O calor humano que preencheu mais de ¾ da bancada na Praça de Toiros da Ilha Terceira, sobrepôs-se à sombria tarde com que São Pedro brindou aos aficionados.
Bem assente no panorama nacional, a corrida das Festas da Praia, trouxe até à Monumental de Angra os cavaleiros João Moura, o açoriano Tiago Pamplona, e João Ribeiro Telles Jr. Referência para a prova de praticante do jovem luso-descendente Manuel Sousa, na lide de um sétimo toiro. Perfilaram para as cortesias três grupos de forcados, os da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, Ramo Grande e Amadores de Beja. Foram lidados toiros de Rego Botelho e da ganadaria Passanha.
A história da corrida de 6 de Agosto teve início quando os ponteiros assinalavam 18h30. De pé e em silêncio, fez-se luto pelo ganadeiro local Humberto Filipe, falecido no passado dia 3. Abriu praça João Moura, o pai, a festejar 40 anos de alternativa e de grandes feitos, glórias e triunfos um pouco por toda a parte, marcando assim indiscutivelmente o seu nome nos compêndios da tauromaquia. Foi-lhe prestada simbólica homenagem, com entrega de uma placa assinalando a efeméride. A idade pesa, mas as limitações físicas são compensadas pela sabedoria, e foi dessa forma que Moura lidou de forma segura o primeiro do seu lote, um toiro de Rego Botelho, um negro com trapio e de bom comportamento. Esteve com mão certeira nos compridos, e de igual modo na cravagem dos curtos, não se livrando de um toque que poderia ter tido outras consequências. Lide bastante agradável que culminou com um ferro de palmo. Pelos homens da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, pegou Luís Cunha, resolvendo à terceira tentativa com o grupo a carregar.
O número 87, um toiro de Rego Botelho que pesava 488 kg, foi o primeiro oponente de Tiago Pamplona. O “Evarento” saiu com pata, toiro com linhas bonitas, permitiu ao cavaleiro andar a gosto e iniciou a lide com dois compridos perfeitos. Trocou de montada, e sem grandes pressas, colocou o toiro em terrenos apropriados e logrou uma série de ferros curtos bem ajustados, em cima do toiro e com ganas. Toureou ao compasso das palmas e meteu a fasquia alta para os seus colegas de cartel. Sinal mais também para o toiro, um bravo que se mostrou disponível e codicioso. Outro grande momento da tarde foi a pega protagonizada pelo “pequeno” Américo, do grupo do Ramo Grande. Escolheu esta data para aos 52 anos de idade despedir-se das arenas. Brindou aos antigos e actual cabo, e fechando-se como uma lapa, consomou à primeira tentativa uma rija e vistosa pega. Volta sobejamente acarinhada pelo público, forte ovação para cavaleiro e forcado.
O “Ginja”, como é conhecido João Ribeiro Telles, frente ao primeiro do seu lote e terceiro da tarde, não teve a sorte desejada, e precisou de suar para tirar partido do toiro. Perante o hastado de Rego Botelho, número 96, deu início à sua tour 2018 por praças açorianas, uma vez que as próximas actuações serão na Feira Taurina da Ilha Graciosa. Saiu-lhe um toiro desinteressado, que virava a cara à luta e que mostrou desde cedo crença nas tábuas, teve que cravar a sesgo, numa lide esforçada que terminou com dois ferros de palmo. Para a pega deste terceiro toiro, foi cara Bento Quadros e Costa, dos Amadores de Beja, pega realizada ao terceiro intento.
João Moura lidou o quarto da ordem, da ganadaria Passanha, o ”Malaio”, toiro mais pesado da corrida. Bem coadjuvado pela sua quadrilha de bandarilheiros, o cavaleiro de Monforte não complicou na cravagem dos compridos, e nos curtos esteve certeiro mas com pouco brilho. Destaque para o quarto ferro curto, e os palmos finais, numa lide em que andou correto, mas ficou a ideia que podia ter tirado melhor partido do voluntarioso e nobre oponente. Com a jaqueta do grupo capitaneado por João Pedro Ávila, pegou à barbela o forcado Tomás Ortins, à primeira tentativa e sem grandes complicações.
Ao quinto da tarde, com o número 5 no costado, e ferro RB, Tiago Pamplona voltou a estar em bom nível. Correto na preparação das sortes, o cavaleiro reuniu bem com o hastado, e cravou ferros de verdade colocados “en su sitio”. Destaque para um 4º ferro curto de antologia. Tiago Pamplona saiu por cima, mais uma lide de encher o olho, frente a um toiro de bom comportamento e que cumpriu bem a função, mas que a espaços demonstrava debilidade nos membros anteriores. O jovem Rui Dinis consomou à primeira tentativa pelos Amadores do Ramo Grande. Volta à praça para ambos.
Enquanto a noite chegava, saía à arena o sexto da ordem, o toiro com o número 64 da ganadaria Passanha, a ser lidado por João Telles. De cara levantada e a fazer alguns feios, antevia-se novamente tarefa difícil para o cavaleiro da Torrinha. De estilo irreverente, Telles mostrou vontade de triunfar e nos curtos cravou no alto e nos terrenos do oponente. Trocou de montada e levou o público ao rubro com adornos, ferros de palmo e um violino que roubou palmas aos aficionados. Houve mais cavaleiro do que toiro, que mesmo assim foi de menos a mais. Pelos Forcados Amadores de Beja, Luís Eugénio consomou ao 4º intento e a sesgo.
A fechar a corrida, assistiu-se à lide de um toiro de Rego Botelho para o exame de Manuel Sousa. Não desperdiçou a oportunidade de se mostrar em tão importante certame, mas os nervos miudinhos do momento estavam bem presentes. Pouco habituado às montadas utilizadas, cumpriu a labuta e quando as coisas corriam menos bem, recebeu o apoio caloroso do público. Ressalva para o quarto ferro curto, terminando assim com nota positiva a sua prova de praticante. Para a última pega, saltou à praça o forcado Luís Sousa da TTT, fechando-se apenas à 3ª tentativa.
O espectáculo foi bem dirigido pelo director Rogério Silva, assessorado pelo médico veterinário Vielmino Ventura. Foi demonstrada uma vez mais a força da tauromaquia por estas paragens, e no final estavam de parabéns os intervenientes, e a organização da corrida, a cargo do Grupo de Forcados Amadores do Ramo Grande e da Tertúlia Tauromáquica Praiense.











