O paradoxo de Salomão: por que podemos dar ótimos conselhos aos outros e, em seguida, nos sentir completamente perdidos diante do mesmo problema

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O paradoxo de Salomão aborda uma contradição intrigante: frequentemente, mostramos uma notável clareza ao resolver problemas alheios, mas essa capacidade de discernir pode se desfazer quando estamos pessoalmente envolvidos. À distância, as escolhas parecem mais simples, os erros mais evidentes e as decisões quase óbvias. Porém, quando nossas emoções entram em cena, essa mesma lógica torna-se consideravelmente mais complexa.

Os melhores conselhos parecem nos escorregar das mãos justamente no momento em que mais precisamos deles. Pesquisas na psicologia e nas neurociências lançam luz sobre o que se oculta por trás desse fenômeno.

É comum que alguém próximo confie a um problema que parece insuperável

Contudo, do nosso ponto de vista, a situação parece muito mais clara. Em questão de minutos, conseguimos identificar o que não está a funcionar, distinguir o essencial do secundário e formular uma solução razoável.

Assim, podemos sugerir que falem abertamente, que deem um passo atrás, que estabeleçam limites ou que observem os fatos em vez de se deixarem levar pelas emoções. Tudo parece relativamente claro quando analisamos a situação de fora.

Mas, quando nos deparamos com um problema semelhante, essa clareza pode escapar. As decisões tornam-se mais complicadas, os dúvidas se multiplicam e o que parecia evidente para outra pessoa torna-se muito mais desafiador.

A diferença não reside necessariamente numa falta de julgamento. Quando somos diretamente afetados, nossas emoções, expectativas, medos e história influenciam nossa interpretação da situação.

Podemos ser particularmente perspicazes ao aconselhar os outros, enquanto aplicar essa mesma sabedoria em nossa vida torna-se muito mais complicado.

Esse fenômeno psicológico é conhecido como o paradoxo de Salomão.

O paradoxo de Salomão: o rei sábio que nem sempre seguia sua própria sabedoria

O paradoxo de Salomão

O paradoxo de Salomão deriva do rei Salomão, figura bíblica famosa pela sabedoria dos seus julgamentos. De acordo com os relatos, sua reputação ultrapassava as fronteiras do seu reino, atraindo aqueles que desejavam experimentar seu discernimento. Contudo, sua vida não foi tão simples e ordenada quanto os conselhos e decisões que lhe são atribuídos.

Esse é precisamente o conceito por trás do paradoxo de Salomão: podemos ter uma lucidez notável em relação às dificuldades de outra pessoa, mas frequentemente perdemos essa capacidade de discernimento quando o mesmo problema nos afeta diretamente.

Os psicólogos Igor Grossmann e Ethan Kross investigaram esse fenômeno de forma experimental. Em uma série de três experimentos com 693 participantes, foi solicitado que refletissem sobre uma situação de infidelidade envolvendo o seu próprio parceiro ou o de um amigo.

Ao raciocinarem sobre o problema de um próximo, os participantes mostraram características associadas ao que os pesquisadores chamam de “raciocínio sábio”: reconhecer os limites do que se sabe, considerar múltiplas perspectivas, aceitar a incerteza e buscar um compromisso.

Contudo, quando a situação se tornava pessoal, essa capacidade diminuía significativamente. Em outras palavras, não é que faltemos de sabedoria. Por vezes, simplesmente temos mais dificuldades em acessá-la quando nossas emoções e interesses estão em jogo.

Outro resultado relevante: a idade não parecia eliminar essa discrepância. Ter mais anos de experiência não garantia que fôssemos mais objetivos quando um conflito nos envolvia pessoalmente.

Por que perdemos nossa clareza quando um problema nos envolve?

Uma explicação possível é bastante simples. Quando observamos a vida de outra pessoa, mantemos uma certa distância. Vemos os principais fatos, as consequências prováveis e as escolhas possíveis.

Entretanto, quando estamos no centro da história, tudo muda.

