Os homens com mais de 60 anos têm em média menos de 2 amigos próximos, pois as atividades que criavam seus laços sociais desapareceram

Durante anos, a percepção da amizade masculina foi considerada como algo simples e distante, como se os laços profundos não fossem essenciais para os homens. Contudo, esta concepção tem sido desafiada à luz de novas evidências. As transformações sociais recentes moldaram de forma significativa o modo como se constróem relações e os impactos são particularmente notáveis nas amizades da vida adulta.

As estatísticas sobre amizade entre homens revelam uma realidade alarmante.

Desde o início da década de 1990, o número de homens que afirmam não ter **nenhum amigo próximo** quintuplicou, alcançando cerca de um em cada sete. Além disso, uma pesquisa realizada pelo **INSEE** em 2022 indicou que aproximadamente **9%** dos homens não têm em quem contar durante os momentos difíceis, em comparação com cerca de **6%** das mulheres.

Outras investigações, como o **“Barômetro da Solidão e do Isolamento”** da Fundação de França de 2023, evidenciam que os homens enfrentam um risco maior de isolamento relacional, especialmente após os 60 anos, mencionando frequentemente círculos de amizade reduzidos ou inacessíveis.

Para homens com mais de 60 anos, quando a vida social tende a abrandar e as atividades diminuem, a quantidade de amigos próximos se reduz ainda mais.

A explicação mais simples seria que os homens são menos inclinados à proximidade.

Contudo, pesquisas recentes contestam esta ideia. Um estudo de **Pearce, Machin e Dunbar (2020)** demonstrou que os homens valorizam a **intimidade** nas amizades tanto quanto as mulheres, embora a manifestem de forma diferente, através de **atividades** em vez de verbalizações emocionais.

Essa escassez de laços não deriva de desinteresse, mas sim de como os homens aprenderam a forjar suas amizades em contextos que hoje estão em grande parte extintos.

Antes de continuar, é importante esclarecer que este artigo não se configura como uma análise clínica ou psicológica, mas como uma reflexão construída a partir de investigações e modelos teóricos sobre relações sociais. Não deve ser interpretado como diagnóstico ou conselho pessoal.

As ideias apresentadas aqui estão inseridas numa leitura sociológica e psicológica do desenvolvimento de laços sociais. Não representam uma verdade universal, mas uma possibilidade de compreensão das dinâmicas de amizade, com a intenção de iluminar algumas tendências observadas em estudos.

Antes de aprender a “agir como homens”

Imagens Pexels e Freepik

Imagine dois rapazes de doze anos. Eles confidenciam tudo um ao outro: seus medos, suas afeições, aquilo que não contariam a ninguém mais. Uma investigação feita com centenas de rapazes durante a adolescência revelou que, nesta fase, eles estabelecem amizades muito íntimas, sentindo-se perdidos sem elas.

No entanto, algo muda ao redor dos quinze ou dezesseis anos.

Esses mesmos rapazes começam a se retrair. Expressar amor por um amigo, compartilhar segredos ou desejar proximidade é visto como “mole” ou “homossexualizado”, um preço que parece ser alto demais a pagar.

Essa aprendizagem se dá pela observação das punições sociais. Um deles faz um comentário sincero e é atacado com rótulos ou risadas, levando o grupo a reter a regra: esse tipo de sinceridade tem um custo. Assim, eles se calam.

Os laços permanecem, mas confidências são abandonadas, trocadas por uma relação de proximidade física, mas emocionalmente distante.

Entender isso é fundamental, pois muda o paradigma da questão. Essa distância não é inata; os rapazes nascem próximos e aprendem, ano após ano, a fingir que não o são.

Amitié construída à volta da atividade

As amizades masculinas se formam em torno de atividades compartilhadas, onde ações substituem palavras. Na vida adulta, esse padrão é bem consolidado: os homens se aproximam estando lado a lado, participando de tarefas ou jogos, não frente a frente, partilhando sentimentos.

Quando se questiona um homem sobre seu amigo mais antigo, ele descreve sua profissão, o tempo de amizade, e as atividades conjuntas, mas silencia se a conversa se volta ao bem-estar emocional do amigo.

A proximidade é real; apenas nunca foi reconhecida dessa forma.

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Um sistema que funciona enquanto as atividades existem

Este sistema tem sido eficaz na maior parte da vida, já que as oportunidades de interação estão sempre presentes.

Desde desportos, voluntariado, atividades escolares até encontros informais, cada um desses contextos oferece uma razão para estar junto. A amizade se mantém naturalmente, pois surge e se preserva através dessas interações.

Contudo, quando as atividades diminuem, a maioria das amizades também se dissolve. Infelizmente, essas oportunidades começam a escassear rapidamente.

As crianças crescem, as equipas de desporto cessam, o trabalho é reduzido ou até mesmo terminado.

