A geração que mantenha a família unida e que não pedia quase nada é agora criticada por valores que, surpreendentemente, a psicologia atual começa a reabilitar. Cresce em nós a ideia de que cada nova geração avança em desacordo com a anterior. O sentido do dever, o sacrifício e a discrição emocional são frequentemente encarados como valores ultrapassados, incompatíveis com a nossa era centrada no bem-estar pessoal.
Contudo, essa avaliação merece um olhar mais atento. Por trás de tais valores “antigos” encontram-se formas de enfrentar a adversidade que permitiram a milhões de pessoas superar períodos muito mais difíceis do que os que vivemos atualmente.
Na minha família, nunca se ouviu muito a respeito de esforços ou coragem. Trabalhávamos, simplesmente. Os meus avós criaram os filhos com escassos recursos, sem se queixar ou esperar reconhecimento. Em contrapartida, observo muitos da minha geração profundamente destabilizados por contrariedades quotidianas, por vezes tão insignificantes.
Este contraste não visa opor gerações, mas suscitar uma reflexão: **confundimos conforto com solidez interna**? Uma geração que enfrentou restrições, reconstruções e incertezas económicas é hoje muitas vezes considerada “desconectada”, quando, na verdade, desenvolveu uma notável capacidade de adaptação.
Ouvimos frequentemente que os nossos pais e avós sacrificaram demais, suportando em silencio. O seu apego ao dever e à perseverança parece chocar-se com uma cultura moderna que valoriza limites pessoais e o crescimento individual.
Entretanto, a psicologia contemporânea evidencia cada vez mais que essas qualidades —responsabilidade, resistência perante dificuldades e comprometimento com os outros— são **fundamentos essenciais da saúde mental**. O que consideramos ultrapassado poderá ser, na verdade, o que mais carecemos atualmente.
Uma resiliência que temos vindo a perder

Quando os meus avós contavam histórias sobre a guerra, nunca se detinham nas suas próprias dores.
Focavam-se nos vizinhos que partilhavam as suas rações, na solidariedade da comunidade e na capacidade de encontrar humor mesmo nos momentos mais sombrios. Só anos depois compreendi que me estavam a ensinar uma lição poderosa sobre **resiliência**.
A psicologia moderna designa isso como **”crescimento pós-traumático.”** Pesquisas da [Universidade da Carolina do Norte](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12798280/) mostram que as pessoas que encaram as dificuldades como oportunidades de crescimento sofrem menos de depressão e ansiedade do que aquelas que se vêem como vítimas das circunstâncias.
Pensem em como essa geração superou as provações. Perdeu o emprego? Encontrou outro, mesmo que implicasse um salário mais baixo. O casamento enfrentava dificuldades? Persistiu. A vida a surpreendia? Adaptou-se.
Agora, contrastemos isso com o presente, em que somos encorajados a identificar cada trauma, a analisar cada afronta e a proteger-nos de qualquer desconforto. Claro que expressar emoções é saudável. Contudo, existe uma diferença entre **expressá-las** e **sustentá-las**.
Estudos publicados no [Journal of Personality and Social Psychology](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6188704/) revelaram que pessoas que praticam a **”reavaliação cognitiva”**, isto é, reformular situações negativas sob uma luz mais positiva, apresentam uma melhor regulação emocional e uma maior satisfação na vida.
Isso lembra-vos alguma coisa? É exatamente o que essa geração fazia, de forma instintiva.
Por que manter a calma não é necessariamente prejudicial
Imagino o que pensam. Não será doentio reprimir emoções? A terapia moderna não nos encoraja a expressar tudo o que sentimos?
Pois bem, sim e não.
Há uma diferença entre **suprimir** e **regular** as emoções. A geração de que falamos não era emocionalmente imatura.
Eles compreenderam simplesmente algo que nós, por vezes, esquecemos: nem todos os sentimentos precisam ser expressos imediatamente.
Pesquisas demonstram que a capacidade de **dominar e regular emoções** está ligada a uma melhor qualidade nas relações pessoais e profissionais. Por exemplo, um [estudo sobre cerca de 250 casais](https://www.nature.com/articles/s41598-025-08245-2) americanos mostrou que a forma como os parceiros gerem as suas emoções, através de estratégias adaptativas, está fortemente associada ao seu bem-estar geral e satisfação relacional. Isto sugere que uma regulação emocional eficaz fomenta relações mais estáveis e positivas.
Chamamos-lhe **inteligência emocional**, mas os nossos avós falavam apenas de **autocontrole**.
O meu pai trabalhou numa fábrica onde as tensões eram palpáveis. Negociações sindicais, despedimentos, conflitos laborais: tudo o que passou.
Mas ensinou-me que perder a calma raramente resolvia as coisas. “Às vezes”, dizia ele, “a melhor coisa a fazer é calar-se até ter pensado bem.”
A psicologia moderna confirma isso. Estudos sobre [regulação emocional](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3164848/) mostram que a capacidade de fazer uma pausa entre o estímulo e a resposta está ligada a melhores tomadas de decisões, relações mais robustas e níveis de stress reduzidos.
O poder de priorizar os outros, uma força frequentemente subestimada

