Em 2025, a OMS soa o alarme: a solidão afeta agora quase uma em cada seis pessoas no mundo

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A solidão já afeta cerca de uma em cada seis pessoas em todo o mundo. Durante muito tempo, este sentimento foi considerado uma simples experiência emocional, um período difícil que todos enfrentamos em algum momento da vida. Contudo, pesquisadores e autoridades de saúde estão agora a olhar para a solidão sob uma nova perspetiva: a de um verdadeiro desafio de saúde pública. Num mundo hiperconectado, cada vez mais pessoas relatam a falta de laços significativos. As interações digitais não têm substituído as relações humanas autênticas, e o sentimento de isolamento continua a exacerbar-se. Esta evolução levou os especialistas a interrogar-se sobre os efeitos duradouros da solidão no corpo e na mente. Este fenómeno é agora estudado com a mesma atenção que outros grandes fatores de risco associados à saúde.

A solidão é considerada um fenómeno global que rivaliza, nas preocupações de saúde, com fatores bem conhecidos de mortalidade prematura, como o tabagismo ou a obesidade. As autoridades de saúde procuram compreender melhor o seu impacto real e o custo humano que representa. No dia 30 de junho de 2025, a Comissão da Organização Mundial da Saúde sobre vínculos sociais estimou que aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo sente solidão. De acordo com esta análise, este fenómeno estaria associado a mais de 871.000 mortes anualmente, o que representa uma média de cerca de 100 óbitos por hora.

É importante fazer uma ressalva antes de interpretar estes números. Não somos médicos ou psicólogos, e esta análise baseia-se apenas na leitura e interpretação de trabalhos científicos, não em conselhos médicos. As estimativas sobre os óbitos não correspondem a uma contagem exata de pessoas que morreram diretamente devido à solidão. Em vez disso, refletem uma associação observada em grandes populações. À escala individual, esses dados não permitem prever a evolução da saúde ou da vida de uma pessoa em particular.

Vivek Murthy, ex-cirurgião-geral dos Estados Unidos e co-presidente desta comissão, descreveu a solidão como um desafio significativo da nossa era. Segundo ele, a sociedade subestimou as suas consequências durante muito tempo, reduzindo-a a um mero desconforto. Contudo, as investigações acumuladas nos últimos anos mostram que a solidão pode estar relacionada a efeitos muito mais amplos sobre a saúde física e mental.

“Muitas pessoas ainda consideram a solidão como um sentimento desagradável que desaparecerá com o tempo”, afirmou Murthy. “Mas ao observarmos os dados disponíveis, compreendemos que ela pode ter repercussões profundas na nossa saúde e bem-estar.”

Permanece uma questão crucial.

Como um estado emocional pode estar associado a um risco de mortalidade superior?

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Os cientistas avançam várias hipóteses, embora ainda sem uma explicação definitiva. Uma das explicações mais exploradas relaciona-se com a reação prolongada ao stress. A solidão persistente pode ser interpretada pelo organismo como uma situação de ameaça, resultando numa ativação contínua dos sistemas de stress que, ao longo do tempo, podem fragilizar alguns equilíbrios biológicos. Contudo, trata-se apenas de uma hipótese científica, e não de uma prova conclusiva acerca da ligação entre solidão e mortalidade.

O que está hoje bem documentado é a existência de uma associação estatística entre o isolamento social e determinados riscos para a saúde. Uma análise publicada em 2015 pela investigadora Julianne Holt-Lunstad, englobando diversas investigações, mostrou que o isolamento social estava associado a um aumento de cerca de 29% do risco de mortalidade.

A OMS destaca ainda que a solidão e a escassez de vínculos sociais estão relacionadas com uma frequência mais elevada de doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais e perturbações cognitivas, como a demência. Pessoas que enfrentam a solidão apresentam também um risco superior de desenvolver depressão.

Estes resultados demonstram que a dimensão psicológica e a dimensão física da solidão estão frequentemente interligadas. O sentimento de isolamento não se limita, portanto, a uma experiência interna: pode também influenciar comportamentos, hábitos de vida e alguns mecanismos biológicos.

A solidão apresenta-se assim como um fenómeno complexo, que se cruza entre as relações sociais, a saúde mental e a saúde física.

A solidão não afeta apenas os países ricos

Poder-se-ia facilmente pensar que a solidão é um flagelo das sociedades modernas, urbanas e altamente conectadas, onde os indivíduos dispõem de várias formas de comunicação mas, por vezes, mantêm menos relações profundas. Contudo, os dados recolhidos pela Organização Mundial da Saúde apresentam uma realidade diferente.

