É fascinante a maneira como observamos o desenvolvimento das crianças. Cada descoberta é celebrada como uma pequena vitória. O menor progresso é motivo de alegria. Incentivamos a curiosidade, as tentativas, os erros e as experiências. Instintivamente, sabemos que uma criança aprende arriscando-se, tentando e, por vezes, falhando. No entanto, à medida que envelhecemos, a nossa perceção muda gradualmente. Pensem num bebé de um ano a dar os primeiros passos na sala de estar. A cena reúne toda a família. Sorrisos surgem, palavras de incentivo multiplicam-se, e alguns sacam os telemóveis para registar a ocasião.
O pequeno pode tropeçar, cair no tapete ou perder o equilíbrio ao fim de poucos segundos. Mas ninguém lhe reprovará o falhanço. Pelo contrário, será apoiado, pois todos entendem que o cair é parte do aprendizado.
Agora, imaginem esse mesmo menino, quinze anos depois, numa sala de aula, levantando a mão para fazer uma pergunta. Uma questão que foge do programa, que surpreende o professor ou desafia uma ideia estabelecida.
O ambiente já não é o mesmo.
A curiosidade que antes era alimentada pode, por vezes, tornar-se motivo de embaraço.
O erro, que era visto como uma etapa natural do aprendizado, pode começar a ser encarado como um falhanço a evitar.
Uma frase frequentemente atribuída a Neil deGrasse Tyson expressa bem esta contradição: «Passamos o primeiro ano da vida de uma criança a ensiná-la a andar e a falar, e depois o resto da sua vida a pedir-lhe para se calar e sentar. Há algo errado.»
Esta reflexão inquieta-nos porque diz respeito não apenas às crianças. Fala da forma como alimentamos, ou extinguimos, a nossa curiosidade ao longo da vida. Questiona a nossa relação com o erro, com as perguntas e com o desejo de compreender.
Pois, no fundo, o problema não é que as crianças mudam ao crescer. Talvez seja que, por vezes, nos esquecemos de proteger aquilo que era a sua força inicial: o desejo de explorar, experimentar e questionar.
Antes de avançarmos, saliento que não sou psicóloga nem especialista em ciências do comportamento. Este texto é uma reflexão pessoal, inspirada por observações e pesquisas amplamente discutidas, mas não substitui um aconselhamento profissional.
O condicionamento mais eficaz é aquele que nem percebemos.

Ninguém nos avisa um dia que a nossa curiosidade deverá, progressivamente, desaparecer. Não há uma cerimônia oficial onde nos expliquem que, em breve, teremos de parar de fazer perguntas e de incomodar, enquanto nos moldamos para dar a resposta esperada.
Isso constrói-se de outra forma.
Por pequenas pinceladas. Através de observações repetidas. Por hábitos que parecem inofensivos.
Descobrimos, lentamente, que a resposta correta muitas vezes vale mais do que a pergunta certa. Aprendemos que intervir frequentemente pode ser visto como incómodo. Observamos as reações dos outros antes de falarmos, ajustando as nossas ideias para entrar melhor no molde.
Sem nos darmos conta, por vezes aprendemos menos a refletir do que a adaptar-nos.
Da escola para o mundo profissional: a mesma lógica, um cenário diferente.
A escola desempenha frequentemente um papel central. Mesas alinhadas, horários fixos, instruções a seguir, avaliações que recompensam a conformidade tanto quanto a compreensão.
Depois, o mundo do trabalho assume o controlo.
As salas de aula tornam-se escritórios. Os cadernos transformam-se em relatórios. Os sinais de aviso tornam-se reuniões e agendas preenchidas. O sistema muda de aparência, mas certos hábitos mantêm-se.
Na vida adulta, ninguém precisa dizer-nos explicitamente: «cala-te e senta-te».
Aprendemos a fazê-lo sozinhos.
Hesitamos em fazer perguntas em reuniões. Guardamos uma ideia para nós porque parece demasiado distinta. Ou abandonamos uma proposta antes mesmo de a expressar, meramente por imaginarmos a reação dos outros.
O mais surpreendente é que, raramente, tornamo-nos os nossos próprios guardiões.
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O que realmente aprendemos a otimizar

Um estudo frequentemente referenciado na internet, associado aos investigadores George Land e Beth Jarman, afirma que a criatividade das crianças diminui consideravelmente com a idade. Os números exatos muitas vezes citados são atualmente discutidos e devem ser tratados com cautela, pois a sua interpretação vai provavelmente além do que os dados realmente permitem afirmar.
Mas a ideia geral continua relevante.
Basta observar uma criança a brincar para perceber algo. Uma simples caixa de papelão pode tornar-se um avião, uma espaçonave, uma casa ou uma máquina extraordinária em poucos minutos. A criança não questiona a realização da sua ideia. Primeiro explora.
Em contrapartida, muitos adultos bloqueiam-se quando se lhes pede para imaginar uma solução nova. «Pensem de forma diferente», dizem-nos, enquanto por vezes passámos anos a aprender a não sair do quadrado.
A curiosidade não desapareceu, simplesmente aguarda permissão para se manifestar.
A frase frequentemente atribuída a Neil deGrasse Tyson reflete bem esta contradição:
«Passamos o primeiro ano da vida de uma criança a ensiná-la a andar e a falar, e depois o resto da sua vida a pedir-lhe para se calar e sentar. Há algo errado.»
Quer essa frase seja realmente sua ou não, a ideia que ela transmite merece ser interrogada.
As crianças não carecem de curiosidade. Chegam ao mundo com um desejo de compreender, experimentar, descobrir. No entanto, ao longo do tempo, podemos, por vezes, transformar essa energia em algo que precisa de ser controlado.
Cada «porque é assim» e cada «não é hora de fazer perguntas», cada reação que desencoraja uma ideia invulgar retira um pouco dessa curiosidade.
Com o tempo, algumas pessoas acabam por não expor as suas ideias, não porque as abandonaram, mas porque aprenderam que guardá-las para si é mais confortável.
As melhores ideias frequentemente vêm de quem menos ouvimos.