Eis uma ideia que pode parecer radical hoje: concentrar-nos constantemente nas nossas próprias necessidades pode, na verdade, levar a mais infelicidade.
Esta geração tinha um verdadeiro **sentido de serviço**. Engajava-se em associações, ajudava os vizinhos e colocava as necessidades da família antes dos desejos pessoais. Hoje, por vezes, fala-se em **códigopendência**. Contudo, a psicologia sugere que podemos estar equivocados.
Estudos da [iniciativa Science of Philanthropy na Universidade de Michigan](https://giving.umich.edu/um/w/science-of-philanthropy) demonstraram que os indivíduos que ajudam regularmente os outros vivem mais e experienciam uma maior satisfação na vida. O ato de doar ativa os mesmos centros de recompensa no cérebro que receber. Os cientistas chamam a isso de **”euforia do benfeitor.”**
A minha mãe trabalhou no comércio durante muitos anos. Sabia o nome de cada cliente regular, o nome dos seus filhos e as suas preocupações. Nunca teve um cargo prestigiado, mas tornou-se uma verdadeira figura de confiança, sempre disponível para os outros. À sua reforma, muitos clientes estiveram presentes na sua festa de despedida.
Fazia-se passar em último lugar? Talvez. Mas também possuía um sentido do dever e um vínculo com a comunidade que muitos de nós buscamos hoje através da terapia e dos livros de autoajuda.
Paixão ou sentido do dever: uma oposição enganosa
«Segue a tua paixão» pode ser um dos piores conselhos que já recebemos.
Essa geração não procurava a paixão. Ela buscava **estabilidade**, **responsabilidades** e **contribuição**. Aceitava empregos necessários, em vez de perceber o trabalho como uma expressão de si. E, surpreendentemente, talvez fosse mais feliz.
Pesquisas realizadas em [Stanford e Yale](https://news.stanford.edu/stories/2018/06/find-passion-may-bad-advice) sugerem que a mentalidade de «seguir a paixão» provoca, na verdade, uma maior insatisfação profissional. Porquê? Porque gera expectativas irreais e torna os indivíduos menos resilientes face às dificuldades profissionais.
O **”estado de espírito do dever”**, por sua vez, está correlacionado com uma maior satisfação na vida. As pessoas que veem o trabalho como uma contribuição, em vez de uma expressão de si, tendem a estar mais comprometidas com o que fazem.
Quando o meu pai se comprometeu com o sindicato da fábrica, não o fez por paixão pelas negociações coletivas. Fez-o porque alguém tinha de defender os direitos dos trabalhadores. Esse sentido de dever fornecer-lhe um propósito que o acompanhou durante anos.
Laços fortes sem comunicação constante

Esta geração construiu amizades duradouras sem se enviarem mensagens todos os dias. Edificou casamentos sólidos sem a necessidade de expressar cada sentimento constantemente. Criou famílias unidas sem sobreproteger os filhos.
Como o conseguiram?
Elas compreenderam algo que nós perdemos na era da comunicação constante: **a presença é mais importante que a frequência.**
Estudos sobre a [qualidade das relações](https://www.mdpi.com/1660-4601/22/9/1411) mostram de forma consistente que interações profundas e significativas são mais benéficas do que contactos diários superficiais. Um jantar semanal realmente partilhado vale mais do que trocas diárias de mensagens feitas distraidamente.
Já mencionei que a perda de um ente querido, há alguns anos, me levou a reconsiderar o que realmente importa.
O que mais me impressionou foi o número de pessoas presentes, muitas com quem nunca havia falado há meses ou até anos, mas que o consideravam um verdadeiro amigo. Essas relações eram baseadas em experiências partilhadas e um respeito mútuo, e não em contactos frequentes.
O que ainda podemos aprender com esta geração

Não pretendo idealizar o passado nem ignorar os **progressos** que fizemos em matéria de **sensibilização à saúde mental**.
Esta geração tinha as suas limitações: repressão emocional excessiva, papéis de género restritivas e estigmatização de problemas psicológicos que causaram verdadeiras dores.
Contudo, na nossa expetativa de corrigir esses excessos, talvez tenhamos deixado de lado uma **sabedoria preciosa**: a capacidade de **enfrentar as provações sem perder a esperança** e a satisfação pelo dever cumprido.
A força da comunidade perante o individualismo. A paz que surge da **aceitação do que não podemos mudar** enquanto agimos sobre o que depende de nós.
A psicologia converge hoje para o que essa geração sabia instintivamente: a **resiliência, o sentido do serviço, a regulação emocional** e os **vínculos** são elementos essenciais do bem-estar. Estas não são valores ultrapassados, mas **valores intemporais**.
Em vez de rejeitarmos a sua abordagem como arcaica, talvez devêssemos questionar o que podemos aprender com ela.
Porque uma geração que atravessou crises económicas e guerras, que construiu comunidades estáveis e educou famílias com um único rendimento, sabia, provavelmente, algo sobre a vida que merece ser preservado.
A questão não é saber se os seus valores ou os nossos são melhores. Trata-se de entender como associar a sabedoria da resiliência à clareza da consciência emocional.
Como conciliar o dever com o crescimento pessoal? Como servir os outros sem nos perdermos a nós mesmos?
Este é o tipo de conversa que devemos manter. E creio que esta geração se sentiria orgulhosa de ver-nos engajados nela.




