O que faz a nossa mente permanecer afiada com a idade?
O meu tio nunca se deixou definir pelo seus anos. Mesmo hoje, recusa a ideia de que o tempo o deva fazer “desacelerar”. Com um entusiasmo contagiante, ainda se interessa por tudo, muitas vezes mais do que pessoas muito mais jovens. A sua capacidade de transitar de um tema científico para uma receita de cozinha, sem nunca evidenciar uma rotina cansativa, surpreende todos à sua volta. Curiosamente, ele nunca se sentou para “treinar” o cérebro, como muitas vezes se recomenda, mas a sua mente é mais ágil do que a de muitos outros.
Muitos acreditam que a agilidade mental numa idade avançada é resultado da genética, de jogos de cérebro ou de suplementos alimentares. Contudo, observar o meu tio de 75 anos viver com a energia de alguém com metade da sua idade ensinou-me outra lição.
Recentemente, ligou-me todo entusiasmado para comentar um documentário sobre física quântica que tinha assistido. Na semana anterior, o seu entusiasmo era igualmente contagiante ao falar sobre uma receita que descobrira numa canal de cozinha libanesa. Enquanto muitos dos seus amigos se acomodam numa rotina previsível, ele continua a acordar todas as manhãs como se houvesse sempre algo novo à sua espera.
E é precisamente aí que reside o segredo: o que o mantém tão vivo não é uma caixa de medicamentos ou um livro de crucigramas, mas sim a sua habilidade em preservar o que se chama de “espírito do principiante”.
Como a curiosidade mantém a juventude e a mente afiada
Já ouviu falar do conceito de Shoshin? Ele é traduzido como “o espírito do principiante”, que significa abordar a vida com uma mentalidade aberta, entusiasmo e sem preconceitos.
O meu tio encarna esse espírito sem sequer conhecer o termo. Enquanto os seus amigos aposentados discutem os mesmos assuntos políticos todos os dias à volta de um café, ele participa em fóruns online sobre agricultura sustentável, não com o intuito de se tornar agricultor, mas apenas pela curiosidade de entender melhor os sistemas alimentares.
Na verdade, não se trata de forçar-se a aprender, mas de manter viva a curiosidade infantil, aquela que nos leva a questionar o “porquê?” e o “como?”, sem necessidade de um propósito imediato.
Pense: quando foi a última vez que se deixou verdadeiramente surpreender por algo? Não um choque frente a manchetes sensacionalistas ou reviravoltas de uma série, mas uma verdadeira surpresa ao descobrir um aspecto inesperado do funcionamento do mundo?
Evitar a armadilha da especialização
Uma observação que tenho feito sobre o envelhecimento é que as pessoas que têm maior dificuldade em se adaptar são frequentemente aquelas que decidiram que já sabem tudo o que precisam saber. Elas moldaram a sua identidade baseando-se no status de especialistas, possuindo todas as respostas, o que resulta numa rigidez mental que acelera o declínio cognitivo. Quando deixamos de nos surpreender, cessamos a criação de novas conexões neuronais.
Pesquisas em neurociências mostraram que a curiosidade e a exposição regular à novidade estão associadas a um envelhecimento cognitivo mais lento e uma melhor preservação das funções cerebrais.
Apesar de ter trabalhado durante 40 anos numa empresa, o meu tio não parou de aprender após a aposentadoria. Recentemente, começou a seguir YouTubers que explicam de forma simples os desenvolvimentos modernos da inteligência artificial. “Adoro não saber tudo,” disse-me uma vez. “Significa que ainda há tanto para descobrir.”
Isto lembra-me que em várias culturas, as pessoas mais velhas que conheci mantêm uma vitalidade admirável, em grande parte porque valorizam a aprendizagem contínua, independentemente da idade. É comum vê-las sentadas em cafés debatendo novas ideias, ao invés de simplesmente relembrar as antigas.
O momento em que você decide que já é demasiado velho para se surpreender, é o momento em que começa a envelhecer rapidamente.
Quando a confusão se torna produtiva e ajuda a manter a mente afiada
As investigações em neurociências e psicologia da aprendizagem mostram que a confusão, quando surgida em resposta a novos conceitos e devidamente resolvida, pode melhorar o aprendizado, promovendo um processamento mais profundo da informação. É como um treino de resistência para os nossos neurônios.
O meu tio procura ativamente essa confusão construtiva. Ele assiste a documentários sobre assuntos que desconhece e procura conversa com pessoas muito mais jovens, apenas para compreender melhor o seu ponto de vista. Recentemente, pediu-me para lhe explicar o funcionamento das criptomoedas, não porque quisesse investir, mas pela simples curiosidade.
