O efeito IKEA: aqueles que montam uma caixa da IKEA estão dispostos a pagar 63% a mais do que aqueles a quem se entrega exatamente a mesma caixa já montada

Conhece o efeito IKEA? Todos já experienciamos uma satisfação especial ao criar algo com as nossas próprias mãos. Montar um móvel, reparar um objeto ou simplesmente montar um artigo que adquirimos em kit pode fazer com que o resultado final nos pareça mais valioso do que um produto idêntico comprado já montado. Esse sentimento não provém apenas do objeto em si, mas também do tempo, do esforço e da dedicação que lhe gastamos. Os psicólogos têm investigado este fenomeno, designado **efeito IKEA**, para compreender porque às vezes tendemos a superestimar o que contribuímos para criar. O simples ato de participar na confecção de um objeto pode, portanto, alterar a nossa perceção da sua qualidade e valor. Esta ideia foi estudada através de várias experiências que demonstraram como o nosso investimento pessoal influencia fortemente o nosso julgamento.

Num estudo publicado em 2012, investigadores pediram a um grupo de participantes para manipular uma caixa de arrumação preta vendida em kit. Alguns tinham de a montar sozinhos a partir das várias peças fornecidas, enquanto outros recebiam o mesmo modelo já montado. Após esta experiência, os participantes tinham de indicar o preço máximo que estariam dispostos a pagar pela caixa.

Efeito IKEA: resultados revelaram uma diferença significativa entre os dois grupos.

As pessoas que montaram a caixa estimaram o seu valor médio em 78 cêntimos, enquanto aqueles que receberam a caixa já montada avaliaram-na em apenas 48 cêntimos. O objeto era, no entanto, idêntico, composto pelos mesmos elementos e com a mesma função. A única diferença residia no esforço despendido para a produzir. Os que participaram na sua montagem atribuíam-a uma maior valia de 63%.

Os investigadores Michael Norton, Daniel Mochon e Dan Ariely designaram este fenómeno de “efeito IKEA”, em homenagem à famosa marca sueca conhecida pelos seus móveis vendidos em kit. A conclusão foi que o esforço pessoal cria um sentimento de apego que pode influenciar o nosso julgamento. Quando investimos tempo e energia na realização de um objeto, tendemos a considerá-lo mais valioso do que realmente é.

Em suma, não valorizamos apenas o resultado final, mas também uma parte de nós que dedicámos à sua criação.

Quando os criadores superestimam o valor das suas obras

efecto IKEA
Certamente que isto lhe traz memórias 🙂 Crédito das imagens: Pexels

As experiências com as caixas IKEA confirmaram a existência deste efeito. Uma segunda investigação mediu a sua amplitude. Neste caso, os participantes dobraram uma rã ou uma grua em origami utilizando apenas um esquema. Depois, eles avaliaram a sua criação, enquanto outro grupo estava encarregado de avaliar essas mesmas rãs e gruas em papel.

Os criadores estimaram os seus origamis em cerca de 23 cêntimos. Os observadores, percebendo o resultado às vezes imperfecto e assimétrico, apenas lhes atribuíram 5 cêntimos, considerando-os simples pedaços de papel dobrado sem grande valor. Assim, os criadores atribuíram, portanto, quase cinco vezes mais valor às suas criações comparativamente às pessoas que as observaram.

Numa outra experiência, alguns participantes construíram pequenos modelos Lego compostos por cerca de uma dúzia de peças.

Representando um helicóptero, um pássaro, um cão ou um pato. Como esperado, os construtores valorizaram o seu modelo mais do que o mesmo modelo realizado por outra pessoa, propondo cerca do dobro para o adquirir.

Contudo, um terceiro grupo teve de construir um modelo antes de o desmontar. Para esses participantes, o valor acrescentado desapareceu. O ato de desfazer a sua criação apagou todo o entusiasmo sentido, mesmo que os Lego sejam projetados para serem facilmente reconstruídos em poucos minutos.

Uma última experiência confirmou este fenómeno sob um outro ângulo. Alguns participantes montaram inteiramente uma caixa IKEA, enquanto outros foram interrompidos duas etapas antes da conclusão. Aqueles que finalizaram a montagem propuseram, em média, 1,46 dólares pela sua caixa. Aqueles que ficaram com uma caixa quase montada, todas as peças em mãos, estavam dispostos a pagar apenas 59 cêntimos, ou seja, menos de metade.

A diferença de valor derivava, portanto, do facto de ter completado a tarefa e não simplesmente do tempo investido nela. Esta validade persistiu mesmo entre participantes que não se consideravam entendidos em bricolagem.

Porque gostamos mais do que criamos com as nossas próprias mãos

Os investigadores analisaram várias explicações possíveis e descartaram algumas hipóteses evidentes. A valia extra não derivava apenas do facto de ter possuído ou manipulado o objeto. As pessoas que construíram e depois desmontaram um modelo Lego também o tiveram em mãos durante um tempo comparável, sem, no entanto, atribuir-lhe uma valia superior.

