Crónica | Salvador, Moura e Prates marcam noite do Campo Pequeno

Salvador, Moura e Prates marcam noite do Campo Pequeno

 

  • 4 de agosto de 2022, Campo Pequeno
  • Corrida de Homenagem ao Emigrante e ao Turismo
  • Cavaleiros: Rui Salvador, Manuel Telles Bastos, Emiliano Gamero, Andrés Romero, Miguel Moura e António Prates
  • Forcados: Moita, Arronches e Académicos de Elvas
  • Direção de João Cantinho assessorado por Jorge Moreira da Silva
  • Praça a 1/2 de lotação

 

Sempre que se fala em emigrantes, existe uma palavra emblemática e tão portuguesa, que não tem tradução em dicionário algum, Saudade. A separação física faz tornar a mente, o coração, os sentimentos, mais intimamente ligados aos valores dos bens deixados na Pátria e um deles é a Tauromaquia, tão enraizada nas nossas gentes. Ontem 4 de Agosto, Lisboa prestou-lhe homenagem num dos seus sítios mais emblemáticos, o Campo Pequeno numa corrida de toiros denominada de homenagem ao emigrante e ao turismo, num cartel de máxima competição internacional segundo rezavam os cartazes. Quatro cavaleiros portugueses, um rejoneador mexicano que confirmava alternativa e um rejoneador espanhol. Três grupos de forcados e seis toiros de uma das ganadarias mais singulares do nosso campo bravo, os Santa Coloma, com o ferro de Vinhas. Meia casa de público preenchida quando o país está a banhos, a crise aperta e as notícias “catastróficas” que a comunicação social nos passa todos os dias, como a guerra, o petróleo, a seca, e se calhar um inverno às escuras, diria que não foi mau de todo.

Foram lidados seis toiros da Herdade do Zambujal díspares de apresentação e tipos, com pesos a oscilar entre os 526kg e os 650kg, com as caras próprias do encaste ou seja não muito abundantes mas rematados de carnes. Quanto ao jogo também ele foi díspar mas positivo se terceiro e quarto não devem ter agradado ao seu amo já que não tiveram as características dos bravos; O primeiro teve mobilidade, teve raça mas faltou-lhe entrega; O segundo foi nobre, pronto, teve som nas acometidas aos cavalos, dos seis o que mais humilhou; O quinto teve durabilidade, mobilidade e prontidão, bom toiro; O que fechou a noite, o mais em tipo do encaste a par do primeiro, foi bravo! Teve raça, mobilidade, tranco, meteu bem a cara nos capotes. Deu volta à arena o ganadero Luis Vinhas após a lide deste bravo toiro da sua ganadaria.

 

Emiliano Gamero, que se apresentava em Lisboa, confirmou a alternativa e cumpriu um sonho. E como disse António Gedeão é o sonho, não o tempo, que comanda a vida, o sonho foi cumprido. Tocou-lhe em sorte um cardeno de capa, marcado com o número 32, de 536kg de nome Delegado. O rejoneador envergado traje charro, teve como padrinho do acontecimento Rui Salvador e como testemunhas do feito, Manuel Telles Basto, Andrés Romero, Miguel Moura e António Prates. Gamero, mostrou muita vontade em agradar os presentes, que em bem da verdade se mostraram condescendentes e afectivos com o confirmante, não tendo sido a sua lide redonda. Dois compridos a abrir e quatro curtos, dois deles em sorte de violino, um ou outro toque, uma ou outra passagem em falso, uns quantos desplantes característicos da sua forma de tourear mas que agradam e de que maneira ao público. O Rejoneador cumpriu o seu sonho, confirmou na Catedral do Toureio a Cavalo e como também disse Gedeão “sempre que um homem sonha o mundo pula e avança”.

Rui Salvador que cumprirá no próximo dia 9 de Agosto 38 anos de alternativa, concedida pelo saudoso José Mestre Batista e sendo testemunha João Moura, foi o segundo actuante desta corrida. A empresa Ovação e Palmas na pessoa de Luís Miguel Pombeiro, entregou ao cavaleiro de Tomar uma lembrança evocativa da data e a banda de música tocou os parabéns a Salvador. Saiu o toiro e o Rui deu lição! Foi um gosto ver a sua lide, a escolha dos terrenos, a brega os remates, os ferros a entrar pelo toiro carregados de emoção. Foi bonito ver um cavaleiro entregue, a vibrar e a fazer vibrar quem viu o feito. Foi bonito ver uma praça de pé a ovacionar esta grande lide e uma carreira gloriosa do cavaleiro dos ferros impossíveis. Bem nos compridos, dando recital nos curtos! Aquele com que abriu a segunda parte da sua lide ainda o tenho na retina, bem a preparar a sorte, cravando como mandam as regras, rematando de forma toureira, levando o bom Vinhas embebido no cavalo num ladeio fantástico. Obrigado Rui pelo momento vivido! O terceiro foi outro grande momento de bom toureio a cavalo, novamente o remate foi superior. Olé!

