**A sombra segundo Carl Jung.** É comum encontrarmos pessoas que nos irritam sem um motivo aparente. Não se trata de ações objetivamente erradas, mas sim de uma forma de ser que provoca uma reação em nós, muitas vezes inexplicável. Essas emoções, que podem surgir de forma imediata, levam-nos a afastar-nos sem compreender a verdadeira origem desse desconforto. Com o tempo, tais julgamentos acumulam-se e moldam as nossas relações. Passamos a crer que o problema reside unicamente no outro, sem refletir sobre o que, em nós, pode estar a ser ativado. Portanto, algumas correntes psicológicas convidam-nos a abordar esta dinâmica sob uma nova luz.
Carl Jung notou que o que mais nos incomoda nos outros, desde pequenas irritações que parecem desproporcionais até a dificuldade em perdoar certas pessoas, é frequentemente um reflexo de traços que ainda não reconhecemos em nós mesmos, um processo que ele nomeou de **sombra**.
O intrigante é que trabalhar esta sombra pode aliviar quase todas as relações complicadas.
Pense na pessoa à sua volta cuja presença o cansa. Não se trata de alguém que lhe fez mal de maneira clara, mas sim de um indivíduo cujos pequenos hábitos e comportamentos provocam em si reações desproporcionais.
É o colega cujo tom de voz o deixa imediatamente desconfortável. O familiar cujas convicções políticas ou gastronómicas suscitam uma irritação inexplicável. O amigo de um amigo que, por razões pouco elaboradas, você decidiu que não aprecia.
Carl Jung, no início do século XX, aprofundou-se neste tipo de aversão desmedida e sugeriu que se deve a um mecanismo psicológico específico. Os traços que mais nos incomodam nos outros são muitas vezes aqueles que não aceitamos em nós mesmos, os quais se encontram reprimidos na nossa psique e que ele designou como **sombra**.
Na visão de Jung, a sombra não equivale apenas aos “pontos negativos de um indivíduo”.
Segundo a Sociedade de Psicologia Analítica, que se baseia diretamente no volume IX das **Obras Completas de Jung**, a sombra é constituída pela “personalidade oculta, reprimida, em grande parte inferior e impregnada de culpa”. Contudo, ela também abriga qualidades como instintos normais, reações apropriadas, intuições realistas e impulsos criativos. Tudo o que o eu consciente rejeita, seja por vergonha, condicionamento social, medo ou simplesmente por desatenção, torna-se parte da sombra.
Com a experiência clínica de Jung, a sombra é projetada para o exterior. O indivíduo que a possui tende a perceber, com uma intensidade incomum, essas mesmas qualidades nos outros enquanto não as reconhece em si mesmo.
A sombra segundo Carl Jung: o que realmente afirmava

O mecanismo clínico que Jung propôs era o da projeção psicológica, ou seja, a atribuição inconsciente a outro de traços reprimidos que a pessoa não deseja reconhecer. Jung salientava o caráter automático desse processo, que ocorre na maior parte das vezes fora da consciência. “Cada um de nós carrega uma sombra”, escrevia ele em seu ensaio de 1938, **Psicologia e Religião**. “E quanto menos integrada estiver à vida consciente do indivíduo, mais densa e escura ela será.”
Quanto mais se reprime um aspecto indesejável de si mesmo, maior se torna a tendência de perceber esse mesmo aspecto nos outros. E a reação a esse traço não é proporcional ao comportamento do outro, mas sim à energia dispendida por quem percebe essa característica para mantê-la afastada da sua própria imagem.
A situação evoluiu consideravelmente em 1997.
Um artigo publicado no **Journal of Personality and Social Psychology**, assinado por Leonard Newman, Kimberley Duff e Roy Baumeister, confirmou a existência da projeção defensiva como descrita por Jung. Contudo, revelou que ocorre conforme um mecanismo específico: quando os indivíduos tentam reprimir pensamentos sobre a possibilidade de possuírem traços de personalidade indesejáveis, essa repressão torna esses conceitos cognitivamente mais acessíveis. Esses conceitos, uma vez acessíveis, são então utilizados de forma desproporcional para interpretar o comportamento alheio.
