É muitas vezes esquecemos como certas fases da vida deixam impressões indeléveis. Os anos podem passar, mas algumas sensações permanecem intocáveis. Às vezes, um pequeno detalhe é o suficiente para trazer de volta um universo inteiro. Uma melodia, um cheiro ou mesmo um modo de pensar podem transportar-nos para aquele tempo especial, que parece tão distante e, pela sua simplicidade aparente, tão rico em aprendizagens.
Fazer um mergulho nas décadas de oitenta é como redescobrir uma porta que não abrimos há muito. À medida que a exploramos, fica claro que crescer nesse contexto não se limita a acumular recordações, mas envolve uma forma de ser muito distinta.
Com alguma reflexão, percebemos que os anos 80 não influenciaram apenas os nossos jogos ou hábitos culturais; contribuíram para moldar o que somos hoje. Imprimiram-se nos nossos referenciais, nos nossos reflexos e nessa forma de resistência interna que muitos desenvolveram, frequentemente sem consciência disso.
1. Livros, escola e os primeiros computadores

Crescendo nos anos 80, a pesquisa de livros era feita através de um catálogo antigo, com fichas. Quando pegávamos um livro emprestado, os bibliotecários retiravam uma ficha da capa, anotavam a data de devolução e guardavam-na.
Redigíamos relatórios à mão e, em seguida, usávamos máquinas de escrever. Os professores ainda trabalhavam com quadros negros, e um dos piores sons era o das unhas arranhando a superfície do quadro.
Um dos dias mais emocionantes da minha infância foi quando a minha família adquiriu o seu primeiro computador, logo após o meu ingresso no 6.º ano. O enorme aparelho, quase do tamanho de uma pequena mesa, se destacava na sala. Recordo-me do ecrã escuro e do cursor verde que piscava, quase como se estivesse a convidar-nos a desvendar os seus segredos.
A cada noite, depois dos deveres, sentava-me em frente a ele para explorar programas, tentar escrever os meus primeiros textos e jogar jogos simples, maravilhado por aquela janela aberta a um mundo novo.
Sabíamos que aqueles computadores eram especiais, mas, na verdade, não tínhamos noção do que poderiam realmente oferecer, além de jogarmos Space Invaders. Não tenho a certeza que os professores também o soubessem.
2. Liberdade e ausência de proteções
As crianças dos anos 80 andavam sem capacete.
Não usávamos joelheiras ou cotoveleiras, e não havia assentos elevados. Se esquecêssemos o cinto de segurança no carro, não corríamos o risco de sermos repreendidos.
Por vezes, quando regressei tarde a casa, os meus pais deixavam-me dormir no banco de trás, coberto por mantas.
3. Uma vida diária sem modernidade

Quem cresceu nos anos 80 recorda o famoso sinal de ocupado ao tentar fazer uma chamada.
Não havia chamada em espera durante vários anos. Se ligássemos para alguém e a linha estivesse ocupada, ouvíamos apenas um toque. Os adolescentes eram frequentemente repreendidos por passarem muito tempo ao telefone, receando que a família perdesse uma chamada importante.
Celebrávamo-nos a chegada do telefone sem fio. As lojas estavam fechadas ao domingo. Andávamos a pé ou de autocarro. O leiteiro ainda fazia entregas. Mamãe só fazia as compras uma vez por semana e, exceto pelo leite e pão, tínhamos de arranjar o que houvesse em casa.
Era comum enviar os filhos a comprar leite ou pão. O leite custava cerca de 4 a 5 francos por garrafa quando eu tinha dez anos, e com 50 cêntimos ainda podíamos comprar um punhado de doces a um cêntimo cada.
O chocolate e os doces eram guloseimas ocasionais. Não havia fast-food ou comida para levar. Tudo era pago em dinheiro. Os cartões de crédito eram raros.
As mães guardavam artigos caros e pagavam-nos aos poucos, ao longo de várias semanas. Nos supermercados, os produtos não eram escaneados, uma vez que não existiam códigos de barras. O operador registava manualmente o preço indicado na etiqueta.
4. Um mundo mais simples e aparentemente seguro
Aos que cresceram nos anos 80, ainda era necessário baixar manualmente as janelas do carro.
Nessa época, as pessoas não tinham alarmes em casa ou nos carros; neste último, usava-se o bom e velho antivírus de volante. Em algumas cidades, podíamos sair de casa com a porta de entrada destrancada.
No geral, o mundo ainda nos parecia seguro, embora essa segurança fosse, em parte, uma ilusão. Se queríamos visitar um amigo, não era necessário avisar: bastava aparecer e esperar encontrá-lo.
Movimentávamo-nos ao redor do bairro de bicicleta. Para comunicar com familiares ou amigos no estrangeiro, era preciso escrever cartas, pois as chamadas eram dispendiosas.
5. Cartas, espera e liberdade da infância

