A “aficion” nunca ficou confinada

Crónica

Praça de Touros do Campo Pequeno, 27.08.2020

 

 

Cavaleiros:

João Moura Caetano

João Moura Jr.

João Ribeiro Telles Jr.

 

 

 

Ganadaria: Francisco Romão Tenório

Grupos de Forcados Amadores de Évora e A.P. Moita, capitaneados, respectivamente, pelos Senhores João Pedro Oliveira e Leonardo Mathias.

 

A “aficion” nunca ficou confinada.

A temporada no campo pequeno vai no equador das corridas de abono, e os aficionados mais uma vez responderam em massa preenchendo praticamente a lotação permitida nestes estranhos tempos.

Aficionados ávidos de ver uma boa corrida de toiros, ávidos de mostrar a sua paixão por uma arte tão singular como a festa dos toiros.

Aficionados que mostraram que a sua liberdade esteve e contínua condicionada, mas que a sua “aficion”permaneceu livre e permanecerá enquanto o homem se emocionar com tão único, emocionante e belo espectáculo.

A corrida iniciou-se com as merecidas homenagens a D. Francisco Mascarenhas pela comemoração dos seus 75 anos de alternativa e ao Grupo de Forcados do Aposento da Moita pela comemoração seus 45 anos de existência.

Após as breves cortesias, onde se perfilaram três cavaleiros de dinastia, João Moura Caetano,  João Moura Jr. e João Ribeiro Telles Jr., e dois consagrados grupos de Forcados, Amadores de Évora e Amadores do Aposento da Moita, iniciou-se o espectáculo propriamente dito.

Para completar o elenco estava anunciado um curro do Exmo. Senhor Francisco Romão Tenório, que no geral cumpriu em apresentação dentro do tipo do encaste que possui, com excepção para o saído em último lugar que não tinha apresentação para a primeira praça do país, pois saiu “anovilhado” e com falta de força.

 

Abriu praça João Moura Caetano, que diante de um toiro que saiu alegre e a corresponder aos cites de praça a praça do ginete de Monforte, esteve irregular nos compridos, abusando no engano dado ao toiro. Nos ferros curtos emendou a mão, e começou esta função com brega vistosa e criteriosa deixando um bom ferro a meter o toiro que foi nobre e codícioso debaixo do braço. No segundo curto mediu mal as distâncias e não conseguiu evitar um forte toque, rematou a lide com dois ferros em curto, a atacar o toiro e a quartear-se bem, rematando os mesmos de forma superior com recortes de arte, saindo sob ovação do público.

No seu segundo as coisas não lhe correram bem, muito por culpa do astado que lhe tocou em sorte, o pior da corrida no que diz respeito ao comportamento, saiu distraído, parado e com sentido e sempre a querer fugir da contenda.

Resolveu com eficiência nos compridos, tendo porfiado bastante para conseguir deixar a ferragem curta da ordem.

Noite inglória e ingrata para João Moura Caetano.

João Moura Jr., foi indiscutivelmente o grande e enorme triunfador da noite, arrebatando por completo o público presente no “coso” Lisboeta, com duas lides distintas, mas ambas recheadas de “toreria”, saber e emoção.

Está um toureiro seguro, poderoso e confiante, está bem montando e atravessa um momento de forma extraordinário, dando a sensação que toureia todos os dias.

Recebeu superiormente a primeiro toiro que foi nobre, voluntarioso e emprestou brilho às sortes, dobrando – se numa nesga de terreno e deixando o touro em sorte, cravando num estilo mais ao jeito do nosso país vizinho, sendo no entanto eficiente e rematando as sortes superiormente.

Nos curtos deu primazia aos cites frontais de praça a praça, cravou com leve batida ao piton contrário, tendo sempre o cuidado de rematar criteriosamente cada ferro, destaque para o cravado em quarto lugar, atacando com emoção o momento da reunião, cravando de alto a baixo como mandam as regras.

Nota + para toiro e cavaleiro.

O segundo toiro foi mais do mesmo, um toiro que teve classe na investida, quer nos capotes, quer no cavalo, teve recorrido e pôs emoção na lide, muito bem aproveitado por Moura Jr. que deu mais um recital de bom toureio, levantando o público por diversas vezes dos seus assentos.

