Fala-se frequentemente que a felicidade depende do nosso empenho em alcançá-la. Esta ideia parece intuitiva e bem enraizada na nossa forma de pensar. É lógico que aquilo que mais valorizamos se torna mais acessível quando nos dedicamos a isso. Em várias áreas da vida, o compromisso e a motivação estão ligados a melhores resultados. Assim, é fácil deduzir que a felicidade opera segundo as mesmas regras.
No entanto, a psicologia do bem-estar oferece uma perspectiva mais complexa sobre essa evidência aparente.
Muitas pessoas acreditam que o caminho para a felicidade é simplesmente desejar e procurar por ela, mas alguns estudos apontam para o contrário: aqueles que valorizam mais a felicidade, ou que são incentivados a fazê-lo, frequentemente sentem-se menos felizes, principalmente quando tudo parece estar a correr bem.
Existem duas verdades que parecem evidentes: quanto mais desejamos algo, mais nos esforçamos para o obter. E quanto mais nos esforçamos por algo, maiores são as chances de o alcançarmos.

Em suma, esta lógica parece evidenciar-se de forma natural: se queremos ser felizes, basta valorizar a felicidade, direcioná-la e torná-la um objetivo. Mas por que algumas investigações sugerem o oposto?
Uma observação importante: não sou psicóloga nem clinica, apenas uma leitora curiosa que busca compreender certos resultados científicos.
Os estudos referidos neste artigo são provenientes de grupos populacionais específicos, principalmente amostras norte-americanas e, em um caso, exclusivamente femininas. Trata-se, portanto, de tendências observadas em contextos particulares, e não de regras universais aplicáveis a todos.
Uma das formulações mais claras desta ideia vem de um artigo publicado em 2011 na revista Emotion, cujo título levanta a seguinte questão: «A busca pela felicidade pode tornar as pessoas felizes?»
As conclusões dos investigadores
Os autores concluem que «os resultados atuais demonstram que, em determinadas circunstâncias, valorizar a felicidade pode ser contraproducente. Incentivar as pessoas a valorizar mais a felicidade fez com que se sentissem menos felizes». Os autores agem com cautela, e nós devemos fazer o mesmo.
As duas pesquisas foram realizadas em amostras exclusivamente femininas nos Estados Unidos, e não afirmam explicitamente que valorizar a felicidade é sempre uma armadilha. Contudo, esta tendência merece ser considerada com seriedade.
Se entendi corretamente, este mecanismo baseia-se nas expectativas e na disparidade que elas criam.
Em 2024, quando Mauss e o seu colega Brett Ford resumiram os seus trabalhos para um público mais amplo, eles o formularam claramente: «A ideia é que quanto mais valorizamos a felicidade, mais altas são as nossas expectativas em relação a ela, expectativas que corremos o risco de não satisfazer. E quando não as atingimos, podemos sentir-nos desapontados e insatisfeitos.»
Artigos mais lidos sobre S & N :
Quando se mira demasiado alto, um sentimento que deveria ser agradável acaba por parecer uma falta.

Eu sei por experiência própria, após ter vivenciado uma situação similar. Acreditei durante muito tempo que um novo portátil me tornaria mais produtivo e satisfeito, e, quando finalmente pude adquiri-lo, estava convencida de que seria um verdadeiro marco. Pode parecer trivial, mas é verdade. No dia em que o tive, tudo parecia perfeito. Porém, uma ou duas semanas depois, ele se tornou apenas mais uma ferramenta entre tantas.
Perseguimos um objetivo, alcançamo-lo, e a sensação obtida não corresponde. Ninguém me forneceu um artigo enganoso, mas eu mesma criei essa situação, elevando as expectativas a um ponto em que a realidade só poderia decepcionar. Um estudo posterior realizado pelo laboratório de Mauss com 1.815 participantes americanos ajudou a ilustrar melhor o quadro.
Como os autores resumiram para a Greater Good, o problema não reside na busca pela felicidade, mas no que eles chamam de preocupação excessiva com a felicidade: o hábito de julgar e controlar os próprios sentimentos.
O desafio não é o nível de felicidade que os indivíduos experienciam, nem o nível que desejam alcançar, mas sim a forma como reagem a essa felicidade.
Como utilizar esta informação?

Então, como podemos usar esta informação?
Os investigadores não apresentam uma solução mágica, e eles próprios reconhecem isso. A abordagem sugerida é de uma simplicidade quase brutal: «Quando experimentar uma situação positiva, não se avalie.» Reconhecem também que a aplicação prática desta ideia é delicada, o que considero importante, pois tentar evitar avaliar os nossos sentimentos acaba por ser, em si, uma forma de avaliação.
A minha conclusão é que é mais fácil e simples pôr isto em prática. Desejar ser feliz é positivo; o problema reside na avaliação. O cálculo para determinar se o momento presente é satisfatório, se o aniversário, as férias ou a nova bicicleta nos proporcionam a alegria esperada.
Há uma diferença entre perceber que estamos felizes e tentar descobrir se realmente o estamos. A primeira permite que a sensação se instale; a segunda analisa-a de forma minuciosa, como se estivéssemos a medir. Muitas vezes, surpreendo-me a usar essa régua, e os momentos em que consigo abster-me costumam ser os que recordo com mais carinho.
Se tudo isto lhe parecer mais pertinente do que apenas interessante, se a verificação e a monotonia se instalaram mais profundamente do que uma tarde aborrecida, um bom terapeuta é mais útil do que qualquer artigo sobre o tema.
Este artigo é apresentado apenas a título informativo e de reflexão. Não constitui, de forma alguma, um conselho médico, psicológico ou profissional. As ideias mencionadas baseiam-se em pesquisas publicadas bem como em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.




