Para maiores de 18

Crónica

Praça de Touros do Campo Pequeno, 08.08.2019

Corrida do Emigrante

Cavaleiros:

João Moura

Rui Salvador

Luis Rouxinol

Grupos de Forcados Amadores de Tomar, São Manços e Caldas da Rainha, capitaneados respetivamente pelos Exmos. Senhores Marco de Jesus, João Fortunato e Francisco Mascarenhas

Ganadaria Veiga Teixeira

Direção pelo Exmo. Senhor João Cantinho, com assessoria do médico veterinário, Jorge Moreira da Silva.

A corrida com honras de transmissão televisiva pela TVI, canal assumidamente não anti taurino. Não foi transmitida em direto, mas com um atraso de trinta minutos, e aproveitando a ocasião, bem sei que o meu papel aqui é relatar ou cronicar o melhor possível o que ali se passou, permitam-me uma opinião, ou desabafo, como queira o ilustre leitor que perde o seu tempo ao ler-me, entender.

Fico surpreendido com tanta indignação social, e o social aqui restringe-se ao maravilhoso mundo das redes sociais, à vida paralela que por ali se pratica, lançando os maiores impropérios aos canais televisivos de sinal aberto que ainda se dignam a transmitir corridas, dois, exclusivamente dois, fazem-no indeferido e com atraso, mas fazem-no e para mim o importante é isso mesmo, transmitirem, se o fazem em direto ou não torna-se secundário, se preferiria que fosse em direto, sim, mas a vida não é perfeita, e não podendo ser, pois que venha com atraso.

Temos que ultrapassar um bocadinho a bipolaridade do preso por ter cão e por não ter. No momento que atravessamos, qualquer ajuda é bem-vinda, venha ela ou não com trinta minutos de atraso.

Desabafo lançado, voltemos aos factos.

Começou o espetáculo com a homenagem da Praça e afición Lisboeta aos 35 anos de alternativa de Rui Salvador.

Saiu à praça capitalina uma corrida de Veiga Teixeira com forma e substância, corrida grande, comprida, pesada, séria por diante e caras ofensivas, isto quanto à forma, quanto à substância saiu uma corrida encastada, mais em manso do que em bravo, mas encastada e transmitindo perigo, risco, daquelas que inquieta as bancadas e dá trabalho aos artistas.

Não foi uma noite de pipas ou de fotografias para o instagram, foi noite de estar de olho na arena.

Os Veiga Teixeira trouxeram muito picante do Pedrogão e isso provoca sentimentos. Corrida com livro de instruções, melhor o primeiro, com maior fijeza, mobilidade e investidas por direito e humilhado, nos capotes e no cavalo.

Segundo e terceiro mais reservados e parados, dominadores e com investidas curtas, rápidas e com a certeza de colher. Do quarto ao sexto o comportamento manteve-se, o quinto pareceu-me diminuído fisicamente (o que pode ter dado origem a que se tenha deitado da primeira para a segunda tentativa.)

A casta tem as duas vertentes, boa e má, ambas transmitem e é sempre desejável que haja, e no Pedrogão a casta é denominador, desta vez prevaleceu a segunda, mas põe pontos nos i’s, coloca à prova cavaleiros e montadas e em sentido os grupos de forcados.

Coube a João Moura abrir a noite com um touro francamente bom, grande, largo e cara muito aberta, saia bem de qualquer terreno, ao toque, quer de cavaleiro, quer de bandarilheiro, humilhava e permitiu ao Maestro Moura andar a gosto e tourear. O primeiro touro dificilmente acaba de chegar ao público, ainda muito inquieto com as acomodações.

Foi pegado por Ricardo Silva, pelos Amadores de Tomar à segunda tentativa, na primeira e perante uma saída franca, de largo e com velocidade (denominador comum em toda a corrida) o forcado consegue reunir bem mas faltou ajuda e saiu.

Volta para ambos.

O segundo tocou ao homenageado Rui Salvador, brindado ao céu, certamente à Memória de Seu Pai, saiu reservado, parado e fazendo feios de capote, touro menos harmonioso, degolado e com investidas muito bruscas e violentas, animal com teclas que tocar, com querença nos médios e sempre medindo, apresentou muitas dificuldades ao Cavaleiro de Tomar, não lhe sendo nada generoso em noite de homenagem, lide esforçada, não seguramente desejada.

