Aqueles que cresceram com pouco afeto muitas vezes vivenciam o mesmo luto na idade adulta: aquele do que sempre lhes faltou sem que o soubessem

As pessoas que cresceram com pouca afectividade muitas vezes não estão cientes do que lhes faltou. Certos gestos parecem normais apenas quando se testemunham em outras famílias. Essa percepção pode surgir de forma repentina, muitos anos depois, revelando a ausência que se carrega. Um pai, por exemplo, ao ver o seu filho a chorar por algo insignificante, abaixa-se para ficar ao nível dele, coloca as mãos nos seus ombros e pergunta, com paciência, o que se passa.

Um choque inesperado

Nada de grave acontece. Um pai apenas escuta e conforta o seu filho. Contudo, algo se **fissura interiormente**.

Muitos adultos relatam experiências semelhantes. Em diferentes contextos, seja na cozinha, no carro ou numa sala de espera, observam um gesto de ternura simples. Surge então uma tristeza inesperada, frequentemente acompanhada de um sentimento complexo: a inveja de ver uma criança a receber o que lhes faltou.

Um luto invisível

mulher sozinha à janela

A psicóloga Jonice Webb refere-se à ” negligência emocional infantil ” para descrever uma realidade frequentemente difícil de identificar: pais que satisfazem as necessidades materiais dos filhos, mas que prestam pouca atenção às suas emoções.

Não se trata necessariamente de maus-tratos ou crueldade; o problema reside no que **não aconteceu**. Emoções não escutadas, preocupações raramente acolhidas e palavras de conforto ausentes. Essa ausência muitas vezes permanece invisível por anos, dificultando a recordação de algo que nunca foi experienciado.

Assim, muitos adultos podem sentir que não tiveram uma infância especialmente difícil. Há comida, abrigo, educação, algumas férias e memórias felizes nas fotografias. No entanto, para aqueles que cresceram com pouca afectividade, a proximidade pode parecer estranha — quase como uma língua que se entende, mas que não se sabe falar.

Os especialistas em luto falam do conceito de **luto não reconhecido**, conforme teorizado por Kenneth Doka. Trata-se de um sofrimento que nem sempre recebe o reconhecimento social que é dado a formas de luto mais visíveis.

Essa ideia pode iluminar algumas feridas da infância. Não há cerimónia para chorar a escuta, a ternura ou a segurança que se gostava de ter recebido.

A razão da tardia conscientização

Existem vários fatores que podem explicar porque essa conscientização pode surgir por volta dos 40 anos.

Primeiro, é necessário um ponto de comparação. Na infância, a família é nossa principal referência. Apenas ao conhecer outras casas e pais é que se percebe que algumas coisas poderiam ter funcionado de forma diferente.

Depois, é preciso tempo. A juventude e os primeiros anos de vida adulta são frequentemente ocupados pela educação, trabalho e pela construção da vida. Algumas questões emergem quando a vida quotidiana se torna mais estável.

Por fim, um evento concreto pode servir de catalisador. Ter conhecimento intelectual da importância do carinho parental não tem o mesmo impacto que ver um pai escutando calmamente o seu filho. Uma cena de apenas alguns segundos pode trazer à luz uma ausência que perdura há décadas.

Por essa razão, muitos que faltaram de afecto na infância só o reconhecem verdadeiramente na fase adulta.

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O erro da minimização da experiência

homem pensativo

Uma reação comum é **comparar a infância** com situações muito mais graves. Como outros sofreram mais, por que se queixar?

Contudo, comparar sofrimento não o elimina. Essa comparação pode levar a uma minimização contínua das próprias emoções, especialmente quando se aprendeu desde cedo a não dar muita importância a elas.

Por outro lado, também existe o risco de fazer da dor o centro da identidade. Cada dificuldade nas relações pode se tornar uma confirmação do passado, sem permitir um progresso real.

Reconhecer que se cresceu num ambiente de apoio emocional limitado pode ser esclarecedor, mas este entendimento é apenas o primeiro passo.

Caminhos para a cura

Colocar palavras precisas naquilo que faltou pode alterar a forma como se escuta a própria história. Webb sugere um questionário para explorar a negligência emocional na infância.

Reconhecer ausências concretas pode ser mais útil do que resumir toda a infância numa única frase. “Ninguém me perguntava o que me fazia medo” é muitas vezes mais clarificador do que “a minha infância faltava afecto”.

Mesmo a inveja pode fornecer informações cruciais. Quando um gesto afectuoso entre um pai e uma criança evoca emoções intensas, é importante observar o que nos toca. Isso pode indicar o que desejamos receber e o que **queremos agora construir** nas nossas relações.

A prática é o passo seguinte. Pesquisas sobre vinculação falam do **vínculo seguro adquirido**. Aqueles que vivenciaram uma escassez emocional na infância podem desenvolver relações mais seguras na vida adulta através de novas experiências, reflexão e, por vezes, apoio terapêutico.

A conscientização é significativa, mas sozinha não é suficiente. Muitas vezes, as novas experiências repetidas é que permitem modificar velhos reflexos.

Não é necessário obter um reconhecimento perfeito dos pais sobre o passado. Aqueles que nunca perceberam determinadas ausências podem ter dificuldade em compreendê-las décadas mais tarde.

Construindo a partir do que faltou

Não recuperamos a infância que desejávamos ter. Algumas experiências pertencem irremediavelmente ao passado.

Contudo, compreender que crescendo com pouca afectividade pode oferecer uma nova perspectiva. Essa tristeza tardia pode revelar a atenção, a escuta e a proximidade que desejamos oferecer e receber.

Podemos aprender a escutar um pouco mais, a não minimizar imediatamente uma emoção e a permanecer presentes quando alguém busca as suas palavras.

E se um dia essa percepção surgir na cozinha ou na sala de outra família, talvez seja preciso afastar-se por momentos.

Depois, retornar.

Este artigo destina-se a fins informativos e reflexivos. Não constitui de forma alguma um parecer médico, psicológico ou profissional. As ideias apresentadas baseiam-se em investigações publicadas e em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para situações específicas, consulte um profissional qualificado.

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