À medida que envelhecemos, as experiências da vida não têm o mesmo impacto em todos. Não é apenas o que perdemos que conta, mas como cada um de nós atribui significado a essas perdas. Duas pessoas podem atravessar situações semelhantes e ainda assim encontrar direções de vida opostas. Esta diferença na interpretação desempenha um papel crucial no desenvolvimento do caráter.
A razão pela qual algumas pessoas se tornam mais generosas ao envelhecer, enquanto outras se tornam mais autoritárias, está menos relacionada ao que perderam e mais à forma como perceberam essa perda: como algo que as diminuiu ou como uma abertura para novas possibilidades.
Envelhecer: perdas semelhantes, reações diferentes
Um cônjuge, a saúde, a carreira… Mesmo estas perdas podem ser muito parecidas, mas enquanto uma pessoa se torna mais gentil e generosa, a outra pode se fechar e procurar recuperar o controlo. E essa divergência não é determinada pela magnitude das perdas.
Umaestudo longitudinal de Stanford demonstrou que, em média, os idosos tendem a se mostrar mais dispostos a ajudar os outros. No entanto, outros estudos revelam que uma parte significativa dos idosos, com o tempo, se torna mais rígida, defensiva e autoritária. Mesmo a mesma geração, o mesmo tipo de eventos, mas respostas psicológicas antagónicas.
Durante muito tempo, acreditou-se que essa discrepância se explicava unicamente pela intensidade das perdas: quanto mais severas eram as perdas, maior a amargura. Mas dados empíricos não corroboram esta visão.
A variável decisiva não é a perda em si, mas a interpretação que se faz dela, a forma como se integra na narrativa pessoal da vida.
A psicologia do envelhecimento: perder e transformar-se

aqui está o que me fascina: duas pessoas podem passar por perdas quase idênticas e sair completamente transformadas. Ambas podem perder o cônjuge, enfrentar problemas de saúde ou ver a sua carreira chegar ao fim, mas enquanto uma se torna mais generosa, a outra pode tornar-se mais autoritária.
SegundoLaura L. Carstensen, professora de psicologia na Universidade de Stanford, “as pessoas idosas estão mais dispostas do que os jovens a ajudar os outros”. Contudo, isso não é automático; depende de fatores mais profundos.
Trata-se de uma questão de percepção. Aqueles que vivenciam a perda como um enfraquecimento tendem a agarrar-se com mais força ao que lhes resta. Erguem muros, criam regras e tentam controlar um mundo que parece estar a encolher. Para eles, a perda é a prova de que o mundo lhes tirou algo, e, assim, precisam proteger o que ainda possuem.
Por outro lado, os que veem a perda como um desafio que os abriu a novas perspetivas experimentam uma forma de libertação. Cada perda torna-se um ensinamento, revelando o que realmente importa. Eles descobrem que perder algo muitas vezes significa ganhar em perspetiva, sabedoria e, curiosamente, liberdade. Pode parecer simples na teoria; na prática, é bem mais complicado.
Quando a perda se torna uma oportunidade no envelhecer
Aprendi esta lição durante uma fase da minha vida, que foi, na verdade, a mais penosa. Com um diploma de psicologia nas mãos, encontrei-me a embalar caixas, sentindo que as minhas habilidades estavam a ser desperdiçadas e o meu potencial, perdido.
Esta crise de identidade poderia facilmente ter-me tornado amarga. Poderia ser uma daquelas pessoas que tentam controlar tudo na expectativa de que a sua carreira não descarrile.
Entretanto, algo mudou. O conceito de impermanência, que estudava, ganhou um novo significado. Esse trabalho, esse sentimento de falhanço, essa perda de quem eu pensava ser, tudo isso era efémero. E assim aconteceu. Mas, principalmente, libertar-me da ideia rigida de quem eu “deveria ser” permitiu-me descobrir quem eu poderia realmente tornar-me. Isso levou-me à escrita, à criação e, por fim, a uma vida que nunca poderia ter imaginado a partir daquela empresa.
O paradoxo do controlo: ilusão ou verdadeiro poder

