« Não é o que lhe acontece que importa, mas a sua reação diante disso »

Todo projeto inicia-se com uma certa dose de incerteza. Fomos educados a acreditar que o trabalho árduo, a motivação e a perseverança garantem o sucesso. Contudo, a realidade frequentemente nos ensina que os nossos esforços nem sempre são a única variável. As estatísticas falam por si, mostrando que o empreendedorismo é um verdadeiro desafio. Em Portugal, segundo o Instituto Nacional de Estatística, **69% das empresas criadas em 2018 ainda estavam em atividade cinco anos depois**, significando que quase **30% encerraram as suas portas nesse intervalo**. Além disso, a durabilidade de uma empresa varia conforme o seu modelo e o setor, com as sociedades limitadas, geralmente, a resistir melhor do que as empresas individuais. Ao mesmo tempo, a Banco de França reportou **68.564 falências de empresas nos doze meses até dezembro de 2025**, um número alarmantemente elevado. Estes dados não significam que um negócio esteja fadado ao fracasso, mas lembram que nenhum empreendedor opera num ambiente completamente controlável.

Estas estatísticas pouco encorajadoras descrevem uma realidade complexa. Muitos fatores que afetam o futuro de uma empresa estão para além do domínio do seu fundador: a conjuntura económica, a evolução do mercado, a entrada de concorrentes mais bem financiados, ou simplesmente timing inadequado são algumas das muitas variáveis onde temos um controlo limitado.

Por outro lado, existe um domínio sobre o qual ainda temos um controlo significativo: **a forma como reagimos a esses eventos**. É neste ponto que as nossas decisões, perseverança, capacidade de adaptação e estado de espírito podem realmente fazer a diferença.

Com o tempo, aprendi que investir energia no que podemos influenciar é muito mais produtivo do que esgotar-se a lutar contra o que está fora do nosso alcance.

Este pensamento ecoa a filosofia de Épicteto. Muitas vezes, é expressa na forma: «Não é o que lhe acontece que importa, mas a sua reação a isso». Embora esta frase não seja uma citação direta, reflete um dos princípios centrais do estoicismo: os acontecimentos externos nem sempre estão sob o nosso controle, mas a nossa forma de responder a eles pertence-nos.

Não sou psicóloga nem terapeuta. Este texto reflete uma reflexão pessoal baseada em leituras e não deve ser interpretado como aconselhamento profissional nem como uma metodologia garantida de sucesso. As estatísticas referidas descrevem tendências observado a nível da população empresarial. Não permitem prever o futuro de uma empresa ou de um empreendedor. O estoicismo é uma filosofia de vida entre muitas e não uma abordagem cientificamente validada para enfrentar dificuldades.

O que depende de nós

Imagens Pexels e Freepik

A noção expressa na frase «Não é o que lhe acontece que conta, mas a sua reação» é inspirada no pensamento de Épicteto, mesmo que não apareça literalmente nos seus escritos.

No Manual, redigido pelo seu discípulo Arriano, encontramos um princípio fundamental do estoicismo: não são os eventos em si que nos perturbam, mas o juízo que fazemos sobre eles. Em outras palavras, não escolhemos sempre o que nos acontece, mas podemos decidir como respondemos.

Esta distinção é central na filosofia estoica. Uma parte da nossa vida escapa inevitavelmente ao nosso controle. Outra parte é determinada pelas nossas decisões, comportamentos e pela nossa capacidade de agir apesar das circunstâncias.

O empreendedorismo está cheio de imprevistos

Criar uma empresa significa aceitar que se está a operar num ambiente de incerteza permanente. Um mercado que desacelera, um lançamento que não resulta como esperado, a retirada de um cliente importante ou problemas de liquidez podem surgir sem que o empreendedor tenha qualquer responsabilidade sobre isso.

Estas situações raramente são escolhas. No entanto, a forma como as analisamos, as decisões que tomamos e a nossa capacidade de adaptação permanecem como alavancas sobre as quais podemos agir.

É muitas vezes nestes momentos que se define o destino de um projeto. Alguns desistem, enquanto outros encontram um novo caminho.

