A psicologia explica por que algumas pessoas ficam muito tempo sem um amigo próximo: elas aprenderam a não depender mais dos outros

Ao longo do tempo, certas **hábitos** tornam-se visíveis. Algumas pessoas parecem experimentar a solidão de forma tranquila e confortável, desfrutando de um café numa esplanada ou de um livro num parque, sem sentir a necessidade da presença de um amigo. Ao contrário do que muitos podem pensar, essa serenidade não reflete uma vida de isolamento ou infelicidade, mas sim uma empatia tranquila que muitas vezes intriga.

Na pequena livraria da vizinhança, há sempre um cliente que se destaca. Ele entra, folheia alguns livros, troca palavras com o livreiro e sai com seu exemplar. Quase sempre sozinho, parece estar exatamente onde deseja estar.

Entretanto, é curioso como a sociedade julga essas pessoas. Aqueles que passam longos períodos sem amigos íntimos são frequentemente rotulados como “associáveis”, como se a preferência pela solidão revelasse automaticamente um problema. Essa conclusão, no entanto, é simplista e, muitas vezes, enganadora.

A maioria dessas pessoas não rejeita os outros

Estas pessoas não desprezam a amizade ou as relações humanas. Muitas vezes, aprenderam desde cedo que a confiança total ou a dependência emocional poderiam resultar em feridas profundas.

Com o tempo, desenvolveram uma **autonomia emocional**. Perceberam que se sentem mais em paz ao não depender do bem-estar de outrem. Não é por desprezo, mas sim por experiência acumulada.

Embora possam apreciar interações e momentos de partilha, sabem que seu bem-estar não depende da validação alheia. Este detalhe, muitas vezes ignorado, é crucial.

O que muitos confundem com frieza é, com frequência, uma forma de se proteger. Esta proteção é construída ao longo dos anos, após compreender que algumas desilusões deixam cicatrizes duradouras. Por trás da solidão assumida, raramente se oculta a falta de amor; é, na verdade, uma paz interior arduamente conquistada.

“Antissocial” não é a expressão que procura

Imagens Pexels e Freepik

Um ponto que merece ser esclarecido, dado o impacto que pode ter. No âmbito da psicologia clínica, “**antissocial**” refere-se a uma tendência persistente de ignorar os direitos alheios, manipulando ou prejudicando os outros. O transtorno de personalidade antissocial é um diagnóstico associado a comportamentos danosos, e não à discrição em ambientes sociais ou à preferência por estar sozinho.

Ao referirmo-nos à “anti-socialidade”, em geral estamos a falar de uma preferência pela solidão. Esta inclinação em si não é preocupante. Ela pode ser antiga e perfeitamente compatível com um bom equilíbrio psicológico.

Compreendemos, assim, que o colega que muitas vezes opta pela solidão não está a colocar os outros em perigo; apenas tem um “**orçamento social**” mais restrito que o seu.

A lição aprendida cedo demais

Aqui é que as coisas se tornam curiosas e, por vezes, tristes.

A **teoria do apego**, segundo o psiquiatra John Bowlby, explica que cada um de nós constrói uma representação das relações humanas com base na forma como os adultos que nos cercam atendem às nossas necessidades na infância.

Esses modelos internos formam-se precocemente e continuam a influenciar as nossas relações durante décadas, em grande parte sem que tenhamos plena consciência disso.

Se as figuras de apego foram disponíveis, reconfortantes e confiáveis, a criança acredita que os outros estarão presentes quando necessário. Este conceito corresponde ao de “**base de segurança**” formulado na teoria de Bowlby, posteriormente estudado por Mary Ainsworth. Pesquisas indicam que uma resposta sensível e consistente das figuras de apego está associada ao desenvolvimento de um apego seguro na criança.

Por outro lado, se as suas necessidades foram ignoradas ou desencadeavam reações negativas, pode desenvolver a conclusão de que é melhor não pedir nada. Como afirmam alguns terapeutas, a criança não deixa de ter necessidades; aprende apenas a não as expressar.

Uma autonomia que se transforma em armadura

Bowlby descrevia essa estratégia na vida adulta como **autonomia compulsiva**. Não se trata da autonomia valorizada num currículo, mas da independência que torna pedir ajuda extremamente difícil, quase desconfortável. Essa estratégia foi eficaz para enfrentar certas adversidades, o que tornou difícil deixá-la para trás.

Esse aspecto muitas vezes é esquecido.

A decisão: “se precisar menos dos outros, irei sofrer menos” não era irracional. Para uma criança, esta decisão pode ter representado a melhor forma de proteção.

Na vida adulta, essa estratégia continua a manifestar efeitos notáveis. Muitas vezes, essas pessoas aparecem como extremamente competentes, fiáveis e autônomas. Lideram equipas, gerem crises, assumem responsabilidades e raramente transmitem a impressão de perder o controle. São admiradas pela sua capacidade de gerir tudo sozinhas.