Previam-se dificuldades para a pega e as mesmas concretizaram-se, Pedro Fonseca, dos Amadores de São Manços, veterano forcado que dispensa apresentações, uma referência pela madurez, discrição e valor, ingloriamente fez duas tentativas duras ao touro, na segunda já diminuído mas sem dar o braço torcer, mas que ainda assim não conseguiu concretizar, faltaram-lhe ajudas em ambas as tentativas, é certo que o animal trazia muito velocidade e violência, mas os grupos tem que estar preparados também para estes, uma pena para o Pedro que merecia ter pegado o touro. Foi emendado por Jorge Valadas que teve que fazer-lhe mais duas tentativas, igualmente duras, para concretizar a pega.

Silêncio.

Era a vez de Luis Rouxinol a quem coube lidar outro touro grande, sério por diante, igualmente parado mais à espera que atacando, com investidas curtas e pela certa, ao qual Rouxinol deu uma lide de menos a mais, entendendo as características do animal, escolhendo cirurgicamente os cavalos, aproveitou o aproveitável e tapou o indesejável.

Para a pega deste touro o Cabo dos Amadores das Caldas da Rainha, Francisco Mascarenhas. Mascarenhas fez quatro tentativas que poderiam e deveriam ter sido quatro grandes pegas em momentos diferentes e sonhadas por qualquer forcado. Perante um touro perigoso, cheio de sentido, de velocidade e depois de reunir, despejando e tirando a cara, Francisco esteve sereno, inteligente e transbordando valor, do brinde à saída em ombros para a enfermaria, depois de consumar a pega e que pega, ou que pegas. Apenas na segunda reúne com alguma deficiência, a primeira e depois de um cite vistoso, reúne na perfeição numa investida de velocidade vertiginosa, atravessando o grupo para sair junto à trincheira. A terceira é uma tentativa das que ficam na memória, incrível, impressionante e ao mesmo tempo inglória, deveria ter ficado no touro, aguentou tudo, a velocidade, a reunião dura, os derrotes, e já visivelmente diminuído. Consumou à quarta com a mesma cara da primeira. Quatro enormes momentos de um forcado de caras. Recolheu à enfermaria.

Volta para Rouxinol.

O quarto foi recebido por Moura numa porta gaiola de arrepiar com um touro a apertar e a por a praça em sobressalto, valeu a maestria de Moura e o coração e rapidez da montada, ajudada pelos auxiliares. Momentos de apuro e perigo. A partir de aí o touro e talvez pelo ímpeto explosivo da saída templou-se e Moura soube lidá-lo, embora sem nunca chegar a notas de triunfo redondo.

Fechou a intervenção dos Amadores de Tomar Luis Campino, à primeira, num touro pronto e pelo caminho, entrando pelo grupo, que ajudou bem.

Volta para ambos.

Voltou Rui Salvador e sem sorte, um animal mais parado, seguindo com o olhar, mas sem investir, visivelmente diminuído fisicamente, um poço sem água ao qual Salvador tentou fazer tudo, dando-lhe a lide possível.

Foi pegado à segunda por João Fortunado, Cabo dos Amadores de São Manços, porque na primeira e depois de um cite sereno e bonito, não consegue reunir na perfeição por ter sido pisado e saiu por baixo do touro. No cite para a segunda tentativa o touro deitou-se e parou completamente, com muito dificuldade puseram-no de pé, restabelecendo-o, para que o João, com muito valor, entrasse pelo touro a dentro para o pegar, pisando-lhe debaixo do focinho e num sitio de muito compromisso.

Volta para Salvador, recusada por João Fortunato, embora justa e merecidíssima.

No último apareceu o Luis Rouxinol dos pares de bandarilhas, do toureio alegre e com muita recetividade do público, com mais um touro que trazia velocidade e vertigem. Terminou com os seus pares e foi o momento mais ovacionado no que ao toureio a cavalo diz respeito.

Para a pega do último saltou Lourenço Palha, dos Amadores de Caldas da Rainha, bonito no cite, reúne com algum desacerto, adiantando-se ligeiramente, mas com uma vontade intransponível para não sair, sofre derrotes para isso mesmo, sair, mas o grupo, num misto de sorte e valor, foi ajudando e a pega consumou-se à primeira, com grande aclamação por parte do público. Pega vistosa e dura que permitiu a Lourenço chamada aos médios e segunda volta, sozinho, depois de acompanhar Rouxinol na primeira.

Foi uma noite para homens, corrida dura, com muitos matizes e indiscutivelmente distinta da, infelizmente, maioria das corridas, mornas.

Corrida encastada, a dar muito trabalho, temperada com o picante da Herdade do Pedrógão.

Um espectáculo para maiores de 18.

 

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