De papo cheio

Crónica

27.09.2019 * Praça de Touros do Campo Pequeno, Lisboa.

Corrida comemorativa do 75.º Aniversário do Grupo de Forcados Amadores de Lisboa

Cavaleiros:

João Moura Jr.

João Ribeiro Telles

Francisco Palha

Ganadaria: Pinto Barreiros

Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, Antigos e Atuais, capitaneados pelo Exmo. Sr. Pedro Maria Gomes

Direção (discreta e cumpridora) a cargo da Exma. Sra. Lara Gregório de Oliveira.

¾ de lotação preenchida.

A expressão pode ser vulgar, corriqueira e pouco digna de uma crónica, mas perdoem-me os leitores porque foi exactamente assim que sai da praça do Campo Pequeno no final da corrida: de papo cheio.

Se o motivo, per si, era de orgulho e vaidade, então o resultado foi a tradução perfeita do que ali nos levou: a Festa dos 75 anos dos Amadores de Lisboa.

Não me estou a esquecer dos Cavaleiros não senhor. Também eles não foram escolhidos ao acaso, para uma festa desta envergadura tinham que estar as figuras e numa comunhão perfeita, o papinho foi-se enchendo.

Para isso contribuiu uma corrida harmónica e parelha de peso, respeitando a morfologia do touro bravo e por isso com mobilidade, codícia, fijeza e sobretudo nobreza, transversal praticamente a toda a corrida, exceção do último que, sem ser mau, procurava refúgio e fugia ao confronto.

Melhores os três primeiros, mais reservados os três últimos, talvez pela justeza de força, queriam e não podiam.

Foi o Ganadero Sr. Joaquim Alves, titular de Pinto Barreiros, justamente chamado a saudar pelo bom jogo que deu a corrida no cômputo geral. Um encerro muito homogéneo e talvez das melhores corridas deste ano na praça da Capital.

João Moura Jr veio mais uma vez ratificar o seu estatuto, em duas lides perfeitas, levando os touros toureados desde longe, na garupa e ladeares, deixando ferros em todo o alto e nos remates com as Mourinas que sempre atingem o coração dos aficionados. Deu volta nos seus dois touros acompanhando os Forcados.

João Ribeiro Telles não vinha para brincadeiras e assim se comprovou, com quiebros vertiginosos deixou dois ferros daqueles de arrepio num conjunto de duas lides boas, melhor a primeira, premiada com volta.

Francisco Palha não quis nem podia ser de outra forma, passar por Lisboa, tocaram-lhe dois touros bem distintos, pôde mostrar o seu conceito e personalidade no primeiro com o toureio muito pessoal e no segundo, parado e procurando desculpas e saídas, demonstrou o seu ofício, disposição e decisão, nem sempre as lides tem que ser iguais, e adaptou-se a um touro mais rachado. Volta no primeiro.

A noite era de festa dos Forcados de Lisboa, da Lisboa das Toiradas, dos primórdios na Feira Popular, das noites de Parque Mayer, das actuações em Madrid, Sevilha, Pamplona, França, Dos que partiram cedo, dos que não puderam estar, daqueles que puderam e quiseram, era noite de Grupo de Lisboa.

90 Forcados fizeram cortesias, outros tantos estavam espalhados pelas bancadas, Avós, Mães, Mulheres, Filhas e Filhos, netos, todos disseram “eu vou” e com esta demonstração de carinho e união não havia margem para fracassos, a noite era por eles, para eles, para todos e por todos.

Senhor José Luís Gomes abriu a corrida numa pega plena de mando, cite, reunião e vontade, poderia esmiuçar cada um destes conceitos, levaria uma eternidade, assim sugiro que vejam a pega, quem não viu e ai, em poucos minutos, perceberão tudo isto.

Há quem fale e há quem faça, quem fala, fala coisas dos que fazem, quem faz, faz falar os que não fazem. Senhor José Luís Gomes, sexagenário, faz.

Depois desta injecção de moral, do exemplo e da atitude, se dúvidas e receio houvesse para os cinco que faltavam, rapidamente se dissiparam, e mais seis viessem, havia moral para dar e vender.

O segundo touro foi pegado por Pedro Gil que infelizmente fazia a sua última pega enquanto Forcado activo.

