Porque será que muitos adultos deixam de celebrar o seu aniversário? Chega uma altura na vida em que este dia já não evoca a mesma emoção que na infância. Aquela festividade repleta de surpresas e alegrias pode, eventualmente, transformar-se num momento de introspecção. Para muitos, existe uma estranha distância em relação a essa data, que parece cobrar contas, não atear ansiedades. O aniversário, um dia outrora sinónimo de alegria, passa a ser associado, sem que nos apercebamos, a reflexões sobre o nosso percurso.
Para muitos adultos, os aniversários tornam-se encontros pessoais consigo mesmos.
A inquietação não provém do número de velas no bolo, mas sim da pressão de avaliar a vida através de uma lista de metas que ninguém jamais precisou validar. Com o tempo, as comparações com o percurso alheio transformam este dia num exame íntimo.
Dos aniversários de infância, onde um presente ou uma festa eram o motivo da felicidade, aos aniversários na vida adulta, onde procuramos tranquilidade e realizações, tudo muda. A data permanece, mas o nosso olhar sobre ela evolui; já não é apenas um marco de existência, mas um convite à reflexão sobre o sentido da nossa trajetória. Um balanço.
Se perguntarmos a adultos na casa dos 30, 40 ou 50 anos por que preferem muitas vezes não festejar o seu aniversário, as respostas raramente se referem apenas à passagem do tempo. Falam de momentos em que se vêem cara a cara com as suas conquistas, anseios e sonhos inacabados.
Logo ao acordarem, uma série de perguntas pode surgir: Progredi como desejava? A minha vida reflete o que sempre imaginei? Estou onde pensava estar a esta idade? Os outros conseguiram realizar aquilo que eu ainda não consegui?
Chegam mensagens de felicitações, as velas acendem-se e os sorrisos aparecem, mas por trás da aparente celebração existe, por vezes, uma reflexão. O aniversário torna-se então menos um mero lembrete da passagem do tempo e mais um espelho que revela o caminho percorrido.
Quando o aniversário se transforma num balanço da vida

Durante a maior parte da história da humanidade, os aniversários não tinham grande relevância. As comunidades celebravam as transições significativas, como a passagem à idade adulta, através de rituais e não por uma mera contagem de anos.
O psicólogo Matthew Rossano demonstrou que, em muitas sociedades tradicionais, a identidade era antes relacional do que individual, sendo reconhecida e transmitida pela comunidade através de rituais.
Sabia quem era porque o grupo lhe transmitia isso. O rito respondia a essa questão.
Os aniversários modernos preservaram alguns elementos do ritual, como o bolo, os cânticos e os encontros familiares, mas perderam parte do seu significado. Muitas vezes, só permanece você, perante o seu bolo, somando mais um ano ao seu registo.
O exame interior surge, então, para preencher o vazio deixado pelo ritual.
Que perguntas realmente lhe faz este dia hoje?
Um aniversário de criança não exige nada para a criança, a não ser a sua presença e o prazer de soprar as velas. Um aniversário de adulto, por outro lado, parece exigir muito mais.
Impõe a questão difícil: “O que fez neste ano?” E, cada vez mais frequentemente: “O que fez nesta década?”
Deixa de ser apenas uma festa. Às vezes, torna-se uma avaliação de desempenho.
Os adultos que não desejam celebrar o seu aniversário não temerão, em geral, o envelhecimento de forma dramaticamente negativa. Estão mais fatigados pela pressão de ter de prestar contas, não só aos outros, mas também àquela pessoa que eram aos 22 anos e que imaginava um futuro repleto de promessas.
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Por que os perfeccionistas temem particularmente este dia?

Os aniversários podem ser especialmente difíceis para os adultos que se questionam constantemente se estão a fazer o suficiente. O perfeccionismo, de uma maneira geral, expressa essa necessidade de alcançar um padrão exemplar, onde os erros são vistos como insuportáveis.
Num dia comum, é fácil evitar questões difíceis e avançar sem grandes reflexões. Contudo, o aniversário impõe uma pausa, e é muitas vezes nesse momento que surgem os pensamentos que se evitam.
Para quem se julga frequentemente de forma severa, a distância entre a realidade atual e as aspirações parece um fardo pesado. Torna-se um lembrete constante, que regressa ano após ano. A mente analisa e amplifica este desvio.
Assim, para um perfeccionista, o aniversário pode não ser uma celebração, mas sim um prazo de conclusão que teme não ter cumprido.
As velas deixam de ser apenas símbolos festivos. Passam a representar um exame que se impõe a si próprio.
A autoconsciência que se transforma silenciosamente em auto-punição
Há uma categoria específica de adultos que já fizeram o trabalho interior necessário: habituaram-se a analisar os seus padrões de comportamento e a expressar os seus mecanismos emocionais. No entanto, esta data ainda pode desestabilizá-los.
Pesquisas em psicologia mostram que a ruminação não se relaciona com uma reflexão construtiva, mas com a repetição passiva de pensamentos negativos que se concentram em dificuldades. Um estudo publicado no Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry enfatiza que este tipo de pensamento repetitivo está intimamente ligado a mecanismos de controle cognitivo que mantêm o sofrimento em vez de promover a resolução de problemas.
As pessoas com tendências acentuadas para a autocritica podem, por isso, ficar presas num ciclo de análise em vez de avançar, mesmo que a compreensão das suas dificuldades não constitua, por si só, uma forma de mudança.
Os aniversários são um terreno fértil para este mecanismo. O dia convida à introspecção. Contudo, quando essa reflexão se transforma apenas numa análise dos defeitos, a celebração torna-se uma armadilha.
Deixa de ser um momento de celebração para ser um exame disfarçado de reflexão.
O problema da comparação que o calendário agrava

Cada aniversário traz consigo a cronologia de todos os anteriores. Os antigos colegas de escola, a pessoa que podia ter sido o seu parceiro, o colega que tomou a decisão certa no momento certo, todos ressurgem na memória, ocupando um lugar específico no mapa da vida que idealizava para si.
A comparação, outrora ocasional, tornou-se permanente. Não é preciso procurar referências, elas aparecem por toda parte através das redes sociais, conversas e recordações.
O dia que deveria ser seu acaba por transformar-se numa fonte de provas sobre a suposta realização dos outros.
O medo de ser visto com precisão
Existe uma dimensão que pode ser difícil de reconhecer. Os aniversários implicam ser celebrado, o que significa ser observado, receber atenção e aceitar presentes que refletem a imagem que os outros têm de si.
Ser percebido com clareza por quem nos ama pode ser mais revelador do que uma crítica. Os aniversários intensificam essa vulnerabilidade, concentrando-a em algumas horas.
A ideia de cuidar sempre do outro adquire um significado diferente aos 40 anos em comparação com aos 20. O que antes parecia um elogio pode transformar-se num espelho.
Cet article est proposé à titre informatif et de réflexion. Il ne constitue en aucun cas un avis médical, psychologique ou professionnel. Les notions évoquées s’appuient sur des recherches publiées ainsi que sur des observations éditoriales, et ne résultent pas d’une évaluation clinique. Pour votre situation particulière, veuillez consulter un professionnel qualifié.




