“Na Verdade do Toiro-Toiro!”, um slogan muito utilizado ao longo da história da Festa Brava Nacional, umas vezes com bastante mais acerto que outras… Porque qual é, afinal, essa verdade? Trapio? Tamanho? Transmissão? Bravura? Eu diria que não há só uma, são muitas as características que definem um verdadeiro Toiro Bravo, mas destacaria, de entre todas, a Emoção, esse temor e esse respeito que sobem da arena em direcção às bancadas quando, ante a presença de um animal, que alia a imponência morfológica à seriedade de comportamento, todos sentimos, em simultâneo, que jamais seríamos capazes de o enfrentar… Reside aqui todo o fundamento de qualquer Tauromaquia: a admiração que desperta a pequena minoria de Homens capazes de se medir com a Fera, arriscando no acto a sua própria vida, sendo esse risco claramente percebido e sentido pela grande maioria incapaz de passar da bancada para o redondel.
Neste sentido foi modélica a Corrida da passada Sexta-Feira, 24 de Agosto, no Campo Pequeno, a que, felizmente, muitos portugueses tiveram oportunidade de assistir, quer na Praça (com a lotação quase cheia), quer através da transmissão efectuada pela TVI, vista, segundo dados disponibilizados, por 1.800.000 espectadores (isso mesmo, um milhão e oitocentos mil, coisa pouca, portanto). Da maravilhosa Galeana chegou-nos um curro de Murteira Grave absolutamente impressionante de apresentação e que, embora não atingindo as quotas gerais de bravura que todos esperávamos, teve o condão da casta e da raça, reflectidas numa enorme seriedade e exigência de comportamento, que conferiram enorme importância a tudo o que lhe foi feito, por parte dos intervenientes na Corrida. Está assim de parabéns, primeiramente, o Dr. Joaquim Grave, que mais uma vez vê associados os seus “amores” ao ingrediente principal da Festa: a Emoção! Uma imagem que já é de marca, fruto de um trabalho muito árduo, paciente e dedicado, que merece ser enaltecido!
Mas as verdades do Toiro, dependem também das próprias verdades de quem o enfrenta, dos argumentos, técnica, valor e arte de que dispõem para solucionar os seus problemas e aproveitar as suas investidas, ainda para mais quando as mesmas, independentemente da sua maior ou menor bravura, se encontram alicerçadas numa casta sempre potente e agressiva, como foi o caso…
Abriu Praça o Mestre dos Mestres, António Ribeiro Telles, frente ao “Bandido”, 648 Kgs de imponência, muito aplaudido de saída, que rapidamente acusou tendência a tábuas e a reservar-se, desinteressando-se com facilidade das montadas, apesar de arrancar a espaços com emoção, tanto após os momentos da cravagem, como em algumas passagens do cavalo, na magnífica brega de António, que sempre procurou contrariar a “crença” natural. Iniciou com dois ferros compridos, o primeiro aproveitando a investida larga do oponente e o segundo a já ter de entrar em terrenos de compromisso, junto à teia. A tónica manteve-se nos curtos, destacando-se, essencialmente, mais uma lição de Maestro lidador, onde adquiriu tanta importância a colocação da ferragem, dentro da habitual pureza dos canônes, como as formas e a intenção a “mexer” no toiro, numa prestação muito agradável, que extraiu e aproveitou tudo o que o “Grave” tinha para dar.
Luís Rouxinol, na sua primeira prestação, enfrentou os 626 Kgs do burraco “Palomo”, que tão pouco saiu a responder com grandes indicações, manifestando demasiada atenção aos terrenos interiores. No entanto, com o decorrer dos dois compridos, fruto igualmente de uma brega muito cuidada e ligada, pareceu começar a responder em crescendo, não acusando tantas crenças como o anterior e perseguindo com mais duração. Manteve essas características nos curtos, proporcionando algumas espectaculares arrancadas, a “carregar” após os momentos dos ferros, sustidas com muito valor por parte do ginete de Pegões. O toiro, sério e muito encastado, entrava forte nas reuniões, o que nem sempre permitiu que as mesmas decorressem com total limpeza. O único somenos, numa actuação com a raça marca da casa, em que o cavaleiro correspondeu por inteiro à dureza e poder do oponente.
