Os crianças dos anos 60 e 70 cresceram num mundo onde cada queda não gerava um alarme geral. Deixava-se que eles escalassem, caíssem, se levantassem e recomeçassem. Essas pequenas provas cotidianas moldaram, em parte, os pequenos daquela época, ensinando-lhes a avaliar riscos e a superar medos. O meu pai costumava contar que, aos dez anos, desceu uma ladeira de bicicleta a uma velocidade excessiva, terminando a corrida num buraco. Resultado: um joelho ferido, uma bicicleta para reparar e um bom susto. Ninguém impediu a descida nem decidiu que a bicicleta era demasiado perigosa.
Alguns dias depois, ele estava de volta à sela, mais cauteloso e consciente dos seus limites.
Recentemente, essa anedota voltou à minha mente ao ver crianças brincando em um parque infantil completamente novo. O solo amortece cada queda, os equipamentos são baixos, as superfícies são lisas e os obstáculos são cuidadosamente pensados para minimizar riscos. Tudo parecia perfeitamente seguro, a ponto de ser quase difícil cair, errar ou medir até onde ir.
E, no entanto, uma amiga estava radiante por seu filho poder brincar em segurança. É difícil dar-lhe razão. É precisamente essa contradição que torna o assunto intrigante.
Um pouco de dificuldade pode fazer bem
Frequentemente, apresenta-se as gerações dos anos 60 e 70 como "endurecidas" por uma infância mais difícil. Todavia, esta interpretação merece nuance.
O que pode ter forjado os crianças dessas décadas não foram necessariamente as grandes provações, mas sim uma sucessão de pequenas dificuldades diárias. Como ser independente, resolver um problema sem a ajuda de um adulto, suportar desilusões ou encontrar uma solução quando não havia assistência disponível.
Pesquisas lançam luz sobre isso. Um extenso estudo longitudinal, conduzido por Mark Seery, da Universidade de Buffalo, observou um grupo nacional ao longo de vários anos. Os pesquisadores verificaram que indivíduos que enfrentaram uma quantidade moderada de adversidade em suas vidas relatavam um melhor bem-estar psicológico do que aqueles que vivenciaram muitas dificuldades. Mais surpreendente ainda, esses indivíduos apresentavam melhores resultados que aqueles que afirmaram não ter enfrentado praticamente nenhuma adversidade.
Portanto, a relação não parece ser linear. Excessos de desafios podem fragilizar, mas uma vida absolutamente isenta de dificuldades não se mostra ideal. Entre esses extremos, algumas experiências podem ajudar a desenvolver capacidades de adaptação.
É necessário, no entanto, ter cautela. Trata-se de uma associação e não uma prova de que a adversidade produz automaticamente resiliência.
Não se deve, evidentemente, submeter crianças a experiências difíceis para validar essa hipótese. Contudo, essas investigações suscitam uma questão interessante: se algumas provações significativas podem contribuir para a adaptação, o que dizer dos obstáculos mais modestos do cotidiano?
Esta reflexão está, aliás, relacionada às experiências que podem ter contribuído para tornar os crianças dos anos 70 e 80 mais resilientes.
O que mudou na infância
A evolução da autonomia infantil é particularmente reveladora. Em 1971, investigadores britânicos observaram que cerca de 80% das crianças de sete e oito anos eram autorizadas a ir sozinhas à escola. Em 1990, um estudo de acompanhamento feito por Mayer Hillman e colaboradores estimou essa proporção em apenas 9%.
E, em menos de duas décadas, a mudança foi drástica.
Ir sozinho à escola não era, evidentemente, uma experiência traumatizante.
No entanto, esse trajeto frequentemente exigia da criança não pequenas decisões. Como escolher o caminho, reagir a imprevistos, lidar com a chuva, interagir com outras crianças ou decidir quando solicitar a ajuda de um adulto.
É precisamente esse tipo de autonomia que se observa no jogo livre, outrora muito mais presente no cotidiano infantil. Sem orientações constantes, as crianças precisavam inventar suas próprias regras, negociar e encontrar soluções por si mesmas.