Manuel Ribeiro Telles foi o encarregado de lidar o terceiro da noite, foi buscar o oponente à porta dos curros mas este saiu distraído e querer orientar-se logo de saída. Bom foi o primeiro comprido e o respectivo remate por dentro. No primeiro curto o Manel foi colhido, felizmente sem consequências para cavaleiro e cavalo, mas o momento assustou quem viveu o sucedido. O toiro veio de largo, comeu terreno, não obedeceu ao toque, colhendo de forma violenta o cavalo. Refeito da colhida, o cavaleiro da Torrinha construiu uma lide onde tentou limar os defeitos do toiro, desenganado o mesmo pela esquerda e deixando a ferragem de forma correcta. O quarto curto foi daqueles à Manel, partiu recto, cravou de alto a baixo e rematou de forma bonita, no quinto entrou novamente recto pelo toiro dentro mas o Vinhas já mostrou novamente a sua condição de se meter. Lide de ofício deste cavaleiro na arena de Lisboa.

Se o terceiro não foi pêra doce, o quarto não lhe ficou atrás. O rejoneador de Escacena del Campo brindou a sua lide a Joselito Adame, uma lide que veio a mais em que mostrou muito querer e vontade de triunfar. Andrés Romero cravou três compridos para abrir a função. Nos curtos andou comunicativo com o público, tentando sobrepor-se a um toiro que esperava muito no momento do ferro e que se tapava por cima. Essa característica do oponente fez com que a lide não rompesse de todo, mas houve bons momentos de toureio a cavalo. Bom foi o primeiro curto, sendo o quarto um dos ferros da corrida. Rematou a sua actuação com um ferro de palmo que foi do agrado dos presentes.

Um dos momentos da noite foi vivido na porta gaiola com que Miguel Moura recebeu o quinto da noite, simplesmente genial, empolgante e mostrando ao que vinha o de Monforte a Lisboa, ou seja, triunfar! O toiro saiu com gás o Miguel esperou por ele, cravando no centro da arena o primeiro comprido, o remate deste ferro foi outro dos grande momentos da noite, as palmas fizeram fumo a aplaudir o acontecimento presenciado. Outro bom comprido e uma série de curtos empolgante, dando distâncias, depois encurtado terrenos, cravando bons curtos ao piton contrário, num toiro que carregava depois do ferro, aproveitando o Miguel para o levar “prendido” no cavalo, consequência disso os bonitos ladeios e remates por dentro.

Fechou a noite António Prates com outra grande lide! Bem nos compridos com destaque para o segundo. Nos curtos o António percebeu o bravo que teve por diante, aproveitou as qualidades do Vinhas, deu vantagens, lidou como se deve lidar um toiro com estas condições e construiu um triunfo em Lisboa. O primeiro curto e respectivo remate foram o aperitivo. O segundo foi bom mas o que foi aquele terceiro?! Grande ferro! De nota foi novamente o quarto. Bom e o quinto, o quinto teve o pormenor de o António se recriar na cara do toiro, dando a volta completa com o cavalo provocando a acometida do toiro, partiu recto, cravou ao estribo e fechou com chave de ouro uma grande actuação na primeira praça do País.

 

Noite dura para os Forcados, os toiros tiveram reuniões brutas, pediram primeiras e segundas ajudas e sobretudo terceiras, quando se sentiam “agarrados”, derrotaram com rim e despejavam com violência. Como disse, foi dura a noite mas os grupos dos Amadores da Moita, Arronches e Acadêmicos de Elvas mostraram galhardia, resolveram os problemas, havendo três pegas que levantaram o público das bancadas pela emotividade vivida na arena.

Abriu a noite David Solo pelos Amadores da Moita, bem a receber, o toiro teve uma viagem longa na primeira tentativa, pediu ajudas e despejou cá atrás. Na segunda o forcado e o grupo perceberam as características do Vinhas e foi consumada uma boa pega. Fabio Silva teve que bater as palmas por cinco vezes ao quarto da noite, sendo consumada a pega com ajudas carregadas e a sesgo. Toiro violento, a derrotar por cima e tirar o cara, o Fábio mostrou-se heróico, nunca voltou a cara ao desafio.

Pelo grupo de Arronches, Luís Marques à quarta tentativa com ajudas carregadas. O toiro vinha por baixo, pedia que lhe fossem perdidos passos e que o forcado se dobrasse mais no momento da reunião, desfeiteando o forcado quando isso não aconteceu. Um dos momentos da noite foi vivido na pega do quinto da ordem, o Rafael Pimenta foi o protagonista na segunda tentativa com a qual consumou a pega. Que grande par de braços, que grande alma. O Vinhas saiu pronto, com gás e a varrer, o Rafael não recebeu da melhor forma mas conseguiu-lhe ficar na cara, e depois disso foi só valor, raça, alma… Público de pé, um forcado todo “roto” mas com a satisfação de ter realizado um grande feito na praça do Campo Pequeno. Duas merecidas voltas à arena.

Pelos Académicos de Elvas, Paulo Mauricio, na primeira tentativa a reunião não foi perfeita, houve ali uns joelhos pelo meio o que fez com que o forcado não conseguisse reunir. Na segunda tentativa recebeu de forma exímia, fechou-se bem, pega dura com o Vinhas a bater forte e feio, mas o Paulo teve a raça para não lhe sair da cara, o grupo ajudou e a pega foi concretizada. Fechou a noite Gonçalo Machado, numa boa pega à primeira tentativa. Bem a citar, a recuar, teve uma boa reunião com o oponente à barbela, uma grande ajuda do primeira, o grupo entrou a tempo e foi concretizada assim a pega que venceu o concurso de pegas desta noite em Lisboa.

O júri deste concurso foram os cabos dos três grupos actuantes.

 

Dirigiu a corrida João Cantinho, sendo o médico veterinário Jorge Moreira da Silva.

 

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