O que fazer quando sabemos o que devemos fazer e não o fazemos

Acontece que, por vezes, o bloqueio não provém da falta de informação, mas sim de algo mais profundo. Muitas vezes, sabemos perfeitamente o que deveríamos fazer, e, no entanto, adiamos. Prometemos a nós mesmos que começaremos mais tarde, na expectativa do momento certo, da energia ideal, da motivação anseia. No entanto, esse momento parece nunca chegar. Mais frequentemente do que se pensa, o evitamento não diz respeito à tarefa em si, mas ao que a concretização dela nos obrigaria a enfrentar. Alguma vez já sentiu essa estranha desconexão entre o saber e o agir?

É de conhecimento geral que deveria dormir mais cedo, responder a mensagens pendentes, iniciar um projeto, ou beber mais água. A problemática não reside na informação, mas sim na interiorização e na ação. Este desfasamento entre o saber e o fazer pode ser profundamente angustiante.

Eu própria já experimentei esta luta incessante em mais ocasiões do que gostaria de admitir. Mesmo com uma rotina relativamente estruturada e um trabalho exigente, surpreendo-me a procrastinar tarefas que tornariam a minha vida mais fácil. E não se trata sempre de grandes empreendimentos; às vezes, são tarefas simples, rápidas, quase insignificantes que adio por dias.

Este padrão de comportamento revelou-se um desafio para mim durante muito tempo. Atualmente, começo a compreender melhor o que se passa por trás de tudo isso.

Por que saber não é suficiente

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O cérebro humano não opera exclusivamente com lógica. Se assim fosse, todos aqueles que reconhecem que a prática de exercícios físicos melhora o humor e a energia fariam isso diariamente com facilidade.

Igualmente, quem compreende as consequências nocivas a longo prazo da procrastinação severa deixaria de a praticar imediatamente. No entanto, a realidade é bem diferente.

O saber intelectual e a disposição psicológica para agir de acordo são duas realidades distintas. Estudos recentes demonstram que a mudança de comportamento está fortemente ligada a hábitos, associações psicológicas e ao esforço percebido, em vez de depender exclusivamente do conhecimento ou da intenção. Muitas vezes, desejamos algo, mas encontramos inúmeras justificativas para não avançar.

O que frequentemente impede as pessoas não é a preguiça, mas sim alguns fatores específicos: a tarefa pode parecer esmagadora, pode não haver um ponto de partida claro, ou existe um desconforto subjacente relacionado ao início que não foi reconhecido conscientemente.

O que realmente está a evitar

Quando adiamos repetidamente uma tarefa, é útil questionar o que estamos realmente a evitar. Muitas vezes, não se trata da tarefa em si, mas algo que a acompanha. Iniciar um projeto implica que ele será avaliado. Conduzir uma conversa difícil significa que algo pode mudar. Ir ao ginásio implica confrontar o estado atual do nosso corpo. A tarefa é apenas a superfície da questão.

Acredito que já reparei em mim mesma essa dinâmica, especialmente em relação às tarefas que são mais significativas para mim. Por exemplo, sou bastante regular em correr três vezes na semana após o trabalho. No entanto, quando se trata de escrever um texto que me causa insegurança, encontro desculpas para reorganizar o meu espaço de trabalho antes mesmo de abrir um documento em branco. Esta procrastinação parece estar correlacionada à importância que atribuo ao resultado.

Este comportamento não é um defeito de carácter, mas um mecanismo de proteção. Ao entendê-lo, podemos parar de nos julgar e começar a procurar soluções.

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Não espere mais para se sentir preparado

A motivação não é uma condição prévia para a ação. Esta é talvez a lição mais valiosa que aprendi nos últimos anos. A sensação de estar pronto, de ter energia e clareza, onde tudo se alinha, é real, mas não é confiável. Organizar a vida à espera desse momento é estar constantemente em atraso.