As crianças que cresceram nos anos 80 tinham correspondentes com quem trocavam cartas durante anos.
Desabafávamos no papel e às vezes levava sete dias para que uma carta chegasse ao outro canto do mundo. Depois, aguardávamos semanas para receber uma resposta. Aprendemos a arte da paciência ao ir diariamente, após a escola, verificar uma caixa de correio frequentemente vazia.
Tínhamos diários escondidos debaixo do colchão, convencidos de que era o melhor esconderijo, embora soubéssemos que não era assim.
As férias escolares pareciam durar uma eternidade. Durante esses períodos, os meus pais deixavam-me sozinha em casa o dia todo. Crianças entregues a si mesmas eram a norma.
Os mais velhos muitas vezes cuidavam dos mais novos. Os nossos pais não se preocupavam se iríamos nos aborrecer e não viam a necessidade de organizar constantemente atividades ou encontros.
Ainda com uma mãe ao lar, passávamos longos dias a brincar sossegadamente em casa. Não havia correr todos os dias às 9h para participar em atividades organizadas como parques de diversões, cinemas, encontros com amigos, clubes para crianças ou desportos.
6. Música, cassetes e recordações
Os adolescentes dos anos 80 em Portugal possuíam frequentemente um Walkman, aquele pequeno gravador de cassetes que permitia ouvir as canções favoritas em qualquer lugar. Se uma música nos agradava e não tínhamos a cassete original, deixávamos o rádio ligado, na esperança de gravá-la numa cassete virgem.
Depois, voltávamos a ouvir a canção lentamente, de segundos em segundos, para anotar as letras, frequentemente de forma aproximada. Com os amigos, cantávamos todos juntos versões ligeiramente diferentes das mesmas canções.
Assistíamos ao Top 50 para saber quais eram os grandes sucessos. Algumas músicas consideradas “vulgars” ou provocantes tinham a sua difusão limitada na televisão, e os clipes eram, por vezes, censurados. Para ouvir as canções repetidamente, era muitas vezes necessário recorrer ao rádio ou gravar em cassete a partir das emissões musicais.
Passávamos tardes inteiras deitados nos nossos quartos, escutando as nossas músicas favoritas em repetição. Era necessário rebobinar e avançar as cassetes para encontrar a canção certa, e fazer isso com sucesso era uma pequena vitória. Naquela época, os discos de vinil ainda eram bastante presentes nas coleções dos nossos pais.
Não havia telemóveis nem câmaras digitais. Usávamos Polaroids ou câmaras de filme com 24 ou 36 exposições.
Desenvolver os filmes era dispendioso, o que nos fazia escolher cada foto cuidadosamente, sem saber exatamente como ficariam durante algumas semanas. O pior era abrir a câmara por erro sem rebobinar o filme, tornando-a inutilizável.
7. Uma época sem o medo de perder algo

Aquelas crianças dos anos 80 não tinham ideia do que era a **fomo** (medo de perder algo).
Não sabíamos o que os nossos amigos faziam nos fins-de-semana e se estávamos a perder algo importante. Se uma informação não era divulgada na televisão ou nos jornais, evaporava-se completamente.
Fascinávamo-nos com as histórias em quadrinhos publicadas em jornais e revistas para jovens. Colecionávamos também cómics como **Astérix**, **Tintin**, **Lucky Luke** ou **Spirou e Fantasio**.
A palavra “guerra” podia provocar-nos alguma preocupação, pois os adultos falavam da Guerra Fria como uma ameaça constante. Confiávamos nas informações dadas pelos jornais e pela televisão, sem um meio seguro para verificar a veracidade.
A leitura ocupava um espaço significativo: muitos de nós deliciavam-se com séries como **Os Seis Companheiros**, **Alice e Martin** ou **Fantômette**.
As séries televisivas eram parte do nosso cotidiano: **Chips**, **Maguy**, **Marc e Sophie**, **Salve-se Quem Puder**, **As Investigações do Comissário Maigret** ou ainda **Clube Dorothée** para desenhos animados e séries infantis.
A música era constante: **Jean-Jacques Goldman**, **Vanessa Paradis**, **Indochine**, **Etienne Daho**, assim como estrelas internacionais como **Madonna**, **Michael Jackson** ou **Cyndi Lauper**. As rádios e cassetes eram os nossos principais meios para ouvir as canções preferidas.
No que toca à moda, sonhávamos com sapatilhas tipo **Reebok**, **xuxas**, saias bufantes e t-shirts coloridas ou com padrões fluorescentes. Os trajes eram frequentemente audaciosos, e por vezes, podiam pegar fogo se se aproximassem demasiado de aquecedores ou lareiras. O ridículo não importava: pelo contrário, era muitas vezes valorizado.
Última reflexão

Crescer nos anos 80 em Portugal foi uma experiência única, caracterizada por descobertas lentas e prazeres simples.
Entre cassetes a serem gravadas, computadores a serem explorados, férias passadas a brincar livremente e cartas enviadas a correspondentes, cada dia moldava a nossa paciência, imaginação e autonomia.
Essa época, sem telemóveis e distrações digitais constantes, deixou uma marca indelével na nossa forma de pensar, brincar e criar memórias.
Ainda hoje, ao revisitarmos essas memórias, revive-se um mundo onde tudo parecia possível, onde cada pequena descoberta tinha a sua mágica, e onde crescer tinha um ritmo ao mesmo tempo tranquilo e intenso, que já não se encontra.




