A psicologia revela o segredo daqueles que envelhecem bem: eles sabem se desprender do que já não lhes serve, sem renunciar ao que ainda é importante


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Com o passar dos anos, certas rotinas tornam-se mais difíceis de manter, mas isso não significa que devamos desistir do que nos inspira. Aqueles que envelhecem bem parecem encontrar novas maneiras de continuar a fazer o que é importante para eles. Muitas vezes, essas pessoas adaptam as regras em vez de as seguirem rigidamente. A distinção entre aceitar o envelhecimento e envelhecer bem pode residir na capacidade de reorganizar a própria vida em vez de a restringir.

Em uma pequena cidade do sudoeste da França, um homem com pouco mais de setenta anos costumava pedalar várias dezenas de quilómetros por semana. Durante muito tempo, ele saía sozinho, pedalava rapidamente e optava pelas estradas mais exigentes. Porém, com o passar dos anos, o seu corpo começou a dar-lhe sinais.

Ele poderia ter guardado a bicicleta na garagem, mas em vez disso, mudou a sua prática. Agora, prefere percursos mais curtos, evita as subidas mais íngremes e pedala regularmente com amigos. Embora ande mais lentamente do que antes, continua a sair várias vezes por semana.

Assim, não desistiu; apenas alterou as condições para poder continuar.

Talvez seja assim que devemos pensar sobre o envelhecimento: como uma negociação com as mudanças. O envelhecimento é frequentemente associado a uma forma de aceitação, desprendimento e serenidade. Contudo, a psicologia sugere algo mais concreto: saber abandonar certas abordagens sem deixar de lado o que ainda valorizamos.

Por muito tempo, o envelhecimento foi associado ao afastamento

O simbolismo do envelhecimento
Imagens Pexels e Freepik

Em 1961, os sociólogos Elaine Cumming e William Henry publicaram a obra “Aging”, que introduziu uma das primeiras grandes teorias psicossociais sobre o envelhecimento: a teoria do desligamento.

De acordo com essa teoria, envelhecer levaria inevitavelmente à redução das atividades, responsabilidades e interações sociais. A sociedade iria gradualmente afastar-se das pessoas mais velhas, enquanto estas se afastariam voluntariamente de certos papéis. Este processo foi, na época, considerado normal e até benéfico.

Com o tempo, essa perspetiva revelou-se excessivamente simplista. O afastamento social observado em algumas pessoas idosas nem sempre é uma escolha. Problemas de saúde, a perda de pessoas próximas, a reforma e a diminuição das oportunidades de socialização podem, conjuntamente, restringir o círculo social.

A questão permanece bastante atual. Estudos recentes indicam que a solidão pode intensificar-se em certos períodos da vida, especialmente na sequência de lutos e problemas de saúde.

Uma vasta estudo publicado em 2024, que abrangeu mais de 128.000 pessoas em mais de 20 países, revela que a solidão tende a aumentar novamente com o envelhecimento. Os investigadores também identificaram diversos fatores associados a essa solidão, como a situação conjugal e a saúde funcional.

No entanto, a ideia de desligamento deixou marcas na nossa forma de falar sobre o envelhecimento. Expressões como “é preciso desacelerar” ou “você já trabalhou o suficiente” podem parecer benevolentes, mas também podem sugerir que, a partir de certa idade, seria normal entrar em um processo de afastamento gradual.

Por outro lado, aqueles que envelhecem bem parecem seguir um caminho diferente.

Os que envelhecem bem aprendem a escolher melhor

Os psicólogos Paul Baltes e Margret Baltes propuseram uma abordagem muito mais dinâmica para a adaptação ao envelhecimento, através do modelo de seleção, otimização e compensação. Esses três mecanismos ajudam a compreender como uma pessoa pode continuar a perseguir objetivos importantes à medida que as suas capacidades evoluem com a idade. Uma apresentação científica deste modelo.

O princípio é bastante simples: selecionar o que realmente importa, investir mais energia nessas prioridades e, em seguida, encontrar outras maneiras de agir quando certas capacidades diminuem.

Portanto, não se trata de fazer cada vez menos, mas sim de concentrar os recursos nas áreas onde eles são mais valiosos.

O pianista Arthur Rubinstein exemplifica bem essa lógica. Mesmo em idade avançada, ele continuava a atuar em palco. Mas tinha adaptado a sua forma de trabalhar. O seu repertório tornou-se mais restrito, dedicava mais tempo às obras que mantinha e utilizava algumas variações de tempo para manter a impressão de virtuosidade.

Ele não tentava tocar exatamente como fazia aos vinte ou trinta anos. Modificava o seu método para continuar a alcançar o nível que considerava importante.

Esta lógica é igualmente visível na atividade física. Após os 70 anos, manter-se ativo depende frequentemente menos de uma motivação excepcional e mais da capacidade de integrar o movimento no seu estilo de vida.

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A representação do envelhecimento saudável

Um outro elemento importante do quebra-cabeça aparece nos trabalhos dos psicólogos Jochen Brandtstädter e Gerolf Renner.

Em um estudo publicado em 1990 que envolve cerca de 900 pessoas, os investigadores analisaram duas formas de reação quando a realidade se opõe aos nossos planos.

A primeira consiste em manter firmeza. Preservar o objetivo e tentar modificar as circunstâncias para alcançar o resultado desejado.

