De acordo com as investigações na área da psicologia, quem permanece ativo aos 60/70 anos não são apenas aqueles com os melhores genes, a maior disciplina ou as rotinas mais rigidamente definidas. São, na verdade, pessoas que, muitas vezes sem alarde, decidiram há muito tempo que mover o corpo é menos uma questão de aparência e mais uma maneira de estar plenamente presente na vida que não desejam deixar.
Há uma abordagem à atividade física que acaba por se esgotar sozinha. Reconhecemos facilmente esta dinâmica: a pessoa que se inscreve entusiasticamente numa academia em janeiro e abandona em fevereiro. Aquela que perde peso para um evento específico e depois retoma hábitos antigos, ou ainda aqueles períodos de esforço intenso que ruem quando as responsabilidades diárias se tornam mais exigentes.
Por outro lado, existe uma relação diferente com o movimento. Como o homem de 68 anos que caminha vários quilómetros todas as manhãs, não por necessidade médica, mas porque é nessa caminhada que organiza os seus pensamentos. Ou a mulher de 72 anos que nada regularmente ao romper da aurora, não para controlar o peso, mas porque a água é uma parte essencial do seu bem-estar.
A diferença entre essas abordagens não reside realmente na disciplina. Não está relacionada com o metabolismo e, segundo numerosos estudos, nem mesmo com a genética. É algo mais potente e simples: a razão pela qual o movimento é parte integrante da sua vida.
A interpretação mal compreendida da genética

Quando observamos alguém que envelhece de forma saudável, tendemos a atribuir isso à sorte. A bons genes, a um metabolismo eficiente e a algo impossível de reproduzir ou que, provavelmente, não possuímos.
Este instinto geralmente revela-se errado.
Uma investigação publicada na revista Immunity and Ageing constatou que cerca de 25% da variação na longevidade humana é atribuível a fatores genéticos. Em outras palavras, os restantes 75% são determinados por escolhas de vida: dieta, atividade física, gestão do stress e prioridades.
Os pesquisadores da Mayo Clinic estimam mesmo que a contribuição genética é ainda mais baixa, cerca de 20%, sendo os restantes 80% relacionados ao estilo de vida. “A contribuição da genética, como salientou um médico da Mayo Clinic, é muito menor do que se pensa.”
Esta é a parte que a maior parte das pessoas ignora. Pois é muito mais fácil acreditar que a saúde não depende de nós do que encarar uma verdade mais desconfortável. A diferença entre como envelhecemos e como poderíamos envelhecer está, na maioria dos casos, fortemente ligada a comportamentos.
O comportamento mais relevante não é o exercício em si, mas a psicologia que o fundamenta.
Por que “querer ter uma melhor aparência” é uma má estratégia a longo prazo
A maior parte das pessoas que começa a praticar desporto é motivada pela aparência. Não se trata de uma crítica, mas de uma observação fiel do que a cultura do fitness promove e do que a maioria de nós acaba por aceitar: o “antes/depois”, a perda de peso, os braços musculosos no verão.
O problema não está no objetivo em si. O problema é a natureza efémera desse tipo de motivação. Uma revisão sistemática das investigações sobre exercício físico e a teoria da autodeterminação, publicada no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, revelou uma tendência clara em dezenas de estudos.
A motivação intrínseca, ou seja, aquela que surge de um prazer genuíno, de um significado pessoal atribuído à atividade física e do sentimento de que esta reflete a nossa identidade, é um fator preditivo muito mais relevantе para a adesão a longo prazo a uma atividade física do que a motivação extrínseca, como os objetivos relacionados com a aparência ou a pressão social. A motivação ligada à aparência pode facilitar o início, mas raramente sustenta a prática ao longo do tempo.
E aqui, a matemática tem uma importância fundamental.
Uma pessoa que pratica atividade física regularmente durante 35 anos porque realmente aprecia essa prática terá, aos 70 anos, um estado físico radicalmente diferente daquele que alguém que seguiu treinos intensivos nas suas décadas de 30 e 40, se esgotou, abandonou e depois recomeçou várias vezes. Não é uma questão de ter mais força de vontade, mas de que, desde o início, os objetivos eram diferentes.
Estudos sobre motivação intrínseca também revelaram um ponto importante: quando a prática de exercício físico é principalmente motivada pelo que os psicólogos chamam de motivação “introjetada”, ou seja, culpa, vergonha ou pressão externa, a atividade física pode ter um custo para a saúde psicológica.
É possível manter o corpo em forma e, ao mesmo tempo, sabotar a saúde mental. As pessoas que permanecem ativas até uma idade avançada costumam evitar esse tipo de cilada. Encontra-se uma atividade que não é encarada como punição.
Uma mudança silenciosa

