Chorar diante dos filmes revela uma qualidade cada vez mais rara, segundo a ciência

Já reparou como certas histórias podem tocar-nos profundamente, ao ponto de nos fazer chorar? Porque será que algumas pessoas permanecem impassíveis enquanto outras se emocionam com facilidade? Existem dois tipos de pessoas: aquelas que se emocionam até às lágrimas com um filme tocante e aquelas que permanecem indiferentes. Se faz parte do primeiro grupo, não se preocupe, pois possui uma qualidade rara: uma grande sensibilidade emocional.

Essa sensibilidade permite-lhe viver as experiências de forma mais intensa, sentindo a alegria ou a tristeza com uma profundidade única. Além disso, torna-o mais atento às emoções dos outros, que é uma verdadeira força nas suas relações.

Pessoalmente, também me emociono frequentemente com filmes, mas igualmente ao ouvir canções marcantes, ao ler um livro comovente ou até mesmo ao ver uma publicidade que me toca. Há momentos em que preparo lenços e prefiro assistir ao filme sozinha, para não me sentir constrangida. Embora alguns sorriam ou me olhem com espanto, isso não me incomoda: esses momentos de emoção são preciosos e revelam uma força interior rara.

Chorar não é um sinal de fraqueza, mas sim uma forma de sentir a vida em toda a sua plenitude e conectar-se com as emoções dos outros. Essas instâncias de vulnerabilidade revelam uma faceta que muitos passam a vida a tentar encontrar. Não será essa uma das mais belas provas da nossa humanidade?

A ciência confirma a força emocional das pessoas que choram diante dos filmes

Imagens Pexels/ Freepik e Pixabay

As pessoas que choram diante de filmes possuem uma característica rara: uma **força emocional**.

Normalmente, as lágrimas não são associadas à força. Poderíamos pensar que a pessoa que permanece impassível, capaz de observar a vida de uma personagem de ficção sem se conectar emocionalmente, é, de certa forma, mais forte. E, até certo ponto, isso não está longe da verdade.

De acordo com o neurocientista Paul Zak, as pessoas que conseguem mergulhar numa história, como a de um filme ou livro, e se envolver emocionalmente não habitam num mundo ilusório.

Elas estão plenamente conscientes do seu ambiente e de que observam uma obra de arte como espectadores. A diferença reside na sua rara capacidade de se conectar a esses personagens através da liberação de ocitocina, conhecida como “o hormônio do amor”.

A maioria das pessoas associa a ocitocina à sensação de bem-estar e ternura que se sente ao ver um cachorro ou ao receber um abraço de um ente querido, e isso é verdade. Contudo, como Zak destacou, este mesmo hormônio é essencial do ponto de vista evolutivo, pois melhora nossos laços com os outros. Enquanto espécie, só conseguimos sobreviver interagindo e dependendo uns dos outros.

Isso faz sentido na realidade, mas Zak observou que algumas pessoas reagem da mesma forma diante de histórias comoventes. Em suma, são verdadeiros super-heróis emocionais.

A ocitocina como amplificador emocional

Em 2021, o neurocientista Robert Froemke descobriu, através das suas pesquisas, que a ocitocina funciona como um “módulo de volume”. Ou seja, se você assiste a um filme onde o personagem principal está a sofrer pelo luto de um ente querido e você próprio já passou por uma experiência semelhante, as suas emoções serão amplificadas porque se identifica com o que esse personagem sente.

A professora de psicologia Debra Rickwood explica:

“Chorar diante de um filme é um sinal de que a ocitocina foi liberada devido aos laços que se sentem por procuração.”

Ela prossegue:

“A ocitocina está então associada a uma maior empatia e compaixão, o que intensifica ainda mais o sentimento de pertencimento social e nos torna ainda mais atentos às emoções e comportamentos dos personagens do filme.”

As pessoas com grande força emocional demonstram empatia e uma forte inteligência emocional.

A empatia e a inteligência emocional não se limitam a colocar-nos no lugar do outro. Elas envolvem também emoções complexas.

Um estudo sugere que pessoas com uma inteligência emocional desenvolvida, que choram diante de um filme, têm mais probabilidade de alcançar o sucesso na sua carreira, especialmente como líderes e gestores eficazes. O estudo também mostra que elas mantêm melhores relações, incluindo uma vida amorosa gratificante.

Percebe onde quero chegar? Chorar diante de um filme é sinónimo de grande força emocional, o que se traduz numa inteligência emocional excepcional e, portanto, em mais sucesso, mais dinheiro, mais amigos e uma vida sexual mais satisfatória. Como poderia isso não ser considerado um superpoder?

Preocupar-se genuinamente com a situação dos outros requer uma enorme força. A vida pode ser cruel para alguns, e se você é capaz de compreender e se colocar no lugar de outra pessoa, isso revelou-se verdadeiramente significativo.

Você é forte o suficiente para sentir essa dor sem se deixar dominar por ela. É forte o suficiente para estar presente para os outros. Você é tão forte que consegue entender a perspetiva deles e sentir o que sentem.

Chorar, sem vergonha, à frente dos outros, é um ato de força.

Do ponto de vista societal, chorar é frequentemente visto como uma fraqueza. A única exceção são os momentos de luto, e mesmo assim, os homens são frequentemente encorajados a ocultar as suas emoções.

No entanto, se você consegue derramar uma lágrima à vontade ao assistir a um filme, em momentos de alegria ou tristeza, sem se preocupar com o olhar dos outros, possui uma força de caráter extraordinária. A sua autoestima é saudável.

Você não é prisioneiro dos estereótipos de género nem dos preconceitos. Sabe quem é e ama-se.

Essa confiança é rara. É uma qualidade que muitos passam a vida a procurar. Se você chora diante de um filme, saiba que possui uma força interior que poucos campeões do mundo poderiam igualar.

Reflexão final

No final, chorar diante de um filme, uma canção ou um livro vai muito além de um ato simples. É um ato profundamente humano que revela a nossa capacidade de sentir, compreender e acolher a vida em toda a sua complexidade.

Essas lágrimas não são uma fraqueza, mas sim testemunhos de uma força interior rara: aquela que nos permite conectar-nos com os outros, partilhar as suas alegrias e tristezas e viver plenamente as nossas próprias emoções.

Aceitar as nossas lágrimas é aceitar a nossa vulnerabilidade e entender que a verdadeira força não está na indiferença ou no estoicismo, mas na capacidade de sentir profundamente sem medo do julgamento. Cada lágrima derramada é uma prova da nossa humanidade, um lembrete de que estamos vivos e sensíveis ao mundo que nos rodeia.

Portanto, chorar torna-se um ato de coragem e humanidade. É uma maneira de nos lembrarmos que as nossas emoções, por mais intensas que sejam, fazem parte da nossa riqueza interior, melhorando as nossas relações com os outros. Ao aceitarmos as nossas lágrimas, oferecemos a nós mesmos a liberdade de sermos plenamente nós mesmos, com todas as nossas fragilidades e a nossa beleza.



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