Como podemos deslindar o sentimento de **solidão** mesmo na presença dos outros? Tradicionalmente, a solidão é frequentemente entendida como a falta de contato social. A imagem pré-concebida é a de uma pessoa isolada, sem relacionamentos significativos. Contudo, essa noção, embora intuitiva, não abrange a complexidade da realidade psicológica. Estudos contemporâneos em psicologia social revelam que a **qualidade das relações** é tão crucial quanto a **quantidade**. Assim, é perfeitamente possível estar rodeado de pessoas e, ainda assim, sentir um profundo vazio relacional. Esta **dissociação** entre presença social e conexão emocional é um fenómeno amplamente documentado.
É possível viver rodeado de uma família amorosa, partilhar a vida com um parceiro atencioso e ter uma vasta rede de amigos, e, ainda assim, sentir uma **solidão profunda**, um estado que é **mensurável** e reconhecido cientificamente. Este fenómeno, designado de **solidão afetiva**, foi descrito pela primeira vez em 1973 pelo sociólogo Robert Weiss. Os seus achados demonstraram que a simples presença de relações sociais não é suficiente para preencher a ausência de laços emocionais profundos e genuínos.
Um entendimento comum que simplifica o complexo
Muitas vezes, a solidão é vista como uma questão de falta de contato social. Nessa perspectiva, o indivíduo solitário é alguém que possui poucos amigos e que se sentiria melhor simplesmente ao ser mais cercado. Esta visão, embora intuitiva e comum, é, na verdade, reducionista à luz das evidências científicas. Uma revisão rigorosa de décadas de investigação evidencia que este entendimento não capta adequadamente a complexidade do fenômeno.
A literatura científica distingue, de fato, duas formas principais de solidão, cada uma com mecanismos psicológicos distintos e que respondem a fatores diferentes, exigindo, às vezes, abordagens específicas. Essa diferenciação foi formalizada por Robert Weiss em sua obra de 1973, *Loneliness: The Experience of Emotional and Social Isolation*, que continua a ser uma referência fundamental neste domínio. Weiss elucidou que os seres humanos possuem necessidades relacionais de naturezas variadas e que a falta de uma ou outra provoca formas distintas de sofrimento.
Essas duas dimensões são independentes: pode-se satisfazer uma sem a outra. Um ponto essencial para compreender por que pessoas aparentemente rodeadas podem sentir-se sozinhas é que é possível ter uma rede social extensa e, ainda assim, padecer de solidão afetiva.
Duas tipologias de necessidades, duas solidões distintas

A solidão social, conforme descrita por Weiss, resulta da falta de **uma rede social alargada**. O indivíduo que enfrenta esta realidade carece de parceiros, de um sentido de pertença a uma comunidade e de amizades que permitam a maioria dos adultos integrar-se socialmente. As soluções para este tipo de solidão são relativamente claras: envolver-se em clubes, participar em eventos comunitários, e alargar o círculo social.
A solidão afetiva, por outro lado, resulta da ausência de **relações profundas** de apego. A pessoa que padece de solidão afetiva carece desse vínculo íntimo específico onde se sente verdadeiramente conhecida e compreendida, podendo ter muitos amigos, colegas ou até um parceiro amoroso, mas ainda assim experimentar esse vazio fundamental.
Weiss estabeleceu esta distinção observando duas populações que relataram experiências de solidão muito diferentes. Viúvos e viúvas, por exemplo, que recentemente perderam o cônjuge, frequentemente revelam uma forte solidão, mesmo cercados por filhos adultos, irmãos e amigos.
O que lhes falta é a presença dessa pessoa especial que estruturava o seu universo emocional. Em contrapartida, adultos que se mudaram para uma nova cidade frequentemente reportam um tipo diferente de solidão, que diminui à medida que vão fazendo novos amigos e conhecidos, mesmo antes de estabelecer laços emocionais profundos.
Conforme Weiss, as duas formas de solidão exigem soluções essencialmente diferentes. A solidão social diminui através da **participação social**, enquanto a solidão afetiva só se dissolve com a criação de um vínculo profundo. A presença de outros, não importa quão numerosa, não pode suprir a ausência do ser amado.
A validade deste enquadramento
A distinção de Weiss foi inicialmente proposta com base em observações clínicas e, desde então, foi empiricamente testada ao longo de várias décadas, demonstrando uma relevância constante. Um estudo revisado por pares, realizado por DiTommaso e Spinner em 1997 confirmou que a solidão social e a solidão afetiva constituem experiências estatisticamente distintas, com diferentes correlações e associações em termos de saúde mental.
O estudo de DiTommaso trouxe uma precisão adicional essencial para compreender a solidão nas relações íntimas.
A pesquisa revelou que a solidão afetiva pode ser subdividida em duas subcategorias: a solidão emocional amorosa, associada à falta ou qualidade de uma relação íntima, e a solidão emocional familiar, relacionada à ausência ou qualidade dos laços de apego familiares. Um indivíduo pode ter uma relação amorosa forte e, ainda sim, sentir uma solidão emocional no âmbito familiar, e vice-versa.
Esta distinção aborda uma experiência que a concepção comum de solidão não explica adequadamente: a de uma pessoa casada, mãe, que vê regularmente os pais e, essencialmente, ainda se sente sozinha.
Os dados de DiTommaso demonstram que essa experiência não resulta da incapacidade de apreciar o apoio do círculo social. Trata-se de um estado cognitivo e emocional mensurável onde um ou mais laços de apego específicos não funcionam como fonte de conexão, mesmo que a relação em si esteja intacta e que as partes se amem.
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Fundamentos biológicos