Encerrava a primeira parte do festejo João Moura Júnior, a quem calhou em sorte um verdadeiro “General”, a quem toda a Praça bateu continência mal surgiu dos curros, protótipo da seriedade, presença e imponência do Toiro de Lide, nos seus altivos 584 Kgs de pelagem sarda, que saíram disparados como uma flecha para os compridos, proporcionando igualmente um espectacular primeiro curto, arrancando-se de tábuas para meio da Praça, onde o cavaleiro cravou com muito ajuste e verdade, sofrendo inclusive um ligeiro toque, fruto da enorme exposição. O segundo ferro foi um pouco mais aberto, mas voltou a entrar com todo o risco no terceiro, sofrendo novo perdoável toque. Enquanto isso, o “General” mantinha a alegria e a prontidão nas investidas, arrancando-se a todas as solicitações de João Moura Júnior, que esteve em enorme plano, na forma como o luziu, dando-lhe sempre primazia nas arrancadas, em emotivos cites de Praça a Praça. Para além do já referido primeiro, merece grande destaque a quinta bandarilha, cravada com toda a pureza, ante a entrada fortíssima do oponente! Toiro e Cavaleiro em nível superior, numa lide para recordar!
Em quarto lugar, o colorado “Sandokan” (582 Kgs), outro “taco” de toiro, que mais uma vez motivou de saída os aplausos do respeitável e a quem António Ribeiro Telles foi pronto a colocar o primeiro comprido, procurando desde logo aferir as condições do adversário, o qual manifestou mais alegria e franqueza nas investidas iniciais, do que o seu anterior. Sofreu um toque inicial no primeiro curto, e abriu demasiado o quarteio no segundo, que resultou num “pescanço”. O toiro foi, a pouco e pouco, aumentando as dificuldades, medindo muito o que tinha na frente, e fazendo estranhos ou atravessando-se nos momentos das reuniões. A quarta bandarilha resultaria de belo efeito, não fosse ao “Sandokan” terem faltado as mãos no momento a cravagem. António nunca se perdeu, frente às dificuldades do encastado e complexo Grave e cresceu para a cravagem de um extraordinário quinto ferro, frente à dura investida e de um igualmente bom sexto. Actuação sóbria e séria, mas algo alternante, fruto também das características do oponente.
“Enfurruñado”, negro de 552Kgs, foi o segundo toiro de Luís Rouxinol, saindo a galopar com muita alegria e “fijeza” atrás da montada, optando o cavaleiro pela colocação de três correctos compridos, procurando talvez um maior “temple” para os curtos. O Grave manteve o excelente comportamento no segundo tércio e permitiu a Rouxinol uma brega intencional, vistosa e mexida (importantíssima pela maneira como impediu que, em determinado momento, o toiro acentuasse uma tendência a refugiar-se em tábuas que vinha a ameaçar), respondendo sempre com franqueza nos momentos das cravagens, que ocorreram com brilhantismo e sem concessões, numa actuação muito agradável, com a habitual alegria, entrega e Maestria, apanágios desta Figura da Arte de Marialva, rematada com o habitual e emotivo par de bandarilhas. Nota, quer para o “Enfurruñado”, quer para Luís Rouxinol.
Coube a honra de fechar a magnífica noite ao “Jazminero”, um castanho bragado de 580 Kgs, que “entrou com tudo” na ferragem comprida para, num segundo momento, parecer regressar um pouco à tónica do companheiro de camada corrido em primeiro lugar, não revelando excessiva entrega no remate das sortes e na perseguição das montadas. No entanto, com o decorrer da lide, foi muito em crescendo, graças também a uma extraordinária actuação de João Moura Júnior, excelso a partir de frente e a aguentar até ao último momento, fazendo-se valer de quase impercetíveis batidas, não para enganar o adversário, mas apenas para desviar o cavalo do seu caminho, até ao limite máximo do risco. Em todos os ferros repetiu a fórmula, com o toiro arrancando-se e deixando-se em todos os terrenos e com o cavaleiro, novamente generoso, toureiro e com verdade, a permitir-lhe todas as vantagens, demonstrando dois níveis superiores de bravura: a do Homem e a do Animal! Em termos de Toureio a Cavalo, a noite foi sem dúvida sua, obtendo um verdadeiro e incontestável Triunfo!
E, se de triunfadores falamos, é da mais elementar justiça destacar o nome do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, com três pegas onde apenas faltou alguma ponta de sorte para atingir um nível absoluto de perfeição. Em todo o caso, como é seu timbre, voltaram a deixar constância de uma Alma de Aço e de uma preparação técnica superior que, em conjunto, são a sua receita de sucesso para brilharem tanto mais quanto as dificuldades e a dureza dos toiros que enfrentam.