Não percebemos apenas o problema. Enxergamos as memórias que o acompanham, os esforços já feitos, as expectativas, os medos, os arrependimentos e todas as razões que nos fazem sentir que nossa situação é única.

Essa acumulação de informações pode parecer útil, mas também pode alimentar a ruminação. Quanto mais analisamos uma situação que nos afeta pessoalmente, mais cenários, justificativas e exceções aparecem, até que nos tornamos incapazes de decidir. Este fenômeno também é observado quando tentamos entender por que as pessoas que pensam demasiado tomam decisões de forma diferente.

Imagine, por exemplo, que você dirige uma pequena empresa que está a perder dinheiro há meses.

Se um amigo lhe apresentasse exatamente as mesmas contas, você provavelmente aconselharia a reduzir despesas, modificar a atividade ou até fechar as portas.

No entanto, quando se trata da sua empresa, os números não estão sozinhos à mesa. Você se lembra dos anos dedicados ao projeto, das pessoas que confiaram em si, dos bons períodos, dos sacrifícios feitos e de todas as razões que poderiam explicar por que “o próximo mês será diferente”.

O problema objetivo permaneceu o mesmo. A sua posição em relação a ele é que mudou.

Isso também explica por que saber que uma decisão é provavelmente necessária não garante que você vá efetivamente agir. Pode haver uma distância considerável entre saber o que deve ser feito e conseguir realmente fazê-lo.

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O paradoxo de Salomão sugere uma solução: tornar-se um espectador do próprio problema

O paradoxo de Salomão

Uma das descobertas mais intrigantes dos trabalhos de Grossmann e Kross diz respeito à distância psicológica.

Quando os participantes eram convidados a considerar sua situação como se a observassem do exterior, seu raciocínio tornava-se mais sábio. A diferença entre os conselhos dados a outros e os que se davam a si próprios diminuía.

O objetivo não é, portanto, refletir mais. Pode ser mais eficaz mudar o ponto a partir do qual pensamos.

Em vez de perguntar:

“O que eu devo fazer?”

tente:

“Se alguém que eu amo estivesse exatamente nesta situação, o que eu lhe aconselharia?”

Essa alteração pode parecer pequena. Contudo, força a mente a sair momentaneamente da narrativa pessoal para observar mais factos.

Tomar um passo atrás antes de reagir ou de tomar uma decisão importante é, aliás, uma estratégia frequentemente mencionada em trabalhos e conselhos sobre regulação emocional. Este artigo dedicado à resiliência emocional explora também essa ideia.

Falar de si na terceira pessoa pode também mudar a nossa perspetiva





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Outra técnica consiste em substituir temporariamente o “eu” pelo próprio nome.

Em vez de pensar:

“Estou furioso porque ele nunca respeita os meus esforços”,

você poderia formá-lo mentalmente como:

“Paulo está furioso porque sente que seus esforços não são respeitados.”

Essa formulação pode parecer artificial ou mesmo estranha à primeira vista. No entanto, essa mudança linguística cria uma pequena separação entre a pessoa que vive a emoção e aquela que a observa.

Pesquisas realizadas sobre essa abordagem mostram que aqueles que refletiram sobre suas experiências na terceira pessoa mostraram mais sinais de raciocínio sábio ao longo do tempo.

Essa forma de falar de si é conhecida como ilíeismo.

Seu objetivo não é começar a falar sempre na terceira pessoa, mas sim usar como uma ferramenta para criar uma distância mental quando nossas emoções dificultam a análise de uma situação.

Essa habilidade de observar os próprios pensamentos converge com a noção de metacognição: aprender a observar nosso raciocínio em vez de aceitar automaticamente cada pensamento como uma representação exata da realidade. A metacognição e essa capacidade de afastar-se são discutidas mais detalhadamente aqui.

Uma pergunta simples para contornar o paradoxo de Salomão

O paradoxo de Salomão

Há uma forma ainda mais concreta de usar este princípio:

“O que eu aconselharia a um amigo se estivesse na minha situação?”

