Pensamento do dia de Paul Tillich: «O sentimento de solidão exprime a dor de estar só; a solidão escolhida, a glória de estar sozinho»



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A solitude escolhida não está relacionada ao sentimento de abandono. Podemos estar sozinhos sem nos sentir isolados, assim como podemos sentir uma profunda solidão mesmo cercados de gente. O que realmente importa é a forma como vivemos o silêncio ao nosso redor. Para alguns, a presença de outros é um escape para pensamentos avassaladores. Para outros, esses momentos de solidão trazem uma sensação de liberdade e descanso. É aqui que reside a distinção entre o isolamento e a **solidão escolhida**.

« A diferença entre a solidão escolhida e o isolamento não se resume à ausência de companhia, mas sim à nossa paz interior. »

Essa ideia pode parecer evidente. Uma frase que facilmente se transforma numa citação filosófica, para ser compartilhada em um domingo ensolarado e esquecida logo depois. No entanto, por trás delas observa-se uma análise poderosa sobre nossa maneira de existir.

Paul Tillich ajuda-nos a perceber que estar sozinho não é, por si só, nem um sofrimento nem um privilégio

É simplesmente uma condição. O que dá cor a essa condição é a maneira como nos sentimos ao nos confrontarmos com nós mesmos. Um mesmo instante de silêncio pode ser visto como um fardo por alguns, enquanto para outros se transforma numa pausa tranquilizadora.

Assim, não é o número de pessoas ao nosso redor que importa, mas sim a relação que estabelecemos conosco nesse exato momento.

Quando a nossa própria presença se torna insuportável, a solidão se assemelha a um isolamento. No momento em que ela se transforma em paz, **pode muito bem ser** considerada uma solidão escolhida.

Solidão escolhida: uma mesma noite pode ser vivida de formas diferentes

Imagens Pexels e Freepik

Todos nós já passamos por isso. Um domingo à noite, em casa, sem mensagens ou chamadas, sem planos para o futuro, pode trazer uma sensação de paz. Mas, em um estado de espírito diferente, a mesma noite pode se tornar pesada.

Curiosamente, nada mudou ao nosso redor. A casa continua a mesma, os objetos ocupam seus lugares habituais, e a luz entra pelas janelas da mesma maneira. O que mudou não é o ambiente, mas sim **a nossa abordagem desse instante**.

Aqui, a reflexão de Tillich torna-se clara. Estar sozinho refere-se simplesmente ao fato de não haver companhia. Contudo, essa condição pode ser percepcionada como uma privação ou, ao contrário, um momento de solidão escolhida.

Compreender a diferença entre estar sozinho e sentir-se sozinho ajuda-nos a perceber por que algumas pessoas valorizam os momentos de tranquilidade, enquanto outras tendem a evitá-los.

Quando estar sozinho se transforma na sensação de que algo falta

A solidão dolorosa tem uma característica específica: leva-nos repetidamente ao que não está presente.

Alguém nos faz falta. Uma conversa que desejávamos ter nunca ocorreu. Um relacionamento almejado se mostra ausente. Uma vida que imaginávamos diferente está a espera de ser concretizada.

Nesses momentos, deixamos de viver o que está presente. Medimos inconscientemente a nossa existência em comparação com o que gostaríamos de viver.

Por isso mesmo, podemos sentir-nos extremamente sozinhos, mesmo tendo um parceiro, amigos e familiares ao nosso redor. A presença física dos outros não garante que nos sintamos compreendidos ou realmente conectados.

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A solidão escolhida não se preocupa com o que falta

A solidão escolhida opera de outra forma. Quando estamos **bem connosco mesmos**, deixamos de comparar o momento presente a outras situações passadas.

Um livro aguarda pacientemente sobre a mesa. A água ferve na chaleira. Uma ideia surge sem ser provocada. O silêncio não é mais um instante que devemos preencher a todo custo.

Simplesmente estamos presentes.

Esse é o motivo pelo qual algumas pessoas podem prosperar na solidão sem sentirem-se sozinhas. Elas não veem a ausência de companhia como a prova de que falta algo em suas vidas.

A solidão escolhida, então, torna-se um momento para redescobrir os nossos pensamentos, o nosso ritmo, a nossa presença e a nossa reflexão.

Estar rodeado não é sempre suficiente para dissipar a solidão

Assim, chegamos a uma conclusão importante: nossas noites mais desafiadoras e nossos momentos de tranquilidade podem coincidir nas mesmas circunstâncias.

Portanto, não é apenas o nosso ambiente que determina o que sentimos.

Estar ao lado de pessoas não garante a eliminação do sentimento de solidão. Por outro lado, estar sozinho não condena alguém a sofrer de isolamento.

Como reafirma esta reflexão sobre a diferença entre solidão e isolamento, é possível estar sozinho e estar perfeitamente bem consigo mesmo, assim como podemos estar rodeados e ainda assim sentir solidão.

A nossa época deixa pouco espaço ao verdadeiro silêncio

Talvez a dificuldade resida no fato de nunca estarmos verdadeiramente sozinhos.

Uma mensagem chega. Uma notificação aparece. Um vídeo nos leva a outro. Uma nova aba se abre. Às vezes, apenas alguns minutos de silêncio são suficientes para que a mão busque quase automaticamente o telefone.

Dessa forma, permanecemos em uma zona estranha, nunca completamente sozinhos connosco, mas também não em conexão profunda com ninguém.

A conexão constante pode dar a ilusão de uma presença contínua, mas nem sempre oferece a qualidade relacional que buscamos. Este é, de fato, um dos paradoxos mencionados nesse artigo sobre a dificuldade de expressar o que realmente importa para nós.

Ao tentar preencher cada instante disponível, corremos o risco de não deixar espaço suficiente para descobrir o que a solidão escolhida pode nos oferecer.

Aprender a apreciar a própria companhia para abraçar a solidão escolhida

A solidão escolhida, portanto, não é apenas a ausência do sentimento de solidão. Ela representa uma capacidade que se constrói.

Trata-se de **aprender a estar conosco** sem o impulso automático de preencher o silêncio com distrações, conversas ou telas.

Essa habilidade não significa que amamos menos os outros ou que desejamos viver isolados. Na verdade, saber estar sozinho sem sentir-se isolado pode nos ajudar a clarear o que realmente esperamos das nossas relações.

Provavelmente conhecemos ambas as experiências. Em alguns dias, estar sozinho parece um vazio. Em outros, a mesma situação parece uma liberdade. A verdadeira questão não é se somos pessoas “solitárias” ou “sociáveis”, mas sim observar a relação que mantemos conosco quando tudo ao nosso redor se dissipa.

Na próxima vez que surgir uma noite tranquila, talvez valha a pena não preencher cada minuto. Deixe o telefone de lado por alguns instantes. Ouça o que aparece quando nada ocupa o seu tempo.

E pergunte a si mesmo uma questão simples. Estou a sofrer com a solidão ou estou a descobrir a solidão escolhida?

Este artigo é oferecido a título informativo e reflexivo. Não constitui, de forma alguma, um parecer médico, psicológico ou profissional. As ideias aqui apresentadas baseiam-se em investigações publicadas e observações editoriais, não resultando de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.

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