É a ação que gera impulso, e não o contrário. Não nos sentimos motivados para agir e depois agimos; primeiro lançamo-nos, e a resistência começa a dissipar-se, tornando a tarefa mais fácil. Este círculo virtuoso entre ação e motivação é crucial, mesmo que possa parecer contraintuitivo.

Na prática: diminua a sua exigência até que isso se torne quase embaraçoso. Quer escrever mais? Abra um documento e escreva uma frase. Deseja treinar? Calce os sapatos e veja o que acontece. Está a adiar uma tarefa? Programe um temporizador para dez minutos e evite sair do local. Muitas vezes, você continuará, e mesmo nos dias em que não o conseguir, terá feito algo, que é sempre melhor do que esperar pela inspiração.

Facilite o trabalho a fazer

Uma das realidades que aceitei sobre mim mesma é que sou muito mais produtiva em tarefas com estrutura estabelecida do que em situações vagas. É por isso que pequenas rotinas funcionam tão bem para mim. Quando algo está planeado e é previsível, a fadiga decisional desaparece, e não hesito em fazê-lo. O tempo é reservado; simplesmente passo à ação.

Se se depara com dificuldades em realizar uma tarefa, examine as circunstâncias. Estão difusas? Envolvidas em uma lista de outras vinte tarefas igualmente urgentes? Precisa decidir repetidamente quando e como as fazer?

Decida uma vez por todas. Estabeleça uma hora, um local e um tempo de duração. Coloque o plano de forma visível, antes mesmo de ter tempo de mudar de ideia. Estudos sobre hábitos demonstram que o ambiente influencia mais o comportamento do que a própria vontade. Escolha o caminho mais fácil para realizar sua tarefa.

Seja honesto sobre o que realmente o bloqueia

Em algumas ocasiões, o verdadeiro obstáculo não é psicológico, mas sim a falta de tempo, energia ou recursos. Nestes casos, aceitar a realidade é muito mais construtivo do que se culpar por indisciplina ou falta de personalidade.

Existem fases na vida em que é necessário priorizar. Não é possível fazer tudo, e fazer de conta que sim pode causar uma quantidade excessiva de culpa desnecessária.

Se uma tarefa continua pendente, talvez seja mais sensato questionar se ela realmente deve constar na sua lista de prioridades.

Da mesma forma, pode acontecer que adiemos uma tarefa simplesmente porque uma parte de nós não deseja fazê-la. Não por preguiça, mas porque isso não reflete os nossos objetivos.

Podem ser obrigações impostas por expectativas alheias, objetivos que já não nos representam ou tarefas que foram relevantes há seis meses e que agora não têm o mesmo significado. Revisar essa lista é fundamental. O que consideramos importante nem sempre merece a nossa dedicação de tempo.

Reflexões Finais

Saber o que fazer e agir em conformidade são competências distintas. A primeira implica reunir informações, enquanto a segunda exige gerenciar o tempo, estruturar o ambiente e reconhecer honestamente o que realmente bloqueia.

A diferença entre estas duas realidades não indica que não sejamos capazes ou disciplinados. É simplesmente uma questão de ser humano e que as condições necessárias para a realização da tarefa ainda não se alinharam suficientemente para que seja mais simples completá-la do que evitá-la. Este problema pode ser superado.

Comece com tarefas que parecem mais modestas do que realmente são. Estabeleça uma estrutura em vez de depender exclusivamente da vontade própria. Pergunte-se o que realmente está a evitar e por quê. E se uma tarefa continuar sem solução durante semanas ou meses, questione se ela deve mesmo estar na sua lista de afazeres.

O objetivo não é a perfeição. O objetivo é diminuir progressivamente a distância entre o que sabe e o que faz. É aí que reside o verdadeiro progresso.

Este artigo tem um caráter informativo e de reflexão. Não constitui, de forma alguma, um conselho médico, psicológico ou profissional. As ideias apresentadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para uma análise do seu caso específico, consulte um profissional qualificado.



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