Os pequenos hábitos pelos quais você sempre foi julgado podem ser um sinal de uma grande inteligência, segundo a psicologia

Durante anos, as suas características pessoais podem ter sido mal interpretadas, fazendo com que certas peculiaridades fossem vistas como defeitos. No entanto, a psicologia contemporânea sugere que esses comportamentos, frequentemente mal compreendidos, podem revelar uma complexidade mental muito mais rica do que se imagina. Movimentar-se constantemente na cadeira, fazer rabiscos sem pensar em reuniões, soltar alguns palavrões ou revisitar mentalmente conversas passadas são hábitos que, embora irritantes ou intrigantes para alguns, são frequentemente percebidos como sinais de distração, ansiedade ou falta de autocontrole.

É provável que se identifique com essas situações. Quem nunca preencheu os margens dos cadernos com desenhos sem se dar conta? Ou aquela manía de balançar a perna enquanto se está concentrado? Sem contar as horas que se passa a decifrar uma simples mensagem recebida durante o dia. Há também aquelas ocasiões em que certas palavras escorregam quando se está surpreso, frustrado ou entusiasmado.

Certa vez, alguém lhe disse para parar com esses “maus hábitos”

Aconselharam-no a deixar essas manifestações, alegando que prejudicavam a sua concentração, projetando uma imagem negativa e refletindo falta de disciplina.

Contudo, investigações nas áreas da psicologia e neurociências revelaram uma narrativa distinta. Nos últimos vinte anos, diversos estudos publicados em revistas especializadas chegaram a uma conclusão surpreendente: muitos comportamentos, enraizados na cultura como “defeitos”, estão na verdade frequentemente associados a um funcionamento cognitivo superior.

Claro que isso não implica que todos que juram, rabiscam ou se agitam possuam um intelecto excepcional. Contudo, tais hábitos podem, em algumas circunstâncias, refletir um cérebro extremamente ativo, capaz de processar uma vasta gama de informações, apresentando uma elevada criatividade e uma notável habilidade de adaptação.

Em suma, o que muitos interpretam como desatenção ou nervosismo pode, em determinadas situações, ser um indicador de uma mente especialmente ágil.

Falar consigo mesmo: uma estratégia mental subestimada

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Imagens Pexels e Freepik

Falar consigo mesmo é frequentemente visto como um hábito curioso. Contudo, no campo da psicologia cognitiva, esta prática não é considerada um sinal de distração. Na verdade, várias investigações demonstram que isso pode potenciar as suas capacidades de raciocínio.

Verbalizar as suas ações ajuda o cérebro a organizar informações, mantendo o foco numa tarefa e preservando elementos importantes na memória de trabalho. Em outras palavras, articular mentalmente o que se faz ou o que se deve fazer permite estruturar melhor o seu raciocínio.

Esta perspetiva é corroborada por um estudo publicado em 2012 na Acta Psychologica. Os investigadores Alexander Kirkham, Julian Breeze e Paloma Marí-Beffa, da Universidade de Bangor, observaram que os participantes que liam as instruções em voz alta mudavam de tarefa mais facilmente do que aqueles que as liam em silêncio.

A simples audição da sua própria voz, portanto, parece fortalecer a eficácia cognitiva.

Desenhar pode ajudar a manter a concentração

Quantas vezes se criticou um aluno ou colega por desenhar nas margens de um caderno? No entanto, esses pequenos rabiscos podem ter uma função muito mais útil do que se imagina.

Em 2010, a psicóloga Jackie Andrade, da Universidade de Plymouth, publicou um estudo na Applied Cognitive Psychology que se tornou uma referência no tema. Os participantes eram submetidos a um áudio propositadamente monótono. Uma parte do grupo era autorizada a fazer rabiscos durante a audição, enquanto a outra devia apenas prestar atenção.

Os resultados surpreenderam os investigadores, pois as pessoas que desenhavam recordavam cerca de 29% mais informações em comparação ao grupo de controle.

Segundo Jackie Andrade, o ato de rabiscagem ocupa o suficiente da mente para evitar que esta vagueie para devaneios mais intrusivos. Esta leve atividade paralela melhoraria, portanto, a manutenção da atenção, especialmente durante tarefas repetitivas ou pouco estimulantes.