Peter Gray, psicólogo do Boston College, há muito defende que o retrocesso do jogo livre e não supervisionado está associado ao aumento de determinados problemas psicológicos entre os jovens.
Um conceito crucial na sua argumentação é o de "locus de controlo". Sob essa perspetiva, uma questão simples surge: temos a sensação de poder agir sobre o que nos sucede, ou acreditamos que nossa vida depende essencialmente de circunstâncias externas?
Para Gray, é complicado aprender a gerir as situações quando raramente se tem a oportunidade de fazê-lo.
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Não se trata de idealizar o que moldou os crianças dos anos 60 e 70
Transformar essa época num paraíso da infância seria um erro.
As normas de segurança eram muito menos exigentes, e as crianças estavam mais expostas a certos perigos. Situações que hoje consideraríamos inaceitáveis eram, em alguns casos, banalizadas. Certas melhorias modernas são, portanto, inegáveis.
O problema surge quando se confunde a eliminação de perigos evitáveis com a supressão de todas as pequenas dificuldades.
Eliminar um risco grave é desejável. No entanto, evitar sistematicamente que uma criança enfrente frustrações, cometa erros ou encontre soluções por si mesma levanta uma questão distinta.
Essas reflexões tocam, entre outros aspectos, na questão da superproteção parental e suas possíveis consequências na autonomia. O desejo de ajudar é nobre, mas resolver cada dificuldade no lugar da criança pode também diminuir as oportunidades de aprendizado através da experiência.
Risco e perigo são conceitos diferentes
Um perigo refere-se a algo que a criança não pode razoavelmente identificar ou avaliar. Como vidro quebrado num parquinho, um equipamento defeituoso ou uma abertura que leva a uma estrada movimentada. Esses perigos devem ser eliminados.
O risco é diferente. A criança pode reconhecê-lo, avaliá-lo e decidir até onde deseja ir. Isso inclui escalar um pouco mais alto, experimentar uma nova atividade, explorar mais ou utilizar uma ferramenta adequada à sua faixa etária sob determinadas condições.
Os resultados foram, em geral, favoráveis, especialmente no que diz respeito à atividade física e a certos comportamentos sociais, sem evidenciar uma prova concreta de aumento de lesões.
As brincadeiras ao ar livre oferecem, precisamente, às crianças muitas oportunidades de experimentar seus próprios limites. Uma terapeuta ocupacional especializada na infância também recomenda reintroduzir ao máximo o jogo livre ao ar livre, pois essas experiências permitem que as crianças desenvolvam suas habilidades motoras e aprendam a avaliar o que são capazes de fazer.
Às vezes, basta não intervir de imediato
Não é necessário recriar artificialmente a infância dos anos 70. O que se deve fazer é permitir às crianças um espaço suficiente para encontrar dificuldades apropriadas à sua idade.
Deixá-las fazer uma chamada simples por conta própria, fazer o pedido de uma refeição, encontrar uma solução após terem esquecido algo, resolver um pequeno desentendimento com um colega antes que os adultos intervenham. Errar, sentir uma leve decepção e perceber que são capazes de seguir em frente.
Assim, o objetivo não é deixar as crianças sozinhas diante de verdadeiros perigos, mas sim estar disponível sem resolver imediatamente cada problema que se apresente.
Talvez, afinal, uma das características que moldaram as crianças dos anos 60 e 70 tenha sido precisamente a liberdade que tiveram para descobrir, por meio de pequenas dificuldades cotidianas, que eram capazes de cuidar de si mesmas.
Este artigo é oferecido a título informativo e reflexivo. Não constitui de forma alguma um parecer médico, psicológico ou profissional. As informações aqui apresentadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para situações específicas, recomenda-se a consulta a um profissional qualificado.
Sofia Matos é redatora especializada em psicologia e bem-estar emocional. Com formação em ciências sociais, transforma conceitos psicológicos complexos em textos simples, úteis e aplicáveis no dia a dia.