O modelo de Weiss apoia-se numa teoria mais aprofundada desenvolvida pelo psiquiatra britânico John Bowlby. Bowlby publicou o primeiro volume de sua trilogia sobre a teoria do apego em 1969, seguido de mais dois volumes em 1973 e 1980.
O argumento central de Bowlby era que os seres humanos estão biologicamente programados para estabelecer laços afetivos com certas pessoas, e que tais vínculos são essenciais para o funcionamento psicológico. A ausência ou ruptura desses laços resulta em padrões de sofrimento previsíveis, independentemente do contexto social mais vasto.
O modelo de Bowlby prevê, e investigações subsequentes sobre a solidão confirmaram, que a necessidade humana de apego íntimo é qualitativamente diferente da necessidade de participação social. Estas duas necessidades assentam em substratos neuronais distintos, respondem a sinais diferentes e não podem ser substituídas uma pela outra.
Uma pessoa cujo sistema de apego não recebe o que precisa continuará a sentir angústia, independentemente da intensidade das interações sociais ao seu redor.
Esta é a razão biológica pela qual alguém pode estar numa sala cheia de pessoas que a amam, e ainda se sentir sozinha.
O que os dados sobre a mortalidade demonstram
As consequências da solidão afetiva, quando persistente, são fisicamente mensuráveis. Julianne Holt-Lunstad e seus colegas da Universidade Brigham Young publicaram, em 2015, na revista *Perspectives on Psychological Science*, a meta-análise mais abrangente sobre o tema. A equipe agrupou dados de 70 estudos independentes, envolvendo mais de 3,4 milhões de participantes em diversos países, controlando fatores de confusão conhecidos.
Os resultados foram surpreendentes. A solidão subjetiva estava associada a um aumento de **26%** no risco de mortalidade precoce, enquanto o isolamento social objetivo, definido como viver sozinho ou ter muito poucos contatos sociais, estava associado a um aumento de **29%** no risco. Viver sozinho, especificamente, estava ligado a um aumento de **32%** no risco.
Os três fatores de risco eram correlacionados, mas não idênticos, e cada um permaneceu estatisticamente significativo após ajuste para os outros.
A interpretação comum desses resultados compara o risco de mortalidade associado à solidão ao de fumar quinze cigarros por dia, o que, à primeira vista, fornece uma ideia bastante precisa. Contudo, essa interpretação oculta uma descoberta científica muito mais interessante.
Os dados de Holt-Lunstad demonstram que o efeito da solidão subjetiva na mortalidade, ou seja, o que uma pessoa sente quando se sente sozinha emocionalmente, é estatisticamente distinto do isolamento objetivo. As pessoas que se sentem sozinhas morrem mais jovens do que aquelas que não vivem essa condição, independentemente de viverem sozinhas ou não, de serem socialmente ativas ou não, e de terem laços familiares significativos ou não.
A interpretação mais convincente dos dados sobre mortalidade é que o que prejudica a saúde humana não é a falta de companhia, mas a inexistência de **vínculos afetivos** próximos.
A resposta atual em saúde pública