Com o tempo, as pessoas que mantêm uma boa qualidade de vida aos 60 ou 70 anos deixam de se exercitar para se verem ao espelho. Muitas delas seriam até incapazes de precisar quando isso ocorreu.
Apenas perceberam que uma caminhada matinal as ajudava a ter um dia mais pleno. Que as manhãs em que não faziam isso, os momentos passados com os entes queridos eram mais breves.
Que nadar, praticar ioga ou andar de bicicleta eram os momentos da semana em que se sentiam mais autênticas, em vez de tentarem ser alguém que não são.
Essa transição de ver o corpo como um projeto para ver o movimento como identidade é corroborada pelas investigações sobre a adesão a longo prazo na atividade física.
Aqueles que mantêm essa adesão não são mais disciplinados. Apenas redefiniram o que significa mover-se. O movimento deixou de ser um meio para alcançar um objetivo e tornou-se uma parte integrante desse objetivo.
Como se mantém a resiliência?
Um estudo sobre atividade física em mulheres acima de 60 anos demonstrou que uma prática regular e moderada promovia maior autonomia e melhor capacidade funcional no dia a dia, sustentando a independência e fortalecendo os laços sociais.
Um resultado modesto. Sem promessas de músculos definidos aos 65 anos. Apenas a possibilidade de continuar a fazer o que traz significado à vida: mover-se sem auxílio, manter relações sociais, acordar num corpo funcional.
Esse objetivo é crucial. Pois quando a meta se transforma em autonomia funcional em vez de sucesso estético, a nossa relação com o esforço muda. A autonomia funcional é intrinsecamente motivante, ao contrário de medidas de roupas.
À medida que envelhecemos, o foco muda: já não é apenas uma questão de aparência. Trata-se também de conseguir carregar as compras, brincar com os netos, subir e descer escadas sem pensar, viajar sem restrições de mobilidade.
Aqueles que perceberam a importância deste ajuste e adaptaram o seu corpo em conformidade são os que continuam em forma aos 60/70 anos.
Nunca foi uma questão de disciplina para quem se mantém ativo aos 60/70 anos

A narrativa envolvendo pessoas idosas em boa forma física frequentemente gira em torno da disciplina e do sacrifício. O acordar às 5 da manhã. A recusa em saborear uma sobremesa. Uma vontade inflexível.
Esta história não é totalmente falsa. Contudo, é incompleta, o que pode dar a impressão de que a meta é menos alcançável do que realmente é.
Pois a disciplina, para a maioria das pessoas, não é um recurso infinito. Ela se esgota. Oscila e não resiste ao luto, à doença, ou ao cansaço acumulado ao longo de uma vida complexa. O que prevalece é o significado. O que perdura é essa sensação profunda de que mover-se é manter-se ancorado numa vida da qual não se quer afastar.
Esse homem de 68 anos, durante a sua caminhada matinal, não se extenua. Ele decidiu, entre os 40 e 50 anos, que o seu corpo foi feito para ser habitado, e não apenas para ser contemplado. E estruturou a sua relação com o movimento em função dessa decisão. Tudo o que se seguiu tornou-se mais fácil, não devido a uma maior disciplina, mas porque ele parou de lutar contra o que fazia naturalmente.
Esse é o padrão. Acessível à maioria. Na realidade, a genética não é, de fato, um fator determinante.