Experimentos realizados pela equipa de Newman demonstraram que indivíduos que evitavam reconhecer a possibilidade de possuírem traços de personalidade ameaçadores, mas negavam tê-los, inferiam facilmente tais traços a partir de comportamentos ambíguos em outros.
Esse efeito tem se mostrado robusto em múltiplos estudos e foi reproduzido em investigações subsequentes.
Após sete décadas de controvérsias empíricas, a observação clínica de Jung revelou-se parcialmente correta, embora com um mecanismo um pouco diferente do inicialmente proposto, mas que converge para o mesmo fenômeno fundamental: o que não suportamos enfrentar em nós mesmos, percebemos nos outros com uma rapidez incomum.
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O trabalho clínico desenvolvido pelos analistas junguianos ao longo do último século centrou-se na reapropriação da projeção. Esta prática consiste, na verdade, em identificar as pessoas e situações que provocam uma reação desmedida e, em seguida, questionar-se sobre a qualidade específica que desencadeia tal reação. O próximo passo é refletir honestamente se essa mesma qualidade existe, de alguma forma, dentro de nós.
De acordo com o documento de referência da Associação Internacional de Psicologia Analítica (IAAP), “a integração da sombra, ou a tomada de consciência do inconsciente pessoal, marca o primeiro passo do processo analítico” na tradição junguiana. A IAAP especifica que a integração completa é impossível, uma vez que a sombra contém elementos que vão além do individuo e pertencem ao que Jung denominava de inconsciente coletivo. No entanto, uma integração parcial altera profundamente a percepção que a pessoa tem dos outros.
A primeira implicação clínica deste quadro teórico é que as pessoas com quem nos confrontamos mais frequentemente servem, de certa forma, como um diagnóstico. Elas evidenciam, geralmente sem querer, aspectos do nosso psiquismo que ainda não foram reconhecidos. Por exemplo, uma pessoa que não suporta a preguiça nos outros pode ser alguém que ainda não fez as pazes com o seu desejo de descanso.
Da mesma forma, uma pessoa que reage de maneira desproporcional à arrogância alheia muitas vezes reprime a sua própria ambição. Aqueles que criticam ferozmente a vaidade de colegas frequentemente negaram o seu desejo de ser visto. A sombra não cria esses padrões, mas sim herda o que o eu consciente se recusa a admitir. Essa reação desmedida é um sinal de negação.
As limitações desta interpretação sobre a sombra segundo Carl Jung

Uma análise honesta implica esclarecer o que o quadro da sombra de Jung não estabelece. Não se trata de uma teoria abrangente que explique todos os conflitos interpessoais.
Existem desavenças reais entre indivíduos que surgem de divergências concretas, valores, recursos, maus-tratos ou necessidades incompatíveis que não se resumem a meras projeções. Algumas aversões refletem a complexidade de determinadas pessoas.
O quadro da sombra aplica-se de forma mais clara a reações desproporcionadas, mantenedoras e resistência a correções objetivas. Nem toda aversão é uma projeção; algumas são apenas aversões.
Este referencial teórico não promete que confrontar a própria sombra elimine os conflitos. Algumas relações permanecem difíceis mesmo após um trabalho interior significativo. Pois a dificuldade, em muitos casos, não estava originalmente ligada a uma projeção. O que o quadro parece alcançar, tanto na literatura clínica como nas investigações que sucederam Jung, consiste em diminuir reações desproporcionadas que emergem do repúdio de certas partes do eu.
O mecanismo não é mágico, e a mudança não é total. Contudo, a noção de que as pessoas que mais nos incomodam frequentemente apontam para aspectos que ainda não aceitamos em nós mesmos adquire consistência. O trabalho de confrontação com essa sombra é, segundo todas as investigações clínicas e empíricas, uma das formas mais eficazes de minimizar a importância das pequenas contrariedades diárias na mente de um indivíduo.
Este artigo é apresentado para fins informativos e de reflexão. Não se trata de um diagnóstico médico, psicológico ou profissional. As noções aqui discutidas baseiam-se em pesquisas publicadas bem como em observações editoriais, e não decorrem de uma avaliação clínica. Para a sua situação pessoal, consulte um profissional qualificado.