Não se tratava, igualmente, de um efeito associado à personalização, uma vez que as caixas IKEA utilizadas eram modelos standard, sem possibilidade de modificação pessoal.

A comparação seguinte revelou-se mais surpreendente.

Os investigadores pediram a algumas pessoas para realizar origamis particularmente bem conseguidos e, em seguida, pediram a um outro grupo para avaliar o seu valor. Os observadores estimaram o trabalho dos especialistas em cerca de 27 cêntimos. Os amadores, por seu turno, avaliavam as suas próprias criações, embora por vezes desajeitadas, em 23 cêntimos.

Em outras palavras, aos seus olhos, o seu trabalho tinha quase tanto valor quanto aquele realizado por profissionais. A diferença era tão diminuta que não era estatisticamente significativa.

Para averiguar que os criadores não estavam a atribuir um preço elevado apenas para evitar a perda da sua criação, os investigadores pediram a um outro grupo para avaliar quanto um estudante médio estaria disposto a pagar por esses origamis. As estimativas eram quase tão elevadas quanto as dos próprios criadores.

Os participantes não buscavam, portanto, apenas preservar a sua obra: pareciam realmente acreditar que outras pessoas poderiam também reconhecer o seu valor.

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O valor provém menos do esforço e mais da satisfação de ter alcançado

efecto IKEA

Se o esforço despendido fosse o único fator determinante, então qualquer tarefa difícil aumentaria automaticamente o valor de um objeto. No entanto, os investigadores descobriram que isso não era verdade. O que realmente importava era a conclusão da tarefa.

Conforme afirmam, este fenómeno baseia-se na combinação de dois mecanismos psicológicos já estudados. O primeiro é a **justificação do esforço**. Temos tendência a atribuir maior valor a aquilo que nos custou esforço. O segundo é o sentimento de **competência**, visto que realizar uma tarefa, mesmo que simples, provoca a satisfação de criar algo e contribuir para um resultado concreto.

Uma rã em origami imperfecta não vale objetivamente 23 cêntimos. Contudo, representa uma prova tangível de uma realização pessoal. E essa prova possui um valor emocional distinto.

Efeito IKEA para além das experiências científicas

Os investigadores observam fenómenos semelhantes fora dos laboratórios.

Citam, por exemplo, a popularidade de misturas para bolos instantâneas na década de 1950, que tiveram maior sucesso quando os fabricantes pediram aos consumidores que adicionassem um ovo fresco. Reintroduzindo assim uma parte de participação pessoal na preparação.

Essa explicação não é provavelmente a única razão para essa mudança comercial. No entanto, ilustra uma ideia próxima das suas conclusões.

O mesmo princípio pode ser observado em experiências nas quais os consumidores pagam para personalizar um urso de peluche. Ou ainda para colher os vegetais que ajudaram a cultivar numa quinta.

Limitações do efeito IKEA: o que 4 estudos podem e não podem demonstrar

efecto IKEA

O efeito IKEA é bem documentado nessas experiências, mas a sua importância deve ser interpretada com cautela. Foram estudos realizados em laboratório com um número limitado de participantes, principalmente estudantes, e com objetos de baixo valor.

Os produtos estudados eram caixas, origamis e modelos Lego, com preços variando entre alguns cêntimos e menos de dois dólares. Os investigadores mediam o valor atribuído aos objetos através de exercícios de leilão, que reproduzem parcialmente uma situação de compra real, mas não substituem um verdadeiro comportamento de consumidor.

Os autores também sublinham as limitações dos seus resultados. Eles afirmam que suas experiências abordaram objetos simples e baratos. E que não se pode afirmar que o mesmo efeito IKEA existe com investimentos muito mais significativos. Por exemplo, numa renovação completa de uma casa ou na construção de um deck.

No entanto, mencionam situações reais onde os proprietários podem superestimar fortemente o valor de trabalhos que realizaram. Esta ideia permanece, no entanto, uma hipótese plausível, em vez de uma conclusão definitiva.

O efeito IKEA baseia-se, portanto, mais num mecanismo psicológico estabelecido do que numa explicação única e totalmente demonstrada.

A justificação do esforço e o sentimento de competência parecem desempenhar um papel importante. Mas os investigadores salientam que ainda é necessário aprofundar as investigações para entender precisamente porque fabricar um objeto nos leva a atribuir-lhe mais valor.

O que estas investigações revelam, acima de tudo, é a existência de um padrão claro. A satisfação surge quando o esforço resulta num resultado completo. Uma caixa meio montada ou uma criação desfeita não proporciona o mesmo sentimento de realização.

Esta limitação poderá revelar um aspecto profundamente humano. Não valorizamos o nosso trabalho apenas porque nos exige esforço. Concedemos-lhe mais importância quando estes resultam em algo que podemos observar, tocar e considerar como terminado, mesmo que o resultado permaneça imperfeito.

Este artigo é apenas para fins informativos e de reflexão. Não deve ser considerado como um conselho médico, psicológico ou profissional. As noções abordadas baseiam-se em pesquisas publicadas e em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, por favor consulte um profissional qualificado.

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