Compreende sempre tudo? Não. Precisamos de o fazer? De maneira nenhuma. O que importa é o envolvimento, manter a mente numa zona ligeiramente desconfortável onde o aprendizado ocorre.
Notei este princípio na minha vida. Quando descobri a filosofia na adolescência, através de um livro emprestado na biblioteca, senti de imediato um certo desconforto. Mas esse choque despertou a minha curiosidade, que me levou a aprofundar as minhas investigações e influencia agora o meu percurso profissional.
Manter a flexibilidade cognitiva
O que mais o caracteriza é a sua capacidade de evitar a rigidez intelectual que frequentemente acompanha a idade. Ele muda de ideias se confrontado com novos dados, questiona as suas hipóteses e admite não compreender algo.
Essa flexibilidade cognitiva é como ioga para o cérebro. Assim como a flexibilidade física mantém a juventude do corpo, a flexibilidade mental preserva a agilidade da mente.
Ele consulta fontes de informação diversas, de várias orientações políticas, não para reforçar as suas convicções, mas sim para entender diferentes perspetivas. Quando os seus netos lhe explicam as novas músicas ou tendências das redes sociais, ele não as desdenha chamando-as de “besteiras de jovens”; ao invés disso, faz perguntas genuínas.
Isso faz-me pensar na ideia de desapego das opiniões. Segurar-se em demasia a crenças pode gerar sofrimento e impedir o crescimento pessoal. As pessoas que envelhecem melhor são aquelas que abordam as suas crenças com flexibilidade suficiente para as examinarem.
Criar surpresas no dia a dia para manter a mente mais viva
Não é preciso viajar para o outro lado do mundo nem praticar desportos extremos para se deixar surpreender pela vida. O meu tio encontra a maravilha nos pequenos momentos do dia a dia.
Ele varia o caminho da sua caminhada apenas para observar o que o rodeia. Tenta cozinhar com um ingrediente que nunca usou antes e ouve um podcast sobre um tema com o qual não concorda, buscando verdadeiramente entender o outro ponto de vista.
Estas pequenas ações de abertura acumulam-se ao longo do tempo. Cada uma cria novas conexões neuronais, desafia os padrões de pensamento existentes e mantém a capacidade de adaptação do cérebro.
Faço também esforço para aplicar este princípio na minha vida. Quando viajo, em vez de visitar apenas os pontos turísticos, perco-me em bairros aleatórios. Ao ler, escolho livros que fogem das minhas áreas habituais de interesse. O objetivo não é tornar-me um especialista em cada assunto, mas sim preservar essa sede de descoberta.
Que poderia fazer hoje para se surpreender? Experimente um prato que sempre evitou. Tenha uma conversa autêntica com alguém com uma história muito diferente da sua. Ou talvez simplesmente tire cinco minutos para observar atentamente algo que passa despercebido no seu dia a dia.
O efeito cumulativo da surpresa
O que aprendi ao observar o meu tio é que a vitalidade cognitiva não se baseia em experiências extraordinárias, mas sim na escolha diária de se manter aberto à surpresa.
Cada vez que ele aprende algo novo, questiona uma hipótese ou admite não entender um conceito, está a exercitar a sua mente. Estas pequenas práticas, combinadas, geram resultados significativos.
Aos 75 anos, ele é mais ágil mentalmente do que muitas pessoas com o dobro da sua idade, porque nunca parou de aprender. A sua aposentadoria não foi o fim do aprendizado, mas sim o início de uma nova fase de curiosidade.
O melhor desta abordagem é que está ao alcance de todos, independentemente da idade ou da situação. Não é necessário equipamento especial nem suplementos caros; basta acordar todos os dias com a vontade de se deixar surpreender.
Conclusão sobre como manter a mente viva
Na próxima vez que alguém lhe falar sobre a última aplicação de treino cerebral ou sobre o suplemento milagroso para a saúde cognitiva, lembre-se disto: o ferramenta mais poderosa para manter a mente viva pode ser simplesmente a capacidade de se maravilhar.
A sua capacidade mental a 75 anos não se deve à sua idade, mas a 75 anos de curiosidade. Ele é a prova de que a fonte da juventude não é um lugar nem uma pílula, mas sim uma mentalidade que nos leva a perguntar: “O que vou aprender hoje?”
O mundo é repleto de surpresas, se tivermos a disposição de as reconhecer. A questão é: deixará você que elas entrem?