Encontrei pessoas assim. Uma delas parecia nunca precisar de encorajamento, reconhecimento ou mesmo descanso. À primeira vista, a sua independência parecia admirável. Com o tempo, percebi que não se tratava apenas de uma qualidade, mas também de uma proteção. E uma armadura, por mais eficaz que fosse, pesa para se carregar diariamente.

As pesquisas indicam que essas pessoas não experimentam menos emoções que os outros. Estudos que utilizam medidas fisiológicas, como o ritmo cardíaco ou certas hormonas associadas ao estresse, demonstram que indivíduos com um estilo de apego evitativo podem vivenciar uma angústia comparável à dos demais. A diferença é que aprenderam a ocultar as suas emoções, por vezes até de si próprios.

Estar sozinho não significa ser solitário

O cuidado é frequentemente acompanhado por um estereótipo: uma pessoa sem amigos íntimos seria, obrigatoriamente, infeliz. A realidade é mais complexa.

A psicologia distingue claramente entre a solidão imposta e a solidão escolhida. A primeira refere-se ao desfasamento entre as relações desejadas e as que realmente se possuem, sendo este desfasamento a causa do sofrimento.

Por outro lado, a solidão escolhida é um estado em que a pessoa aprecia a própria companhia. Não sente esse isolamento como uma carência, mas sim como uma fonte de calma, reflexão ou reenergização.

Vários psicólogos consideram a habilidade de estar sozinho como um sinal de maturidade psicológica. Não é um consolo para quem não consegue estabelecer relações, mas uma verdadeira competência emocional.

Algumas pessoas recuperam a energia no silêncio, enquanto outras o fazem em almoços entre amigos ou noites animadas.

No fundo, uma pessoa sem um melhor amigo pode, realmente, sentir uma profunda solidão. Mas também pode estar perfeitamente realizada, autónoma e satisfeita com o seu modo de vida. Sem um testemunho real da situação, estas duas experiências podem parecer semelhantes. É por isso que os julgamentos baseados exclusivamente nas aparências se revelam frequentemente errados.

A questão que realmente importa

Se quiser compreender uma pessoa, ou até mesmo a si próprio, esqueça o número de amigos que ela tem. Este número, por si só, não revela quase nada.

Pergunte-se antes: após um período de solidão, sente-se revitalizado ou, pelo contrário, esgotado? Uma solidão que traz calma, clareza e apaziguamento é geralmente uma solidão escolhida e benéfica. Em contrapartida, uma solidão que drena, pesa ou deixa um vazio é digna de atenção.

Depois, formule-se uma segunda pergunta, menos evidente, mas muitas vezes mais reveladora: se quisesse, poderia pedir ajuda? E, mais importante, acredita realmente que isso ajudaria?

É frequentemente aqui que reside a verdadeira pista. O evitamento não se resume a: “não preciso de ninguém.” Geralmente vem acompanhado pela crença de que: “de qualquer forma, pedir ajuda não traria benefícios.”

Não é a solidão que merece ser questionada, mas sim essa crença.

Nada disso é uma fatalidade

A boa notícia é que estes padrões não são fixos. Formaram-se precocemente na vida, por vezes antes de a memória consciente ter início. O que foi aprendido pode, com o tempo, mudar.

Esse processo de mudança geralmente não ocorre por imposição ou porque alguém insiste que devemos “abrir-nos aos outros”. Ele instala-se gradualmente, através de pequenas experiências que mostram que é possível receber apoio sem enfrentar o custo de outrora. Um pedido de ajuda, e depois outro. Uma relação de confiança, seguida de outra. Com o tempo, as antigas certezas podem começar a desvanecer.

Isso não significa que todos devem procurar ter um grande círculo de amigos ou uma vida social intensa. Muitas pessoas prosperam com duas ou três relações profundas e muitos momentos de tranquilidade. Não há nada a corrigir nessa escolha.

Entretanto, se a sua solidão resulta principalmente de uma decisão tomada precocemente para se proteger de experiências dolorosas, essa história merece ser examinada com carinho.

Não porque haja algo errado consigo, mas porque a criança que lá está dentro tomou essa decisão com a única informação disponível na altura. Hoje, é provável que tenha muito mais conhecimento.

Uma lição que pode evoluir

A pessoa que se senta tranquilamente à mesa, sozinha com um livro ou um café, não é necessariamente uma alma atormentada. Ela também não está em oposição ao mundo ao seu redor.

É possível que tenha aprendido um modo particular de se proteger desde cedo.

A única questão que realmente importa é: esta estratégia ainda é útil para si hoje ou pertence a uma fase da sua vida que já passou?

Este artigo tem um caráter informativo e reflexivo. Não representa, em nenhuma circunstância, um aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As ideias aqui apresentadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, não resultando de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.

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