James Dyson: recomeçar mais uma vez

A história de James Dyson exemplifica perfeitamente esta ideia. Antes de lançar o seu primeiro aspirador sem saco, ele desenvolveu 5.126 protótipos que não resultaram. Cada tentativa revelou um problema técnico que não podia ser ignorado.

No entanto, ele pôde utilizar o que aprendeu em cada falha para melhorar o próximo protótipo.

Dyson explicou que um inventor frequentemente abandonará muitas ideias antes de encontrar uma que funcione. O que realmente alterou a trajetória do projeto não foi a ausência de falhas, mas a determinação de continuar a experimentar até encontrar uma solução viável.

Steve Jobs: transformar um revés em oportunidade

Em 1985, Steve Jobs foi forçado a deixar a Apple, a empresa que ajudou a fundar. Mais de uma década depois, ele regressou quando a empresa adquiriu a NeXT.

A sua expulsão não dependia mais dele. No entanto, ele pôde escolher o que faria a seguir. Durante esse período, lançou novos projetos, adquiriu novas experiências e desenvolveu tecnologias que se tornariam fundamentais no seu retorno.

Ele resumia esta abordagem numa ideia simples: os erros são inevitáveis ao inovar, mas devem ser reconhecidos rapidamente para continuar a progredir. Admitir os erros e ajustar a estratégia é um comportamento que está sob nosso controle.

Arianna Huffington: um não não é um fim

Antes de alcançar o sucesso, Arianna Huffington viu o seu segundo livro ser rejeitado por 36 editoras.

Nenhum autor pode decidir que um editor aceitará o seu manuscrito. Contudo, cada um pode decidir tentar novamente, melhorar a sua obra ou apresentá-la a outros editores.

Mais tarde, ela resumirá essa experiência numa frase que se tornaria famosa: **o fracasso não se opõe ao sucesso; faz parte do caminho que leva a ele**.

Wangari Maathai: agir à sua escala

A ativista queniana Wangari Maathai sabia que não poderia, sozinha, acabar com a desflorestação ou mudar as políticas ambientais do seu país. No entanto, ela poderia agir concretamente onde estava.

Em 1977, fundou o Movimento Cinto Verde e começou por plantar árvores com as comunidades locais. Apesar dos obstáculos políticos, intimidações e várias prisões, ela nunca desistiu da sua luta. Ao longo dos anos, o seu movimento contribuiu para a plantação de mais de **50 milhões de árvores** no Quénia, inspirando iniciativas semelhantes em outros países.

A sua trajetória ilustra uma ideia simples: ela não comandava as decisões governamentais nem a totalidade dos problemas ambientais, mas controlava as suas ações. Ao concentrar sua energia no que podia realmente fazer, acabou por produzir um impacto significativo.

Esta abordagem reflete o espírito do estoicismo: **aceitar o que está fora do nosso controle** sem renunciar à ação nas áreas em que se pode ter efeito.

Concentrar-se no que podemos realmente influenciar

Estas histórias não glorificam uma perseverança cega. Continuar sem aprender ou adaptar-se raramente resulta em melhores resultados.

O verdadeiro ensinamento reside na capacidade de distinguir o que é da nossa responsabilidade e o que não depende de nós. As condições econômicas, as evoluções do mercado e os eventos imprevistos frequentemente estão além do nosso controle.

Contudo, a nossa maneira de analisar uma situação, de aprender com os desafios e de ajustar a nossa estratégia continua a ser uma escolha. É precisamente nesse espaço que surgem os progressos mais significativos.

Reconhecer o que não podemos controlar não significa abdicar da ação. Pelo contrário, permite direcionar a nossa energia para o que realmente pode alterar a situação, ao invés de lutar contra circunstâncias fora do clima de um empreendedor.

Este artigo é disponibilizado para reflexão e informação. Não reemplaça – de forma alguma – um parecer médico, psicológico ou profissional. Os conceitos aqui apresentados apoiam-se em estudos publicados e observações editoriais, não sendo resultantes de uma avaliação clínica. Para situações específicas, consulte sempre um profissional qualificado.

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