A segunda baseia-se na flexibilidade. Quando o objetivo se torna irrealista ou demasiado custoso, a pessoa aceita modificá-lo para adaptá-lo à sua nova situação.

Estas duas atitudes podem parecer contraditórias. No entanto, o estudo revelou que ambas estavam associadas, separadamente, a uma maior satisfação na vida e a menos sintomas depressivos.

Em resumo, aqueles que envelhecem bem não são necessariamente os que se agarram desesperadamente às suas antigas rotinas, nem aqueles que abandonam facilmente as suas ambições. Eles parecem capazes de distinguir o que ainda merece os seus esforços daquilo que pode ser transformado.

Esta capacidade de adaptação também se relaciona com uma ideia mais geral. Manter-se realizado à medida que se envelhece pode, por vezes, implicar deixar para trás certas rotinas que já não correspondem à vida que desejamos viver.

Para os que envelhecem bem, envelhecer não significa lutar contra a idade nem aceitar tudo

É talvez aqui que reside o equilíbrio essencial. Envelhecer impõe inevitavelmente mudanças, mas essas mudanças não dictam totalmente como uma pessoa deve viver.

Alguns objetivos merecem ser defendidos. Outros podem ser adaptados, simplificados ou mesmo substituídos. E algumas rotinas que anteriormente pareciam essenciais podem ser abandonadas sem grande perda.

Os que envelhecem bem parecem perceber esta diferença. Não buscam conservar suas vidas exatamente como elas eram antes; ao invés, tentam preservar o que continua a dar sentido a suas vidas.

Envelhecer, assim, não se trata tanto de resistência ou resignação, mas de uma capacidade de reavaliar regularmente as prioridades ao longo do tempo.

Ficar parado não significa necessariamente encontrar a paz

Reflexão sobre o envelhecer

A psicóloga Carol Ryff apresentou um dos modelos mais conhecidos de bem-estar psicológico, que se baseia na aceitação de si, na autonomia, na qualidade das relações, no sentido de propósito e na possibilidade de continuar a evoluir.

Com o avançar da idade, várias destas dimensões tendem a permanecer relativamente estáveis. Contudo, o sentido atribuído à vida e o desenvolvimento pessoal tendem a diminuir mais regularmente. Embora sejam precisamente estas dimensões que nos incentivam a olhar para o futuro e a continuar a descobrir.

Portanto, aqueles que envelhecem bem não procuram apenas a tranquilidade. Geralmente mantêm projetos, interesses ou simplesmente o desejo de progredir em alguma área. Essa ideia reflete as atividades preferidas pelas pessoas que envelhecem bem.

A nossa forma de ver a idade pode contar mais do que imaginamos

Os trabalhos de Becca Levy, da Universidade de Yale, oferecem outra perspectiva. A sua equipa acompanhou 660 pessoas com mais de 50 anos durante vários anos para estudar as suas perceções sobre o envelhecimento.

Os participantes que tinham inicialmente uma perceção mais positiva da idade viveram em média 7,5 anos a mais do que aqueles que mantinham representações mais negativas, levando em conta diversos fatores.

Isso não significa, de forma alguma, que o otimismo seja suficiente para garantir uma vida longa. No entanto, a forma como encaramos os anos futuros pode influenciar os nossos comportamentos e a nossa vontade de nos mantermos engajados.

Isto é evidente nas pessoas que permanecem ativas e felizes após os 60 anos: elas normalmente mantêm razões para agir e se interessar pelo que as rodeia.

Aquilo que envelhece bem adapta-se em vez de abandoná-los

Reflexão sobre o envelhecer positivo

Não é necessário multiplicar grandes projetos. Quando algo se torna mais difícil, a primeira pergunta pode ser: é realmente necessário parar, ou apenas mudar a maneira de fazer?

Uma atividade física que se torna complexa? Às vezes, é possível modificar a intensidade. A leitura que cansa os olhos? Uma melhor iluminação ou letras maiores podem ser suficientes. O objetivo permanece o mesmo, mas o caminho para alcançá-lo evolui.

É esta capacidade de adaptação que veremos em muitos comportamentos associados a um envelhecimento saudável após os 60 anos.

Continuar a aprender também ajuda a manter o olhar voltado para o futuro

A busca pelo aprendizado é essencial

Manter-se ativo em uma nova área também pode ter a sua importância. Aprender uma língua, explorar um instrumento, experimentar uma nova atividade ou desenvolver uma habilidade envolve aceitar que nem tudo será dominado de imediato.

Os que envelhecem bem parecem manter esta abertura. Não veem a idade como um tempo em que tudo deve ser adquirido e fixo. Algumas pessoas tornam-se até mais curiosas e interessantes com o passar dos anos.

Por fim, “você já merece descansar” não deve sempre ser entendido como uma regra. O descanso é vital quando atende a uma necessidade real. No entanto, envelhecer não implica automaticamente retirar-se do que se ama.

No fundo, aqueles que envelhecem bem não tentam negar as mudanças, nem se rendem sistematicamente a elas. Aprendem, sobretudo, a distinguir entre o que precisam aceitar e o que podem ainda adaptar.

Este artigo é oferecido a título informativo e reflexivo. Não constitui, de forma alguma, um conselho médico, psicológico ou profissional. As noções mencionadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, sem resultarem de uma avaliação clínica. Para a sua situação particular, consulte um profissional qualificado.

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