Coube ao futuro Cabo, Vasco Pereira, abrir a actuação do Grupo, ante o enorme “Bandido” que aparentava, efectivamente, intenções “criminosas”. As suas duas pegas, pois é disso que se trata, foram absolutamente indescritíveis, pela vontade e força que demostrou ao aguentar na cara os impressionantes derrotes durante as viagens e só não conseguindo consumar à primeira porque o toiro ainda tinha reservado dois últimos brutais “abanões”, antes das terceiras-ajudas fecharem por completo, o que permitiu que rodasse e despejasse o forcado, sem oposição. Na segunda tentativa, nada havia a corrigir por parte do Vasco, partindo novamente com calma e decisão, suportando uma entrada “bárbara” que o levou a dobrar as pernas ao nível da sua cabeça e contando com um extraordinário grupo atrás de si, destacando-se as intervenções do “primeiras” Diogo Duarte e do “segundas” João Maria Santos. Um verdadeiro Monumento, pelo qual o Forcado mereceria duas voltas à arena, solicitadas ruidosamente pelo público, mas que acabou por não dar. Seguiu-se Márcio Francisco, consagrada Figura da Forcadagem, unanimemente reconhecido como um dos mais duros e valorosos guerreiros que envergam actualmente a Jaqueta das Ramagens. Viu o “General” arrancar solto e parece ter faltado que alegrasse um pouco mais a sua viagem, sofrendo ainda um ligeiro estranho no momento da reunião, levando a que o toiro colocasse a cara de lado e aplicasse um enorme derrote, que de imediato expulsou o forcado. Na segunda tentativa, fruto de muita experiência acumulada, já foi ele que mandou por completo na pega, desde o momento do cite até ao recuar, a trazer a investida muito bem toureada, para se fechar com os habituais “alicates”, acabando o adversário por tropeçar, momento aproveitado pelo eficaz bloco de ajudas para fechar a pega. A encerrar a noite em beleza, o arquétipo da sorte de caras, por intermédio de Francisco Faria que, após um sentido e reivindicativo brinde ao Presidente da Câmara de Vila Franca, citou com “toreria”, recuou em passos curtos, com precisão milimétrica, recebeu no momento exacto, fechando-se com enorme garra e aguentando a dura viagem até à entregue e valiosa ajuda de João Maria Santos, desta vez nas primeiras, seguindo-se uma magnifica intervenção do segundas Bernardo Alexandre, com os restantes companheiros, a fechar a luta cá atrás com muita garra e decisão. Uma grande noite dos Amadores Vilafranquenses, em mais uma demostração cabal do porquê serem considerados como um dos melhores Grupos do país, assim haja oportunidades para o continuarem a demostrar.
No capítulo da falta de oportunidades pode igualmente queixar-se com amargura o Aposento da Moita que, de acordo com a locução da Corrida, a qual depois revi, realizava apenas e inexplicavelmente, a sua terceira Corrida do ano. Talvez por isso não teve a sua noite, acusando uma falta de rodagem que também é essencial para enfrentar o desafio que representava este curro. O seu primeiro foi pegado à quinta tentativa, a sesgo e com ajudas muito carregadas, por Marco Ventura, após três intentos iniciais de Ruben Serafim, que escorregou no primeiro, com o toiro a passar-lhe por cima e não conseguiu receber bem nos dois seguintes, sofrendo em ambos um derrote lateral, que de imediato o derrotou. Para o segundo, decidiu o Cabo, José Maria Bettencourt, chamar a si a responsabilidade, só logrando o êxito à terceira, novamente com ajudas carregadas, após duas primeiras reuniões em que o forcado se encolheu, sendo lançado pelas investidas muito humilhadas. Finalmente, nota muito positiva, para a última intervenção, por intermédio de Leonardo Matias, numa excelente pega ao destacado “Jazminero”, que entrou com muita velocidade e poder, sendo perfeitamente “toureado” pelo forcado da cara e auxiliado de forma exemplar pelo restante Grupo, sendo de destacar a decisão do primeiro ajuda e a forma como os terceiras fecharam em bloco, num momento em que o bravo voltava a derrotar cá atrás.
Murteira Grave, João Moura Júnior e Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, os três nomes cimeiros de uma magnífica Corrida de Toiros, que em boa hora a TVI decidiu transmitir, levando a centenas de milhares de pessoas (é bom recordar de novo: um milhão e oitocentas mil!!!) a Verdade do que é esta Festa e dos motivos porque tanto nos apaixona! A Casta, Raça e Poder dos primeiros, frente ao Valor, Arte e Técnica dos segundos! Em resumo: EMOÇÃO!










