultar a toiro quase parado. A lide terminou em crescendo, com duas emocionantes, arriscadas e belas “Mourinas”, que levaram o público ao êxtase. É uma sorte muito impactante, que me agrada bastante, sempre como remate de uma função e à qual reconheço um grande mérito, já que o cavalo tem de partir de uma posição em que está de costas para o toiro e conseguir ganhar-lhe e redondear-lhe a cara pelo píton contrário, sendo que o segundo parte claramente em vantagem pois tem a primazia na arrancada e facilmente ganha mais velocidade que o primeiro. Ainda assim, custa-me a compreender porque teve a paciência e o temple de se chegar ao Passanha e provocar-lhe as investidas para a execução destes dois magníficos ferros e não o fez em momentos anteriores, para as cravagens de frente. Em todo o caso uma boa actuação que teve o condão de levar a emoção às bancadas, numa noite em que a tremenda falta de casta do curro raramente permitiu que esta aflorasse.
Nota negativa para a segunda volta que deu à arena acompanhado do seu cavalo, um momento absolutamente forçado e que por poucos foi pedido, até porque foi bem visível do local onde me encontrava que, a meio da primeira volta partilhada com o Forcado, já a montada se encontrava junto à porta de cavalos, preparada para um momento de “apoteose” completamente artificial e desnecessário.
Nos seus primeiros toiros António Telles e João Moura Júnior estiveram longe do seu melhor nível e João Ribeiro Telles Júnior teve uma noite para esquecer, não procurando minimamente ajustar-se e lidar os Passanhas que teve por diante (tal como os restantes, mansotes e descastados, mas sem dificuldades) e recorrendo constantemente às cambiadas e batidas a píton contrário para a cravagem de praticamente todos os ferros, como se outra coisa não soubesse fazer. A intervenção dos seus bandarilheiros, dentro da arena ou fora de tábuas, com constantes avisos de capotes, foi também uma vergonhosa constante. Honra lhe seja feita, teve o pundonor toureiro de recusar volta no seu segundo, apesar de esta lhe ter sido inacreditavelmente concedida.
Neste sentido, foi também absolutamente desastrada e errática a actuação do Director de Corrida, Tiago Tavares, quer na concessão de música, como nos momentos em que decidiu fazê-lo, mas sobretudo como premiou de forma igual seis lides que foram absolutamente distintas, com apenas duas a serem merecedoras da honra da volta. Porque é de uma honra que se trata, não de uma obrigação, embora pareça o contrário na maior parte dos casos. Talvez seja o sangue a falar, mas em Vila Franca um pouco mais de seriedade por favor!
Sobre o Director e também sobre o comportamernto dos Passanhas mais uma vez nos apeteceu exclamar “Valha-nos Santo António!”, desta vez de forma negativa, é claro. O curro de toiros, de boa apresentação e muito igualado em hechuras, embora alguns excessivamente aleonados e fracos por trás (perdendo algumas vezes os quartos traseiros a denotar essa fraqueza), foi também e lamentavelmente muito igualado na sua absoluta falta de bravura, entrega e/ou agressividade, com alguns mansos que reservaram para os Forcados os seus únicos atisbos de agressividade. Uma escolha equivocada, para uma Praça que privilegia acima de tudo a emoção e transmissão de uma investida com raça…
E se na “Palha Blanco” o Toiro é respeitado e tem importância como poucos, também para o Grupo de Forcados da Terra, como não, é reservado um carinho e uma admiração muito especiais, sendo desde há muitos anos a esta parte a Tradicional Noturna de Terça-Feira de Feira, reservada como a Noite de Exaltação ao Forcado Vilafranquense.
A Corrida iniciou-se assim com uma sentida e bonita homenagem da Banda do Ateneu Artístico da cidade ribeirinha, estreando o passodoble dedicado ao Grupo, com todos os elementos de ambas as entidades presentes na arena, num momento emotivo e carregado de simbolismo.