Brindou esta lide a três “figurões” do toureio a cavalo, António Ribeiro Telles, Diego Ventura e ao seu pai João Moura, tendo este último recebido enorme ovação aquando do brinde, dum público que quis mostrar a sua solidariedade e admiração pelo Maestro de Monforte.

Iniciou a lide com um brilhante e emocionante ferro em sorte gaiola, a que se seguiu outro belíssimo comprido a aguentar a investida franca do toiro.

Nos curtos, primou por uma brega consistente, deixando numa primeira fase da faena dois ferros com batida ao pitón contrário algo pronunciada, mas ainda assim a deixar o toiro de baixo do braço.

Rematou a lide com a sorte inventada pelo seu Pai e recreada por si, a chamada “Mourina”, executando a mesma por duas vezes de forma irrepreensível, transpirando arte, emoção e génio, pondo o Campo Pequeno virado do avesso.

Destaque também para os emocionantes remates destas sortes, que resultaram ajustadíssimos, com o cavalo a dar a espádua ao toiro que sempre se entregou na perseguição da montada, emprestando ainda mais brilho à lide.

Saiu sob estrondosa ovação, com o público rendido ao génio Moura, consagrando-o como triunfador absoluto.

João Ribeiro Telles é um toureiro de dinastia e de raça, e nunca se intimidou com as lides triunfais do seu antecessor, saindo para cada lide com uma raça incrível, demonstrando que é um toureiro a ter sempre em conta e que o público pode contar com ele para viver grandes emoções.

No seu primeiro, recebeu bem o oponente e foi seguro na colocação da ferragem comprida.

Nos curtos, após um primeiro em que sofreu um forte toque, partiu para uma grande lide, com ferros espectaculares a pisar terrenos de compromisso, de destacar o quarto ferro, um dos ferros da noite, fechou esta lide com chave de ouro, deixando um grande ferro “a pôr a carne toda no assadoro”, após primorosa preparação. Saiu sob forte ovação.

No seu segundo, recebeu com eficiência o toiro que lhe calhou em sorte, um toiro que tinha mobilidade pecando apenas pela falta de força e transmissão.

O que faltou ao toiro, pôs-lhe João Telles Jr. em dobro, mesmo depois de sofrer uma queda feia, consequência de uma escorregadela do cavalo, felizmente sem consequências de maior para a montada e cavaleiro, mudou de montada e mostrou toda sua genialidade e ousadia, com ferros sem sortes cambiadas em terrenos de compromisso, levando o público ao delírio, principalmente aquando da colocação do último ferro. Saiu sob forte ovação, deixando um bom ambiente no Campo Pequeno e mostrando que é um toureio de raça.

No capítulo das pegas, com excepção do toiro saído em terceiro lugar, os toiros não complicaram a papeleta dos forcados, tendo ambos os grupos resolvido os problemas que tinham pela frente com seriedade, entrega e valor.

Pelo Grupo de Forcados Amadores de Évora, abriu a função o Cabo João Pedro Oliveira, que esteve correcto e vistoso no cite, para consumar uma boa pega à primeira tentativa num toiro que protestou cá atrás.

Seguiu-se António Alves, que apenas à terceira tentativa conseguiu dominar a investida impetuosa e poderosa do toiro que pegou, sendo muito bem ajudado por todo o grupo, numa pega que embora tenha sido realizada à terceira tentativa, resultou vistosa e emocionante.

Fechou praça pelo seu Grupo, Ricardo Dias, que também apenas à terceira tentativa consumou a pega, depois de duas tentativas iniciais em que o momento de reunião defeituoso contribuiu para o desfecho final.

Pelo Grupo de Forcados do A.P. Moita, perfilou-se também para a primeira pega do grupo, o seu cabo Leonardo Mathias, que ao primeiro intento e bem ajudado pelo seu grupo realizou uma boa pega.

Martin Cosme Lopes pegou também à primeira tentativa, numa pega onde o momento da reunião resultou defeituoso, mas ainda assim, fruto da ajuda dos companheiros conseguiu consumar com eficácia.

Fechou praça João Ventura que esteve correcto, consumando à primeira tentativa fechando uma actuação positiva do seu grupo.

Corrida que ficou na memória dos aficionados, essencialmente pelos momentos altos de Toureio a Cavalo que se viveram na praça da Capital.

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