Durante muito tempo, acreditei que as melhores soluções vinham das pessoas com mais experiência ou mais altos níveis de responsabilidade.
Estava enganada.
Foi frequentemente no terreno que descobri o inverso.
Numa equipa, as ideias capazes de resolver um problema concreto frequentemente provêm de quem observa as dificuldades no dia a dia: os recém-chegados, as pessoas discretas, aquelas que raramente são convidadas a falar.
Elas percebem coisas que os outros já deixaram de notar.
Elas observam os detalhes, imaginam melhorias e propõem mudanças simples, mas eficazes.
O problema não é, geralmente, a ausência de ideias.
O problema é o medo de as expressar.
O verdadeiro desafio não é criar curiosidade, mas não a apagar.
Assim que alguém entende que uma ideia imperfeita pode ser recebida com interesse em vez de julgamento imediato, algo muda.
As conversas tornam-se mais ricas. As equipas tornam-se mais criativas. As soluções surgem com mais facilidade.
A curiosidade não é um recurso raro que apenas algumas pessoas possuem. Está presente em quase todos.
Precisa apenas de um ambiente onde possa respirar.
O maior risco pode não ser faltar novas ideias.
É viver num mundo onde muitas pessoas aprenderam a não mais partilhá-las.
Não se desconstrói anos de hábitos apenas lendo uma frase inspiradora. Uma citação pode provocar uma tomada de consciência, mas não muda a nossa forma de pensar ou agir por si só.
A mudança começa, antes, por pequenas decisões. Por momentos em que aceitamos sair um pouco do papel que aprendemos a desempenhar.
Aqui estão algumas sugestões que permitem reconquistar a curiosidade que tínhamos naturalmente ao início.
Ousar fazer perguntas que normalmente guardamos para nós.

Há uma certa coragem em perguntar o que ninguém se atreve a questionar.
Não para atrair atenção. Não para mostrar que somos diferentes. Mas simplesmente para quebrar o hábito de permanecer em silêncio por medo de parecer ignorante.
Com frequência, a questão que achamos irrelevante é precisamente aquela que várias pessoas gostariam de fazer. A curiosidade não é um sinal de fraqueza. Muitas vezes, é o começo de uma melhor compreensão.
Aprendemos a justificar cada atividade pela sua utilidade. Aprender algo deve produzir um resultado, melhorar uma competência ou proporcionar um benefício concreto.
No entanto, uma parte da nossa criatividade provém do que parece inútil.
Aprender algumas palavras de uma nova língua, descobrir um período histórico esquecido, experimentar uma atividade apenas porque nos intriga, esses desvios alimentam a nossa imaginação.
A curiosidade gratuita é frequentemente a primeira coisa que abandonamos ao tornarmo-nos adultos. No entanto, é ela que nos permite ver o mundo de outra forma.
Oferecer aos outros a liberdade que gostaríamos de ter recebido.
Se lidera uma equipa, acompanha crianças ou partilha uma conversa com alguém, há um gesto simples que pode fazer: acolher as ideias antes de as julgar.
Uma proposta desajeitada pode tornar-se uma excelente ideia. Uma pergunta surpreendente pode abrir uma discussão importante. Uma observação que parece estranha pode revelar um problema que ninguém tinha notado.
Muitas pessoas não carecem de ideias. Elas apenas carecem de um espaço onde se sintam autorizadas a expressá-las.
Aprender a reconhecer a voz que nos limita.
Com o tempo, acredite que desenvolvemos um diálogo interior que se assemelha a um antigo professor.
Uma voz que sussurra: «Não é a altura», «Não é suficientemente bom», «Por que irias falar? »
Ela parece razoável. Pretende proteger-nos do ridículo ou do fracasso.
Mas, por vezes, ela é apenas o reflexo de velhas regras que continuamos a aplicar muito tempo depois de já não serem necessárias.
O verdadeiro problema por trás da frase frequentemente atribuída a Neil deGrasse Tyson.

A citação frequentemente atribuída a Neil deGrasse Tyson diz:
«Passamos o primeiro ano da vida de uma criança a ensiná-la a andar e a falar, e depois o resto da sua vida a pedir-lhe para se calar e se sentar. Há algo errado.»
Quer realmente venha dele ou não, esta ideia toca num ponto profundo.
Não propõe um método milagroso. Não promete transformar a nossa vida em algumas etapas simples, mas convida-nos a observar o que progressivamente abandonámos: a capacidade de explorar, experimentar, questionar e aceitar que não sabemos tudo.
Não estavas destinado a permanecer immóvel.
Quando fizeste os teus primeiros passos, ninguém demandou que fosses perfeito.
Foste incentivado porque tentavas.
Cada queda era considerada uma prova de que estavas a aprender, e não um motivo para parar.
A curiosidade que existia nessa altura não desapareceu. Apenas foi coberta por anos de prudência, regras e expectativas.
Talvez o objetivo não seja voltar a ser a criança que fomos.
Talvez se trate simplesmente de redescobrir a ousadia que tínhamos antes de aprendermos a ficar sentados.
Este artigo é apresentado para fins informativos e reflexivos. Não constitui de forma alguma um aviso médico, psicológico ou profissional. As noções discutidas baseiam-se em pesquisas publicadas assim como em observações editoriais e não são o resultado de uma avaliação clínica. Para a sua situação particular, deverá consultar um profissional qualificado.