E bem que poderíamos também falar desta Corrida, como de exaltação a “UM” Forcado, neste caso o enorme André Matos, segundo ajuda de eleição, dos melhores que já pisaram as nossas arenas, e último representante de uma extraordinária geração de ajudas, que em muito contribuíram para que os Amadores de Vila Franca continuem ainda e sempre a serem reconhecidos como um Grupo que prima, essencialmente, por uma coesão acima da média, na forma como se solidariza e se entrega em uníssono frente aos mais duros dos toiros e aos mais difíceis dos desafios. Despediu-se no segundo toiro, pouco importando aqui a análise técnica da pega, com as suas lógicas limitações, mas relevando sobretudo mais uma das suas extraordinárias lições de humildade, ao não dar a tradicional volta à arena, limitando-se a partilhar com o seu irmão gémeo, Emanuel, outro Histórico do Grupo e da Forcadagem Nacional, uma sentida ovação recebida no meio da arena. No seio dos seus amigos, meio a brincar, meio a sério, ganhou a alcunha de “Maestro”. Aos meus olhos, pelo muito e extraordinariamente bem que serviu o Grupo, sofrendo algumas vezes na pele muito duras mazelas decorrentes de quem tudo deu dentro de Praça para honrar os companheiros e a jaqueta envergada, sempre com humildade e sobriedade máximas, o epíteto assentar-lhe-á para sempre de maravilha… Muito obrigado por tudo André!
No capítulo das pegas abriu Praça o Cabo, Vasco Pereira, que viu como o Passanha que pouco se encastou durante a aliviada lide de António Telles, decidiu sacar a mansidão que levava dentro, arrancando-se nas duas tentativas efectuadas aos “galões”, com um galope bruto e aplicando um alto e muito violento derrote. Esteve sempre perfeito nos cites, em especial no segundo, onde teve a paciência de aguardar que o toiro se fixasse definitivamente em si, para o carregar com muita decisão e fechar-se com braços de ferro, contando depois com um bloco de ajudas que esteve “à Grupo de Vila Franca”, destacando-se a grande intervenção do “primeiras” Diogo Duarte, tal como nos tem vindo a habituar.
Para o terceiro da noite foi chamado David Moreira “Canário”, forcado de grande classe e sobriedade, que recebeu a investida na perfeição e viu como o toiro se acobardou e parou mal sentiu o peso da excelente primeira ajuda de Ivo Carvalho. A quarta intervenção dos Amadores Vilafranquenses teve como solista Guilherme Dotti que, após um bonito brinde à Banda do Ateneu, se fechou sem problemas de maior a um toiro que teve o mesmo comportamento do anterior, parando-se mal sentiu o Forcado e o primeiro ajuda fechados, sem tão pouco fazer grandes âmagos de se defender ou de lutar. Seguiu-se Rui Godinho, a quem tão pouco assentaria mal a alcunha de “Maestro”. É dono de uma técnica impar, trazendo as investidas toureadas com verdadeira classe e beleza, “templando” defeitos e asperezas, às vezes até demais, como neste caso, em que mais uma vez a falta de casta fez com que o toiro como que desistisse da luta a meio do galope em direcção ao Forcado, obrigando o Rui a emendar-se numa fracçao de segundo e a ter de “sacar” os braços, recebendo por isso dois fortes derrotes, prontamente abafados por uma oportuníssima ajuda de Francisco Calçada, outro jovem que é já um valor seguro desta nova “fornada” do Grupo de Vila Franca. Francisco Faria, a quem estava reservada mais uma “prenda”, encerrou com chave de ouro esta Noite de Exaltação, fazendo novamente gala dos seus principais atributos (Garbo, Valor, Técnica e Toreria, muita Toreria!) em duas duríssimas tentativas iniciais frente a um manso que colocava a cabeça de lado nas reuniões e logo derrotava “em ventoinha” impossibilitando que o Forcado se fechasse e que os restantes companheiros conseguissem chegar até si. Ao terceiro intento, com o toiro colocado em zona diferente, encurtou terrenos e não recuou tanto, recebendo assim uma investida mais franca, mas também mais bruta, contando com mais uma das excelentes primeiras ajudas do festejo, desta vez a cargo de Frederico Murta.
Noite de toiros a menos para um Grupo que, embora em fase de renovação, demonstrou ter acabado a época em excelente forma, dando indícios da enorme coesão que tem sido o seu apanágio e imagem de marca. No final, eram os próprios que se queixavam, pois em Corrida tão importante, teriam desejado bastante mais “guerra” e oportunidades de revelarem o seu verdadeiro valor e espirito… Coisas de (verdadeiros) Forcados!
Resumindo, nesta Terça-Feira, 8 de Outubro de 2019, 87º Aniversário do Grupo de Forcados local, cumpriram estes mais uma vez o seu mote, “Honrando a Jaqueta das Ramagens e a Cidade de Vila Franca de Xira”, António Ribeiro Telles foi novamente “Santo da Casa” e João Moura Júnior emocionou e entrou nos corações da exigente afición ribeirinha. O resto, como se diz, foi (pouca) história…