Fez, uma vez mais, o que nos habituou, brinde, cite e pega à medida do seu percurso, discreto para os mais distraídos, exemplar para todos.

A minha posição de cronista pecará desta vez pela violação do princípio da imparcialidade, mas neste caso os fins justificam os meios.

Tive o prazer de fardar-me de forcado com o Pedro Gil e de o conhecer no seio do Grupo e posso afirmar, com pouca margem de contestação para quem o queira fazer, que o Pedro foi dos Forcados mais generosos e disponíveis que tive a honra de conhecer, se há valores importantes num Grupo de Forcados, o Pedro transmite-os todos. Parabéns pelo percurso e obrigado por eu ter aprendido a ser melhor pessoa (o que para o Grupo de Lisboa prevalece).

O terceiro foi pegado por Francisco Mira, forcado icónico do Grupo de Lisboa, marcou uma geração e deixou escola dentro e fora do Grupo, fez o que sempre fez e sabe, quem viu e quer ser forcado, é bom que tenha tirado apontamentos.

O quarto touro foi pegado por um jovem forcado, João Maria Bagão, que poderia ter acusado a pressão do dia, da ocasião e da praça, afinal “só” ia pegar na corrida dos 75 do seu Grupo e onde já tinham pegado “aqueles rapazes” José Luís Gomes, Tita, Francisco Mira…

Fez uma pega como se estivesse num treino, fazendo tudo perfeito para mostrar que sabe e aprendeu. Mais uma boa pega e a quarta de seis pegas à primeira tentativa.

Para pegar o quinto saltou João Varanda de Carvalho, um dos pilares do grupo na actualidade e dos muito bons a nível nacional. Forcado polivalente e muito útil, desempenha todas as funções destacando-se na pega de caras, pegou o quinto com toda a correção à primeira.

Fechou a noite, que poderia perfeitamente ter continuado porque a disposição e diversão do Grupo, aquilo que se estava a desfrutar, permitia que ali se estivesse e mais touros viessem.

Mas tudo tem um fim e quem melhor para fechar com chave de ouro a já gloriosa noite dos Amadores de Lisboa do que o seu e nosso Cabo Pedro Maria Gomes.

Não é nada difícil falar do Pedro Maria Gomes, pode tornar-se difícil quando queremos dizer muito, porque o merece, mas o muito que dissermos é e será sempre pouco para o que realmente ele é, portanto torna-se fácil.

Comandar um grupo de homens não é tarefa fácil, se a isso juntarmos o facto de a atividade associada é pegar touros, a dificuldade acresce e não sendo suficiente, fazer isto tudo quando, se esteve a ponto de perder a vida, então aí só está alcance de pouquíssimos.

O Pedro Maria Gomes encaixa na perfeição no perfil acima indicado.

Depois de um dia sem descanso pelo contacto constante e permanente de todos, depois de comandar um grupo de 90 homens, definir e escolher cinco pegas, não conseguem os senhores leitores imaginar o desgaste físico e emocional de tamanha empresa, acrescentando a isto o facto de saber que se tem que pegar ainda, o último touro.

Pedro Maria fê-lo com uma frescura invejável, bem em tudo, e não falo só na pega, também à primeira tentativa, falo na gestão, condução, leitura e companheirismo.

Na sua pega levou para além dos sete forcados que o ajudaram, também os Fundadores, os seguidores, as famílias, os amigos, os seguidores, o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa.

Nem todos ajudaram, pegaram, não podiam, teriam que ter sido 12 touros, mas mesmo sem contribuir directamente nas pegas, todos, sem excepção tiveram e têm um papel preponderante no Grupo, onde, sem alaridos, cada um e todos desempenha o seu papel de forma exemplar.

Deveriam também todos aqueles, que nos bastidores, contribuem para a grandeza do Grupo de Lisboa, ter dado uma sétima volta ao ruedo.

Porta Grande para os Forcados de Lisboa.

Longa vida ao Grupo de Lisboa, Honra e Glória Aos que passaram à imortalidade e que os que hoje vestem aquela jaqueta a continuem a dignificar e engrandecer, porque é possível e bem provável que aconteça.

Senhores leitores saí de papo cheio, perdoem-se a vulgaridade da expressão, mas não tenho outra para tamanha satisfação.

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