No dia 15 de novembro de 2023, a Organização Mundial da Saúde lançou uma Comissão sobre Conexões Sociais, com uma duração de três anos, considerando a solidão como um problema de saúde pública global. Esta comissão é copresidida pelo Dr. Vivek Murthy, cirurgião geral dos Estados Unidos, e Chido Mpemba, enviada especial da União Africana para a juventude.
No mesmo ano, o Dr. Murthy publicou, na sua qualidade de representante dos EUA, um relatório de 81 páginas intitulado “A nossa epidemia de solidão e isolamento”, descrevendo a solidão como uma crise de saúde pública comparável a grandes epidemias de dependências e doenças crônicas das últimas décadas.
Segundo os dados em que este relatório se baseia, cerca de **metade dos adultos americanos** relataram sofrer de uma solidão profunda.
A abordagem de saúde pública à solidão comporta uma implicação significativa que a abordagem atual de bem-estar tende a obscurecer. A distinção de Weiss indica que a epidemia de solidão não pode ser mitigada apenas encorajando interações sociais.
As intervenções que promovem a participação social, de acordo com as evidências mais sólidas até à data, enfrentam a solidão social, mas não a solidão afetiva. O risco de mortalidade que preocupa a OMS deve-se, à luz dos dados de Holt-Lunstad, em grande parteà solidão afetiva, que não responde a tratamentos convencionais.
Limites honestos

A distinção de Weiss foi proposta inicialmente com base em dados clínicos. Apesar de investigações quantitativas subsequentes terem confirmado essa distinção, os instrumentos de medição utilizados para diferenciar a solidão emocional da solidão social nem sempre convergiram para definições operacionais idênticas.
Diferentes equipas de investigação utilizaram diversas escalas, e as fronteiras entre solidão emocional e social, assim como entre solidão e conceitos relacionados, como **depressão** e **ansiedade social**, nem sempre estão claramente definidas.
Os dados sobre mortalidade, embora confiáveis, são correlacionais. Estudos revisados por pares mostram uma forte associação entre solidão e mortalidade precoce, mesmo após controlo de fatores de confusão conhecidos, mas os mecanismos causais ainda estão por elucidar.
A hipótese mais plausível atualmente sugere que a solidão crónica induz uma ativação fraca e prolongada dos sistemas de resposta ao estresse e de deteção de ameaças, o que, com o tempo, prejudica as funções cardiovasculares e imunitárias, perturba a arquitetura do sono e desencadeia a inflamação.
O que isto implica

Vários pontos decorrem desta perspetiva mais nuançada sobre a solidão e merecem ser claramente enunciados.
Primeiramente, sentir-se só mesmo rodeado de pessoas amadas não é, segundo os dados mais sólidos até hoje, um sinal de ingratidão ou disfunção relacional. Trata-se da resposta de um sistema biológico que evoluiu para necessitar de **formas específicas** de conexão emocional, e que detecta a ausência ou disfunção de uma dessas formas, independentemente da qualidade das outras conexões presentes. Esta experiência é real, mensurável e explicável.
Em segundo lugar, o conselho habitual para as pessoas sozinhas, de multiplicar os contactos sociais, resolve apenas metade do problema. Enquanto as pessoas a sofrer de solidão social se beneficiam da adesão a associações, da expansão do seu círculo social e de uma maior participação na vida comunitária, as que padecem de solidão afetiva precisam de algo diferente: a criação ou reparação de umlaço de apego profundo. Estas duas experiências não são intercambiáveis.
Por último, e segundo a interpretação mais convincente de cinquenta anos de experiência, o remédio para a solidão afetiva não reside no aumento do número de pessoas à sua volta. Trata-se antes de estabelecer uma relação diferente com as pessoas já presentes ou com novas, caso estes laços não possam ser reatados com relações existentes.
Este processo é mais difícil do que apenas ingressar numa associação, e é precisamente este o verdadeiro problema que a ciência pede ao sistema de saúde pública para começar a abordar.
Este artigo é apresentado a título informativo e de reflexão. Não constitui, de forma alguma, um aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As noções aqui apresentadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, não decorrendo de uma avaliação clínica. Para a sua situação particular, consulte um profissional qualificado.




