Rogério Amaro – Um empresário que gostava de Forcados

Crónica

Morreu o Rogério Amaro.

Há centenas de pessoas que teriam com ele uma relação muito maior do que eu alguma vez tive e que por isso poderão falar dele como forcado, como apoderado, como pessoa, com uma propriedade que eu não possuo. No entanto, neste momento da sua partida, gostava de destacar uma faceta que lhe conheci suficientemente bem e que nos dias de hoje anda, infelizmente, muito arredada do “mundillo” dos toiros.

O Rogério Amaro nasceu numa família humilde, filho de um bandarilheiro, se não me engano foi ajudado a estudar pelo Fundo de Assistência dos Toureiros (com essa ajuda andou no “famoso” Colégio de Benavente onde foi aluno da minha avó materna, a quem me mandava sempre mandar um beijo, embora também recordasse os ralhetes que esta lhe tinha dado por estudar menos do que devia), e teve a virtude de ser um homem ambicioso, que quis crescer, viver melhor, dar-se com gente com nível.

Ouvi-lhe várias vezes uma frase, que também ouvi muitas vezes na boca do Jorge Faria, que “o toureio é grandeza”, e quando ele dizia “o toureio” não falava apenas da arte de tourear dentro da praça, falava do toureio numa forma geral, da forma de estar, da forma de vestir, da forma de contratar, da forma de chegar, da forma de relacionar-se.

O Jorge Faria costumava completar esta frase dizendo “… e os forcados são toureiros”. “O toureio é grandeza e os forcados são toureiros”.

Não faço ideia se existe no mundo dos toiros quem se possa queixar de alguma atitude do Rogério Amaro, nem é minha intenção neste texto endeusar uma pessoa com quem apenas me cruzei. Mas pretendo salientar esta visão do Rogério Amaro sobre o mundo dos toiros, que era tudo menos miserabilista. Para ele “o toureio era grandeza” e por isso não lhe fazia sentido uma Festa de migalhas.

A Festa que hoje vivemos (e não falo da Festa condicionada pelo COVID, pois já antes estava assim) é, em grande medida, uma Festa miserabilista, onde há muitos agentes que não se importam de andar às migalhas, quais miseráveis. E isto tem uma face muito visível na forma como muitos Grupos de Forcados (talvez devesse escrevê-los com minúscula) para aí andam e como são usados por tantos promotores.

No curto período em que chefiei o Grupo de Vila Franca o Rogério Amaro estava de saída da Toiros & Tauromaquia, empresa na qual foi sócio do António Manuel Cardoso durante muitos anos. Não organizava diretamente corridas mas estava ainda totalmente no ativo como apoderado do Joaquim Bastinhas. A “força” desta dupla era enorme e a influência do Rogério era brutal, por isso, no início de cada temporada, pedia-lhe uma reunião para que ele me ajudasse a arranjar algumas corridas.

Esta reunião passava sempre por um almoço, num restaurante no Parque Mayer, almoço este que era demorado, onde o Rogério bebia um bom whisky, imagino que com uma conta choruda no final, que ele pagava sempre, nem sequer dando alternativa a que fosse de outra forma.

Ajudou-me a pegar várias corridas, em especial no ano 2001, no qual lhe comentei que tinha um grupo em transição, mas com compromissos importantes (foi o ano do centenário da Praça de Vila Franca) e que por isso precisava de pegar umas quantas corridas de 6 toiros em sítios de menor responsabilidade. Nunca me pediu nada em troca, a não ser que o Grupo estivesse bem. E, mais do que uma vez, reforçou o cachet com mais uns contos de reis, para que no jantar pudéssemos beber uma garrafa de Whisky.

Conto isto porque nos dias de hoje parece que se está a tornar normal que os Grupos de Forcados, para serem contratados, tenham de garantir a venda de X bilhetes, a angariação de Y publicidade ou, pior ainda, a realização de trabalhos menores (com todo o respeito) como a colagem da publicidade da corrida ou a montagem da praça desmontável.

Também parece que o mal já chegou a muitos toureiros, contratados por valores miseráveis ou mesmo pagando para tourear, e não falo dos jovens a começar, mas sim de gente com muitos anos de alternativa. Mas enfim, a mim toca-me mais o tema dos Forcados, que são amadores, condição que os devia engrandecer em vez de menorizar.

Há muita gente que acha que os comportamentos que acima mencionei não têm mal nenhum. Se os Grupos estão dispostos a isso, se até têm Câmaras ou Juntas de Freguesia que os ajudam facilitando o uso de um autocarro para levar a malta da terra que compra o bilhete, se há amigos dos Grupos que para os verem pegar estão disponíveis para patrocinar, qual é o problema?

O problema meus caros, é que o “Toureio devia ser grandeza, e os Forcados deviam ser Toureiros”. Para quem partilha desta visão, proceder como se anda a proceder, em tantas corridas e com tantos Grupos, é uma vergonha. Vergonha quer para quem se sujeita a isso (os tais Grupos, que deviam ser banidos por serem indignos da condição de Forcados Amadores), quer para quem contrata nestas condições (os tais empresários que assim procedem).

O Rogério Amaro não contratava assim. Tinha sido Forcado e gostava de Forcados. Tinha gosto em anunciar nas corridas o “Toiro-Toiro”, com “Idade, Peso e Trapio” (palavras que cumpria, e que quase sempre faziam parte dos cartazes das suas corridas) e tinha gosto em anunciar bons Grupos de Forcados para pegar essas corridas, sendo a qualidade desses Grupos medida pela forma como batiam as palmas aos toiros, pela sua arte e pela sua valentia, e não pela capacidade de angariar publicidade, colar cartazes ou vender bilhetes aos amigos.

Para o Rogério Amaro o Toureio era grandeza e os Forcados eram toureiros! Eu pelo menos, recordar-me-ei dele assim.

Diogo Palha – 6/11/2020

Foto destaque Estudio Z, Luís Azevedo

Ultimos Artigos

Artigos relacionados