A verdadeira resiliência, segundo a psicologia, não é ser forte o tempo todo, mas continuar apesar dos dias em que tudo parece desmoronar

A verdadeira resiliência, o que é? Frequentemente imaginamos que as pessoas mais fortes são aquelas que suportam tudo sem demonstrar qualquer fraqueza. Aqueles que mantêm sempre o controle, que rapidamente encontram soluções e que parecem enfrentar as dificuldades sem nunca vacilar. No entanto, essa imagem da força interior não reflete completamente a realidade. Algumas das pessoas mais resilientes são também aquelas que duvidam, que sentem intensamente as dificuldades e que precisam de tempo para restabelecer o seu equilíbrio. A resiliência não é a ausência de dor, mas sim a capacidade de seguir em frente apesar dela. Não se mede pela rapidez com que uma pessoa se levanta, mas pela maneira como continua a avançar depois de ter sido afetada.

Muitas vezes, confundimos resiliência com rapidez. Pensamos que a pessoa mais forte é aquela que retoma imediatamente a sua vida, que permanece calma em todas as circunstâncias, que sorri antes mesmo de ter processado o que aconteceu e que volta rapidamente ao seu funcionamento habitual.

É uma visão limitada da resiliência

Esta perspetiva valoriza mais a aparência de domínio do que a verdadeira reconstrução. Ela glorifica o controle externo em detrimento dos esforços necessários para restabelecer o equilíbrio interno.

A realidade que se destaca é a de uma pessoa que não está sempre positiva, que não recupera imediatamente a sua energia. Contudo, aceita os seus momentos de fragilidade e que, mesmo após uma noite difícil ou um momento de desânimo, encontra a força para se levantar na manhã seguinte e realizar o que deve ser feito.

É frequentemente aqui que reside a verdadeira resiliência. Na capacidade de continuar, mesmo quando tudo ainda não está reparado.

A verdadeira resiliência não é um teste de velocidade

A verdadeira resiliência
Imagens Pexels e Freepik

A psicologia não considera a resiliência como um mero traço de carácter, e não deve ser reduzida a um mero distintivo. No seu artigo amplamente citado publicado no American Psychologist, onde ela qualifica a resiliência de «magia ordinária», Ann Masten defende que a resiliência muitas vezes decorre de sistemas de adaptação comuns: a resolução de problemas, as relações interpessoais, a auto-regulação, as competências e os ambientes que as sustentam.

Isto é muito pertinente, pois afasta a resiliência da imagem idealizada de uma pessoa insensível. A pessoa resiliente não é necessariamente aquela que sente menos emoções; ela pode simplesmente possuir uma estrutura, hábitos e apoio suficientes para que a sua vida não seja completamente abalada pela chegada das emoções.

No mundo profissional, a resiliência é frequentemente reduzida a uma forma de produtividade. Espera-se que se mantenha a calma sob pressão, que se permaneça otimista, que se continue a avançar e que, sobretudo, se evitem causar desconforto aos outros ao mostrar que se sofreu. Esta visão pode ser útil em certos ambientes de trabalho, mas não reflete todas as facetas da natureza humana.

Uma pessoa pode ser resiliente, mesmo que leve tempo a recuperar. Ela pode chorar, cancelar certos projetos, permanecer em silêncio, dormir mal, escrever uma mensagem e depois apagá-la, fixar o olhar numa parede durante alguns minutos, e ainda assim continuar a adaptar-se. A reconstrução nem sempre é imediatamente visível.

A noite de terça-feira é importante

A frase «desabar sozinho numa noite de terça-feira» é mais significativa do que parece. Ela representa uma dimensão da resiliência que não se manifesta de forma espetacular. Não há público, não há discursos, não há transformação súbita. Apenas um momento íntimo onde alguém se permite finalmente expressar o que sente.

Esse desabamento pode ser interpretado como uma fraqueza, pois vai contra a imagem idealizada de alguém que controla todas as situações. Contudo, existe uma diferença essencial entre desabar e desistir. Um corresponde a um momento de vulnerabilidade, enquanto o outro implica renunciar a seguir em frente.

A verdadeira resiliência como capacidade de continuar apesar das dificuldades

O artigo de George Bonanno publicado no American Psychologist sobre a resiliência humana após eventos extremamente traumáticos é particularmente pertinente aqui, pois apresenta a resiliência como um modo de funcionamento sustentável, e não como uma mera demonstração temporária de maestria emocional.

Assim, a questão não é se a angústia aparece, mas sim se a pessoa é capaz de continuar a avançar, de se reconstruir e de manter um vínculo com a sua vida quotidiana, apesar do que está a viver.

Neste sentido, a noite de terça-feira não é um fracasso de resiliência. Ela pode fazer parte integrante do processo. Algumas pessoas recuperam precisamente porque se recusam a fingir que não estão afetadas. Aceitam a sua reação emocional, dão-lhe espaço, e depois retomam gradualmente as suas responsabilidades, sem esperar que a dor tenha desaparecido completamente.

