Faz precisamente hoje 1 ano que faleceu o forcado Fernando Quintella do Grupo de Forcados Amadores de Alcochete, depois de ter sido colhido a tentar pegar (a 15/09/2017) no concurso de Ganadarias da Moita durante a sua 2ª tentativa. Era o 4º toiro da noite com o peso de 530kg, pertencente à Ganadaria Prudêncio e tinha sido toureado por João Moura Jr.
Fernando Quintella foi assistido na praça e posteriormente foi transportado para o Hospital de S. José, onde foi operado devido a hemorragias internas. Infelizmente acabou por não resistir.
| Fernando Reynolds Quintella |
| Local de Nascimento | Lisboa |
| Data de Nascimento | 21-08-1991 |
| 1ª Fardação | Mont Marsan – França |
| Data | 21-07-2008 |
Fique com algumas palavras de Duarte Palha e dos seus cabos Vasco Pinto e Nuno Santana:
Quem nos dera a todos morrer como tu, Fernando. Com o coração a bater. Porque tu morreste com o coração a bater. Tu morreste cheio de vida. Não de vida por viver, mas de vida já vivida, e é essa que conta no fim das contas. A vida não é de poupanças, porque tem um fim certo. E tu usaste toda a vida que tinhas para usar. Até um toiro te levar.
A vida não se guarda aos poucos debaixo do colchão, porque não se faz fortuna a poupar a vida. A vida só é uma fortuna quando aproveitada, com o coração a bater, aos saltos, a sair do peito. Quando sentimos. O frio, o calor, a chuva e o vento. O medo, a alegria, a felicidade, o amor. Quando nos damos aos amigos, quando nos damos às paixões. Quando somos o que queremos e livres escolhemos os caminhos a fazer.
Não é trágica a tua morte. É triste e prematura, mas não trágica. Trágico é morrer na memória dos outros e com a vida vivida a metade. Com um coração que nunca bateu a sério. Que nunca sentiu o que o mundo tinha para dar.
Terias tu vivido a sério sem nunca ter sentido o cheiro do toiro? Sem nunca ter sentido o gozo de uma pega? Sem nunca ter tido medo antes de saltar para a arena. Sem nunca ouvir o silêncio das bancadas enquanto te olhavam. Sem nunca teres sentido os braços dos teus amigos a ajudarem-te e depois os seus abraços na trincheira. Sem nunca ter dado uma volta a praça. Sem nunca beber uma cerveja de penalti num jantar. Sem nunca sentir uma jaqueta e uma farda de forcado. Sem nunca saber o que isso é e o gozo que isso dá. Terias tu sentido a vida?
A tua morte não foi uma tragédia, Fernando. A tua morte, como escreveram, foi de “ataque de paixão”. E não há melhor forma de partir do que a lutar por uma paixão. Porque ser forcado não é uma atracção pela morte. É uma atracção pela vida por inteiro. Quem nos dera a todos morrer como tu, Fernando. Quem nos dera a todos ter paixões como tu. Quem nos dera a todos viver como tu.
Até já Fanã!
Duarte Palha
Forcado de recorte fino, ar frágil, mas de elevada capacidade técnica, passeou-se pela festa dos toiros da mesma forma como andou na vida, com simplicidade, elegância, humildade e fraterna amizade.
Foi em 2008, com apenas 15 anos de idade, que deu os primeiros passos na festa, numa digressão a Mont de Marsan (França), seguindo assim o caminho de seu pai e familiares, vestindo pela primeira vez, com compromisso e dedicação, a jaqueta dos Amadores de Alcochete.
Muitas foram as tardes e as noites que o jovem menino simplificou o que parecia difícil frente a toiros para homens de barba rija, sem que a responsabilidade da Praça influenciasse o seu rendimento ou fizesse duvidar do seu valor.
Contudo, a grande pega da sua vida foi sem dúvida a forma como se relacionou com todos aqueles que com ele se cruzaram, como acolheu nos seus braços os mais novos ou parou para ouvir os mais experientes.
A fatídica noite da Moita deixou em todos nós dano irreparável. Porém, o legado de fé e de humildade, que semeou junto dos amigos, perpetuará na vida e Fernando só deixará de viver quando o homem deixar de ter memória.Vasco Pinto
“Nascemos a 24 de Junho de 1971 fruto da vontade de um grupo homens que quis seguir o seu caminho, unidos pela amizade e vontade de pegar toiros, para honrar o nome da Vila de Alcochete.
O caminho tem sido longo, duro em muitos momentos, mas também de sucesso, que orgulha todos aqueles que passaram pelo grupo ou gostam dele.
Passados 29 anos da morte de Hélder Antoño, voltamos a viver um momento muito difícil, com Deus nosso pai, a chamar para junto de si, um dos filhos mais puros que connosco caminhava.
Fernando homem de Fé e convicções, deixou-nos um legado enorme que iluminará o nosso trajecto. Exemplo de homem, filho, amigo e forcado estará sempre connosco e junto de nós, sabemos que nunca nos deixará em momento algum.
O nosso mais profundo obrigado a Deus pela bênção da presença do Fernando no grupo, pela oportunidade de aprender o que é ser crente, verdadeiramente, simples, honesto, e de nos deixar a mensagem de que será a Fé a conduzir-nos aonde Deus nos quiser levar.
“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida”Em nome do Grupo de Forcados Amadores de Alcochete agradeço as mensagens de apoio que temos recebido ao longo dos últimos dias e a presença de todos nas cerimónias fúnebres.
Em memória do Fernando e de todos aqueles que já nos deixaram, seguiremos o nosso caminho, com Fé e muita vontade de honrar as suas memórias e a nossa jaqueta.
Um abraço,
Nuno Santana”