Há um fenómeno contra-intuitivo: quanto mais tentamos controlar, menos controle possuímos.
Pesquisas indicam que uma maior sensação de controle entre os idosos está associada a melhor desempenho cognitivo, frequentemente resultado de uma atividade física mais significativa. Mas atenção: controle percebido não é sinónimo de controle real.
Aqueles que se tornam mais controladores à medida que envelhecem confundem frequentemente domínio com controle. Pensam que ao gerirem cada detalhe, monitorizar cada relação e limitar cada variável, mantêm o controle. Mas, na verdade, criam uma prisão para si mesmos e para os que os rodeiam.
É importante destacar que esta postura não é apenas uma reação diferente à perda, mas uma forma defensiva que compromise relações, curiosidade e, em última análise, a capacidade de sentir alegria.
O caminho da generosidade não é simplesmente uma opção entre duas. É o mais desafiador, pois exige abrir mão da única coisa que a perda nos leva a querer preservar: a crença de que podemos evitar futuras perdas. Muitos não farão essa escolha, não porque sejam pessoas más, mas porque o preço a pagar é verdadeiramente elevado.
Os mais generosos aprenderam a dominar o que podem (suas reações, suas escolhas, suas atitudes) e a soltar aquilo que os escapa. Paradoxalmente, isso dá-lhes uma influência real muito maior sobre o seu ambiente.
A generosidade que surge da libertação no envelhecer
Trabalhos publicados noThe Gerontologist revelam que, no geral, os idosos tendem a adotar mais comportamentos de ajuda e apoio aos outros do que os mais jovens, embora este efeito dependa do contexto e do tipo de auxílio considerado.
Mas por que razão a libertação leva à generosidade?
Quando deixamos de ver a perda como um ataque a nós mesmos, percebemos que temos muito mais a oferecer do que imaginávamos. Não tentamos mais proteger recursos escassos, mas partilhar uma fonte inesgotável de experiência, sabedoria e perspetiva.
Ser pai pode ensinar algo que nenhuma reflexão pode realmente proporcionar. Cada dia mostra que quanto mais tentamos controlar o cotidiano de uma criança, menos fluida e próxima se torna a relação. Mas quando deixamos estar e estamos apenas presentes, algo mais natural se estabelece, permitindo que a relação floresça de ambos os lados.
Este princípio aplica-se igualmente ao envelhecimento. Aqueles que veem cada perda como uma oportunidade para algo novo tendem a preencher esse vazio com generosidade. Aprenderam que dar não os esgota, mas os enriquece.
Escolher a reação face à perda

Como fazer para que, ao envelhecer, evoluamos para a generosidade em vez de para o controle?
Devemos primeiro mudar a nossa perspectiva sobre as nossas perdas. Em vez de perguntar “O que me foi tirado?”, devemos questionar “O que isso me ensinou?” ou “Que abertura isso criou?”.
Em segundo lugar, vamos praticar, desde já, pequenos gestos de libertação. Não precisamos esperar por mais idade para começar. Sempre que nos libertamos de uma mágoa, abandonamos uma expectativa ou damos sem esperar algo em troca, estamos a preparar-nos para envelhecer com generosidade.
Por último, não esquecer que o controle é, em grande parte, uma ilusão. A filosofia ensina que o sofrimento vem do apego às expectativas, especialmente à crença de que conseguimos controlar os resultados. Aceitando isso, podemos concentrar-nos no que realmente controlamos: as nossas reações.
Eu aplico este conceito de impermanência para lidar com o stress do dia a dia. Quando me sinto sobrecarregada, lembro-me: isso também vai passar. E efectivamente, sempre acontece.
A escolha é sua
O que é maravilhoso nesta descoberta psicológica é que ela nos devolve o poder. Não aquele de controlar eventos, mas aquele de escolher a nossa reação face ao que acontece.
Cada desafio é uma oportunidade de escolha: vai diminui-la ou abrir-lhe novas portas? Vai agarrar-se mais forte ou soltar-se? Vai fechar-se ou florescer?
Estudos demonstram que aqueles que priorizam a abertura tendem a tornar-se mais generosos. Aqueles que percebem a perda como uma diminuição tendem a tornar-se mais autoritários.
Mas há uma coisa importante: nunca é tarde demais para mudar de perspetiva. Quer tenha 30 ou 80 anos, pode começar a perceber a perda de forma diferente. Pode escolher deixá-la abrir-se em vez de se fechar.
Palavras finais

Ao observar o desenvolvimento de uma criança, percebemos que cada etapa nova representa o fim de uma anterior. O bebé torna-se um pequeno, que depois se transforma em criança, e finalmente em adulto que já não precisa dos pais como antes.
Pode-se tentar controlar o desenvolvimento de uma criança, mantendo-a numa forma de dependência e estabilidade. Ou, pelo contrário, pode-se ver cada etapa como uma abertura para novas oportunidades, novas formas de comunicação e relacionamentos que evoluem e se aprofundam com o tempo.
O mesmo dilema é colocado a cada um de nós ao envelhecer. Inevitalmente, perderemos algo, mas sempre que nos agarramos àquilo que nos escapa, é útil questionar o que realmente estamos a proteger. O que perdemos? Ou simplesmente a versão de nós que existia antes dessa perda. Uma versão que, honestamente, talvez nunca tenha sido tão forte como gostamos de acreditar?
Se esse for o caso, então controlar não consiste verdadeiramente em segurar-se. Trata-se de recusar tornar-se quem poderíamos ter sido sem essa pressão. E isso levanta uma pergunta que muitos prefeririam evitar: e se a pessoa que tememos perder nunca tivesse valido a pena preservar?
Este artigo é apenas informativo e reflexivo. Não se constitui como aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As ideias aqui apresentadas baseiam-se em investigações publicadas e observações editoriais, não resultando de uma avaliação clínica. Em caso de dificuldades ou questões preocupantes, recomenda-se a consulta de um profissional qualificado.