Entretanto, é preciso adicionar uma regra importante: esse amigo imaginário não pode dar dez minutos de explicações para justificar por que seu caso seria excepcional.

Em seguida, pegue uma folha e escreva sua resposta.

Dirija-se a alguém que você conhece. Imagine essa pessoa na sua frente e use o tom que normalmente usaria com ela, sem ser brusco ou complacente.

A escrita é importante porque uma resposta que permanece apenas na mente pode facilmente ser alterada enquanto pensamos. Uma frase clara pode tornar-se uma exceção, depois uma reserva e, finalmente, uma justificativa nova.

No papel, ela fica diante de nós.

É comum descobrir algo interessante. O conselho que damos a terceiros tende a ser conciso. Aquilo que nos dizemos geralmente torna-se muito mais longo.

Quando nossa reflexão começa a girar em círculos, técnicas que consistem em colocar pensamentos no papel e em tomar distância podem ajudar a interromper essa dinâmica. Aqui estão três exercícios para lidar melhor com a ruminação excessiva.

E se dar conselhos também nos ajudasse a segui-los?

O paradoxo torna-se ainda mais interessante quando invertido.

Poderíamos pensar que, diante de uma dificuldade, o melhor a fazer é pedir conselhos a alguém mais experiente. No entanto, algumas pesquisas mostram um fenômeno surpreendente: dar conselhos a outra pessoa enfrentando um problema semelhante pode, por vezes, nos motivar mais do que receber conselhos.

Pesquisadores da Chicago Booth e da Universidade da Pensilvânia estudaram esse mecanismo em diversas áreas. Em uma experiência, alunos que deram conselhos a colegas mais novos sobre motivação escolar dedicaram mais tempo aos seus próprios estudos do que aqueles que receberam conselhos. Outras experiências observaram um fenômeno semelhante para diferentes objetivos pessoais.

Porquê?

Porque receber conselhos pode nos lembrar do que ignoramos, enquanto dar conselhos nos força a mobilizar o que já sabemos. Formulamos estratégias, organizamos nossas ideias e, por vezes, reconquistamos um sentimento de competência.

Entretanto, não se trata de fingir ser especialista em um problema que não compreendemos. Mas, quando já possuímos os princípios a aplicar e apenas temos dificuldades em colocá-los em prática, explicar esses princípios a outra pessoa pode nos confrontar com nossas próprias contradições.

Dessa forma, podemos nos ouvir pronunciar exatamente a frase que estávamos evitando por semanas.

A sabedoria pode depender menos do que sabemos e mais da distância que tomamos

Esta é, provavelmente, a lição mais interessante do paradoxo de Salomão.

Costumamos imaginar a sabedoria como algo que se acumula. Quanto mais vivemos, mais aprendemos e melhores decisões deveríamos tomar.

A realidade, entretanto, é menos óbvia.

Podemos conhecer perfeitamente a resposta certa e, ainda assim, ser incapazes de aplicá-la quando estamos muito próximos do problema. Em contrapartida, uma pequena distância psicológica pode, por vezes, tornar visível o que sempre esteve diante de nossos olhos.

Portanto, nem sempre se trata de receber mais conselhos ou analisar a situação por mais tempo. Às vezes, é apenas necessário mudar de perspectiva.

Quando se sentir preso em uma decisão, imagine que o problema pertence a alguém que ama. Observe os fatos como observá-los para essa pessoa. Escreva as três frases que você acha que ela precisa ouvir.

Depois, leia-as substituindo seu nome pelo dela.

O paradoxo de Salomão, afinal, nos recorda algo simples: frequentemente já possuímos um pedaço da sabedoria que precisamos. A dificuldade está em nos afastar o suficiente de nossa história para conseguirmos ouvi-la.

Este artigo é oferecido a título informativo e de reflexão. Não constitui, de forma alguma, conselho médico, psicológico ou profissional. As noções mencionadas baseiam-se em pesquisas publicadas e em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.

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