Os elementos que sustentaram as amizades vão se esvaindo, e sem isso, não resta nada para manter o contato, uma vez que este sempre foi secundário às atividades.

A diferença entre homens e mulheres na construção de amizades

As mulheres costumam atravessar essas transições de forma diferente.

Elas enfrentam as mesmas perdas, como o crescimento dos filhos, a aposentadoria ou mudanças geográficas, mas suas amizades tendem a sobreviver com mais frequência. Isso se dá porque foram ensinadas a cultivar a intimidade através da comunicação regular, com ou sem atividades.

Uma amizade baseada na conversa pode ser mantida em qualquer lugar; uma amizade ligada a um contexto específico não resiste se este se extinguir.

Essa dinâmica é frequentemente observada em casais.

Um marido e uma mulher se aposentam ao mesmo tempo. Seis meses depois, ela ainda tem suas amigas com quem fala semanalmente e participa ativamente de um grupo de caminhada. Ele, por sua vez, viu desaparecer o escritório e o clube de desporto, e o telefone não toca como para ela.

O papel da confidência nas amizades masculinas

Outra razão pela qual muitos homens se sentem desestabilizados é que, por muito tempo, a única pessoa em quem confiavam era sua companheira. Com ela, partilhavam os pensamentos mais intímos, ao contrário dos amigos.

Isso continua até que algo mude: por exemplo, a companheira desaparece, o casamento termina, ou ela não consegue mais ser esse suporte para um homem que não tem mais ninguém.

Quando essa porta se fecha, não há ninguém para preencher o vazio, pois essas amizades nunca foram pensadas para suportar tal carga.

O que foi perdido pode ser reaprendido

Aquilo que foi perdido por causa do aprendizado pode ser reaprendido. A esperança reside exatamente na forma como o problema começou.

Essa proximidade nunca foi efetivamente perdida; desenvolveu-se através da prática. E tudo o que se aprendeu, pode também ser reaprendido, mesmo que tardiamente.

Não começa com uma conversa direta, que poderia intimidar a maioria dos homens. Inicia-se numa atividade que eles já conhecem, prolongando-a por mais dez minutos. Um copo de cerveja após o jogo de golfe, ao invés de seguir diretamente para casa. Um retorno onde, pela primeira vez, alguém formula uma pergunta verdadeira e aguarda uma resposta sincera.

A amizade masculina sempre se baseou em atividades compartilhadas, e a reconstrução deve se apoiá nela, acrescentando um pouco mais de diálogo, inserido nas atividades que já realizam.

Ter a iniciativa

É também útil priorizar-se.

Depois de décadas de silêncio, todos aguardam que alguém quebre o gelo.

Um homem coragem para expressar sua preocupação sobre a saúde ou a solidão pós-aposentadoria, abre a porta para que o outro faça o mesmo.

Muitas vezes, é assim que a dinâmica funciona. O outro também estava esperando.

Esse desejo nunca desapareceu. Pesquisas mostram que os homens lamentam profundamente a perda dessas amizades. Na adolescência, eles expressam o quanto sentem falta da possibilidade de uma comunicação sincera com um amigo.

Essa capacidade permanece intacta, simplesmente permanece inexplorada, o que demonstra que ainda é acessível.

Conclusão sobre as amizades (reais) aos 60 anos

De facto, a reconstrução da vida social não ocorre do dia para a noite. Contudo, aqueles que conseguem frequentemente afirmam o mesmo: seus amigos sempre estiveram ali, a poucos centímetros, prontos para iniciar a conversa.

A verdadeira dificuldade não reside na proximidade, mas na comunicação, a qual não foi ensinada a ninguém e que pode ainda ser aprendida.

No fundo, o que está em falta não é a necessidade de vínculos, mas a maneira que foi aprendida para construí-los, muitas vezes limitando as possibilidades. As amizades masculinas não desaparecem por falta de afeição; mas porque se sustentaram em estruturas que tendem a desvanecer com o tempo.

Este reconhecimento não determina um destino irrevogável. O que foi aprendido pode ser transformado, mesmo que tardiamente, reintroduzindo mais diálogo em relações já existentes. Os vínculos podem retomar profundidade sem perder o que sempre os sustentou: a partilha, a regularidade e a presença.

As amizades não precisam ser necessariamente recriadas, mas simplesmente reativadas. Muitas vezes, elas já estão ali, em espera, sob uma forma que se deixou de reconhecer.

Cet article est proposé à titre informatif et de réflexion. Il ne constitue en aucun cas un avis médical, psychologique ou professionnel. Les notions évoquées s’appuient sur des recherches publiées ainsi que sur des observations éditoriales, et ne résultent pas d’une évaluation clinique. Pour votre situation particulière, veuillez consulter un professionnel qualifié.



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