Os nossos passatempos, muitas vezes subestimados, podem ter um impacto significativo na nossa candidatura. Em busca de talentos, os empregadores não privilegiam apenas as competências técnicas; eles valorizam também candidatos que consigam integrar-se na equipa, participar ativamente na vida da empresa e trazer uma diversidade de experiências. Incluir determinadas atividades no seu currículo pode, portanto, reforçar a imagem de um candidato criativo, flexível e persistente.
Todavia, nem todos os passatempos são percebidos da mesma forma. Uma estudo publicado no Journal of Personnel Psychology revelou que certas atividades populares podem, paradoxalmente, ser um entrave à contratação.
Estes resultados evidenciam a importância de refletir cuidadosamente sobre como se apresentam os interesses no currículo. Não se trata de esconder as paixões, mas sim de destacá-las, mostrando como estas contribuem para o desenvolvimento de competências relevantes para a vaga em questão.
Os candidatos que mencionam a prática de videojogos como lazer são frequentemente avaliados como menos competentes pelos empregadores.

Uma pesquisa realizada na Alemanha apontou que um candidato fictício que referia os videojogos como atividade extracurricular era visto como menos atraente do que um candidato com características semelhantes que mencionava a prática de voleibol.
Curiosamente, apesar da popularidade crescente dos videojogos e das suas associações a vantajosas competências cognitivas, eles continuam a ser desvalorizados no contexto profissional.
Os empregadores tendem a subestimar as competências adquiridas através dos jogos, especialmente se estas não forem certificadas ou integradas numa formação escolar. Essa percepção resulta na impressão de que o candidato é menos competente e menos motivado.
No entanto, alguns setores profissionais começam a ver uma evolução na sua perceção.
Nos domínios da informática, engenharia, design, análise de dados ou gestão de projetos, as competências desenvolvidas através dos videojogos são cada vez mais reconhecidas.
Alguns empregadores valorizam até qualidades específicas ligadas aos jogos, tais como o pensamento sistémico, a adaptabilidade e a capacidade de colaborar eficazmente sob pressão.
Apesar desta evolução, as competências associadas aos videojogos devem ser apresentadas com precaução num currículo, uma vez que continuam frequentemente a ser subestimadas ou desvalorizadas por diversos recrutadores.
O estudo dirigido por Johannes M. Basch e seus colegas procurou entender como as competências relacionadas com videojogos influenciam a empregabilidade percecionada e a qualidade do currículo dos candidatos.
Os investigadores compararam a inclusão dos videojogos e de um desporto coletivo na secção de atividades extracurriculares, considerando dois níveis de domínio: médio e elevado.
Os resultados mostraram que os candidatos que mencionavam os videojogos eram sistematicamente avaliados de forma menos favorável do que aqueles que citavam o voleibol.

De acordo com os autores, este estudo representa um primeiro passo na exploração do papel das competências relacionadas com videojogos na seleção de candidatos.
Serão necessárias pesquisas futuras para ir além das limitações deste estudo e examinar se tais efeitos variam conforme os setores, as exigências das funções e as organizações.
Os empregadores apreciam sem dúvida candidatos que oferecem mais do que a mera destreza técnica.
Um indivíduo que se interessa por temas fora da sua área principal pode ser visto como um ativo valioso para uma equipa. Por outro lado, o mundo dos videojogos frequentemente carrega consigo preconceitos negativos, como a ideia de que os jogadores são preguiçosos ou sociais inábeis.
Embora milhões de pessoas joguem videojogos, mencionar esta atividade num currículo sem um contexto claro pode ser visto como uma perda de tempo.
Os recrutadores tendem a estar mais sensíveis a passatempos que compreendem e respeitam facilmente. Compreender como os seus interesses são percecionados pode, assim, ajudá-lo a determinar o que incluir e o que omitir do seu currículo.
Em suma, os resultados do estudo realizado na Alemanha por Johannes M. Basch e colegas revelam que indicar os videojogos como atividade extracurricular num currículo é, em muitos contextos, ainda percebido negativamente pelos recrutadores.
Mesmo quando as competências em videojogos eram descritas como elevadas, o candidato fictício que mencionava os videojogos era considerado menos empregável do que um candidato que indicava uma atividade desportiva como o voleibol, evidenciando os preconceitos persistentes em relação às atividades lúdicas.
Esta pesquisa sugere que, embora os videojogos possam desenvolver competências transferíveis valiosas (como pensamento estratégico, resolução de problemas, coordenação e trabalho em equipa), estas não são automaticamente reconhecidas como tal pelos empregadores, especialmente se não houver uma tradução explícita para competências profissionais valorizadas.
Em conclusão

Embora o universo dos videojogos esteja a ser progressivamente compreendido e valorizado em determinados setores, como as tecnologias, engenharia e design, ainda persistem obstáculos importantes para que esta atividade seja considerada um verdadeiro ativo competitivo na présélection de candidatos.
Para os investigadores, este estudo representa um passo significativo, mas há uma clara necessidade de continuar a investigar como as percepções variam entre setores, tipos de funções e organizações, a fim de entender melhor como traduzir e valorizar de forma eficaz as competências desenvolvidas através dos videojogos no mundo profissional.