A solidão não parece ser um fenómeno restrito às populações mais favorecidas; afeta particularmente aqueles que enfrentam condições de vida difíceis.

De acordo com a Comissão da OMS sobre vínculos sociais, as taxas de solidão mais elevadas observam-se em países de baixa renda, onde atingem cerca de 24%, em comparação com aproximadamente 11% em países de rendimento elevado. Esses números sugerem que a solidão está mais associada a situações de precariedade, dificuldades diárias e à ausência de recursos sociais do que a um excesso de conforto ou tecnologia.

Outras investigações internacionais corroboram esta tendência. A análise das respostas recolhidas na pesquisa global Gallup realizada em 2023 e 2024 em 148 países mostra que a solidão é mais prevalente em países de baixa renda, particularmente na África Subsaariana, ao contrário da ideia difundida de que a solidão afeta essencialmente sociedades ricas.

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As gerações mais jovens particularmente afetadas

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A solidão não afeta apenas as pessoas mais velhas, como muitas vezes se acredita. Os jovens também estão a ser fortemente impactados por este fenómeno.

A OMS estima que entre 17% e 21% dos adolescentes e jovens adultos com idades entre os 13 e os 29 anos reportam sentir solidão, com uma prevalência particularmente acentuada entre os adolescentes.

Este cenário pode parecer paradoxal numa época em que os meios de comunicação nunca foram tão numerosos.

Chido Mpemba, co-presidente da Comissão da OMS sobre vínculos sociais, sintetizou esta contradição, salientando que muitos jovens podem sentir-se sozinhos apesar da presença constante nas redes sociais e das oportunidades de interação.

O relatório da OMS não se limita a medir a magnitude do problema. Propõe também considerar os vínculos como uma componente essencial da saúde, assim como a saúde física e mental.

A comissão apresenta um programa estruturado em torno de cinco prioridades: reforçar as políticas públicas, desenvolver a investigação, melhorar as intervenções, avaliar a sua eficácia e encorajar a participação cidadã.

Um desafio global que requer respostas concretas

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, também alertou para esta situação, considerando que numa época em que as possibilidades de conexão são quase ilimitadas, muitas pessoas continuam a sentir um profundo isolamento.

Essa afirmação deve, no entanto, ser interpretada com cautela. Os dados disponíveis apenas permitem apresentar um panorama em determinado momento e não provam necessariamente um aumento contínuo da solidão ao longo do tempo. No entanto, a magnitude do fenómeno e as suas potenciais consequências levaram a OMS a criar uma comissão dedicada a esta questão.

Os fatores associados à solidão identificados pelos investigadores são múltiplos: problemas de saúde, dificuldades financeiras, isolamento geográfico, fragilidade das relações ou mesmo ausência de redes de apoio. Muitas dessas causas têm origem na vida quotidiana e no ambiente imediato dos indivíduos.

Uma organização internacional pode definir orientações, incentivar os governos a agir e sensibilizar a opinião pública. Mas não pode criar diretamente os laços humanos que faltam na vida cotidiana.

Na data da publicação do relatório, apenas oito Estados-membros tinham implementado políticas específicas voltadas para o fortalecimento dos vínculos sociais, o que demonstra que as respostas institucionais ainda estão nos seus primórdios.

A resposta à solidão passa também por gestos simples

Uma das principais contribuições do trabalho da OMS foi dar visibilidade global a um fenómeno que muito tempo foi considerado uma experiência pessoal ou privada.

Ao medir a sua magnitude, a organização ajudou a reconhecer os vínculos sociais como um verdadeiro tema de saúde pública.

Mas por detrás dos números internacionais estão realidades individuais. As grandes estratégias são necessárias, mas não substituem ações concretas que podem reestabelecer laços, como ligar regularmente para alguém, partilhar uma refeição, propor uma atividade em conjunto ou simplesmente dedicar tempo a ouvir.

A solidão é um problema global, mas as soluções frequentemente passam por iniciativas locais e humanas. Cada relação reforçada, cada interação criada e cada gesto de atenção pode contribuir para reduzir o isolamento.

Se uma pessoa se reconhecer nestas situações de solidão persistente ou sentir que isso afeta o seu cotidiano, procurar a ajuda de um profissional qualificado, como um psicólogo ou conselheiro, pode ser um passo útil.

Buscar apoio não é sinal de fraqueza, mas uma forma de cuidar da sua saúde e bem-estar.

Este artigo é disponibilizado apenas para fins informativos e reflexivos. Não constitui, de forma alguma, um conselho médico, psicológico ou profissional. As noções abordadas baseiam-se em investigações publicadas, bem como em observações editoriais, e não derivam de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.

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