Em suma, a pessoa que traça geometricamente formas durante uma reunião não é necessariamente menos atenta do que os outros. Em muitos casos, pode, na verdade, estar ainda mais concentrada.

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Palavrões não significam necessariamente um vocabulário reduzido

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Usar palavrões é frequentemente considerado uma falta de educação ou uma evidência de um vocabulário limitado. No entanto, as investigações contam uma história diferente.

Em 2015, Kristin Jay e Timothy Jay publicaram na Language Sciences um estudo intitulado Taboo Word Fluency and Knowledge of Slurs and General Pejoratives: Deconstructing the Poverty-of-Vocabulary Myth.

Os investigadores pediram aos participantes que realizassem um teste clássico de fluência verbal, mencionando o maior número possível de palavras que começavam com uma determinada letra. Em seguida, solicitaram que listassem o maior número de palavrões e palavras tabu.

Os resultados mostraram uma correlação positiva explicitamente clara: os indivíduos com um vocabulário mais rico eram também aqueles que conheciam mais palavrões.

Ou seja, utilizar palavrões não demonstra necessariamente uma carência vocabular. Pelo contrário, esta fluência linguística parece muitas vezes estar ligada a um maior domínio da língua como um todo.

Refletir em demasia não é sempre um defeito

Repetir mentalmente uma conversa, analisar incessantemente um evento ou imaginar todas as consequências possíveis de uma situação pode ser exaustivo. Porém, essa tendência também se relaciona com certas capacidades cognitivas.

Um estudo realizado em 2015 por Alexander Penney, Victoria Miedema e Dwight Mazmanian, da Universidade Lakehead (Ontário), publicado na Personality and Individual Differences, evidenciou uma ligação entre a inteligência verbal e a propensão a se preocupar ou a ruminar.

Os investigadores argumentam que as pessoas com elevada inteligência verbal constroem mais facilmente cenários detalhados, seja sobre o passado ou o futuro. Esta aptidão permite-lhes analisar situações com precisão… mas também imaginar os piores desfechos com uma facilidade por vezes excessiva.

Por isso, algumas pessoas passam semanas a repensar uma observação feita numa reunião ou uma conversa embaraçosa. Este comportamento não é necessariamente um sinal de um cérebro a funcionar mal, mas pode ser o reverso de uma capacidade analítica especialmente desenvolvida.

Hábitos a considerar com cautela

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Seria evidentemente incorreto afirmar que esses comportamentos são sempre benéficos. A ruminação excessiva pode aumentar a ansiedade, os palavrões podem ser inapropriados conforme o contexto e falar sozinho pode surpreender as pessoas à sua volta.

O objetivo dessas pesquisas não é classificar esses hábitos como virtudes, mas antes reafirmar que não são sinônimo de falta de disciplina, inteligência reduzida ou de desatenção.

Estudos realizados nas últimas duas décadas mostram, ao contrário, que certos comportamentos, muitas vezes criticados, podem estar associados a uma funcionalidade cognitiva particularmente eficiente.

Uma visão que desafia mitos estabelecidos

Durante muito tempo, muitas pessoas tentaram erradicar esses comportamentos, considerados irritantes ou inapropriados.

Aconselhou-se quem rabiscava a guardar a caneta. Indivíduos que falavam sozinhos foram solicitados a se calar. A quem proferia palavrões, exortava-se a moderar a linguagem, e aqueles que refletiam demais eram orientados a “não se martirizar”.

Essas recomendações foram, muitas vezes, dadas com boas intenções e podem ser justificadas em determinadas situações. Contudo, as pesquisas recentes incentivam-nos a analisar estes comportamentos sob uma nova perspectiva.

Na maioria dos casos, eles não traduzem uma falta de controle, mas sim um cérebro especialmente ativo, que processa a informação de uma maneira diferente.

O que pode parecer estranho ou irritante à primeira vista pode ser, na verdade, a expressão de um modo de funcionamento cognitivo mais rico do que se supõe.

Este artigo é apresentado apenas para fins informativos e de reflexão. Não substitui uma avaliação médica, psicológica ou profissional. As noções abordadas apoiam-se em pesquisas publicadas e em observações editoriais, e não resultam de um diagnóstico clínico. Para questões específicas, consulte um profissional qualificado.

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