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A emoção positiva não é uma positividade permanente

A verdadeira resiliência

Pesquisas mostram a ligação entre a resiliência e emoções positivas, mas é fácil interpretá-las mal. Michele Tugade e Barbara Fredrickson, num artigo do Journal of Personality and Social Psychology sobre como as pessoas resilientes utilizam emoções positivas, descrevem estas como parte do processo de recuperação de algumas pessoas após experiências emocionais negativas.

Isto não significa que as pessoas resilientes estejam sempre alegres. Não significa que transformem cada decepção em gratidão antes de se deitar. Nesse contexto, a emoção positiva não é uma exigência de otimismo. É um recurso entre outros. Como um momento de humor, de perspetiva, de calor humano, de curiosidade ou de alívio que ajuda a atenuar o impacto de uma situação difícil.

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Esta distinção é importante. Forçar a positividade pode transformar-se em evasão. A verdadeira resiliência permite integrar um pequeno momento positivo sem negar o negativo. Ela permite aceitar, na quarta-feira, ambas as realidades: o fato de que a terça-feira foi difícil e o fato de que ainda resta o pequeno-almoço para preparar, o e-mail para enviar e a reunião a assegurar.

É por isso que a pessoa mais resiliente no trabalho não é necessariamente a mais optimista. Pode ser aquela que para de afirmar em voz alta que está bem. Ela não precisa que o evento tenha imediatamente um significado especial. Precisa apenas de estabilidade suficiente para abordar o restante do seu percurso.

Funcionar não é fingir

Existe um risco em felicitar as pessoas que conseguem se levantar na manhã de quarta-feira. Isso pode dar a impressão de que a maior virtude é a resistência, custe o que custar. Não é essa a questão.

Funcionar não é a mesma coisa que fazer de conta. Fazer de conta é negar a existência do que ocorreu. Funcionar é reconhecer que um evento teve lugar, ao mesmo tempo que se admite que o dia continua a ser repleto de deveres, relações, prazos, louça, crianças, colegas e contas a pagar.

Uma pessoa resiliente talvez não esteja curada na quarta-feira. Ela pode estar apenas mais orientada.

Esta distinção é particularmente importante em culturas empresariais que valorizam o sofrimento silencioso. Quando as organizações celebram a resiliência sem mudar as condições que a testam constantemente, esse termo torna-se uma forma de aceitar, de maneira polida, disfunções. A pergunta crucial não é apenas saber se os trabalhadores conseguem suportar a pressão, mas também por que essa pressão deve ser relegada a momentos de descompressão privados, na noite de terça-feira.

Contudo, a nível individual, é interessante notar a capacidade de quem pode aceitar o desabamento sem que este defina a sua identidade. Essa pessoa não precisa ser inabalável, mas apenas capaz de se levantar.

A pessoa resiliente é frequentemente menos impressionante à medida que a observamos de perto

A verdadeira resiliência

De longe, a resiliência pode parecer perfeita. De perto, ela é frequentemente irregular. Uma pessoa responde a um e-mail e ignora outros três. Prepara o jantar, mas tem dificuldade em conversar. Termina a sua apresentação, mas permanece sentada no carro durante dez minutos. E não se levanta ilesa; ela volta ainda marcada pelo que atravessou.

É aqui que a afirmação do título ganha todo o sentido. A pessoa resiliente não é necessariamente aquela que se recupera mais rapidamente emocionalmente. Pode ser aquela que cessou de considerar cada noite mal dormida como um sinal de fracasso.

Trata-se de uma força tranquila, baseada mais na capacidade de avançar do que na imagem que se transmite. Não confunde autocontrolo com competência. Reconhece que é possível ser profundamente afetado e ainda assim ser fiável, estar abalado e mesmo assim ser responsável, estar cansado e ainda assim ser digno de confiança.

O momento da manhã de quarta-feira é importante, pois é ordinário. Não há uma cena de renascimento espetacular. Trata-se simplesmente desse pequeno gesto de retorno ao mundo, após a tempestade interior ter acalmado o suficiente para permitir a continuidade da sua jornada.

A melhor medida da verdadeira resiliência

Se a verdadeira resiliência se mede apenas pela rapidez com que uma pessoa parece estar bem, então os mais convincentes sempre prevalecerão.

No entanto, se a medirmos pela capacidade de uma pessoa de aceitar a realidade, mantendo-se fiel aos seus valores, responsabilidades e relações, a perspetiva muda.

As pessoas mais resilientes não são necessariamente insensíveis, otimistas ou rápidas. Podem ser aquelas que aceitam os momentos difíceis, que não transformam cada emoção em um evento público e que não confundem uma noite difícil com o fim da sua utilidade.

Elas desabam sozinhas numa noite de terça-feira. Depois chega a quarta-feira, e elas fazem o que é necessário. Não porque finjam que nada aconteceu, mas porque dentro delas ainda existe a capacidade de se reconstruir.

Este artigo é oferecido a título informativo e reflexivo. Não constitui, de forma alguma, aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As noções mencionadas baseiam-se em pesquisas publicadas, bem como em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.



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