A aposentadoria pode trazer um sentimento de **solidão** que vai além da simples falta de contactos. As primeiras semanas de liberdade podem parecer estranhamente calmas, quase **irreais**. O tempo deixa de ser medido por horários estabelecidos, e os dias perdem os seus referenciais habituais. Inicialmente, pensa-se que esta liberdade será fácil de **dominar**, mas, lentamente, algo mais insidioso se instala. O silêncio matinal adquire uma **densidade** nova e diferente do que vivenciámos nas férias. Gestos Cotidianos tornam-se, às vezes, o catalisador de **pensamentos inesperados**.
O café matinal tem um outro **sabor** quando percebemos que nem a ausência de colegas nem uma agenda vazia são a causa da nossa sensação de **perda**, mas sim a **consciência** de que, durante quarenta anos, o nosso título de trabalho respondeu à pergunta “Quem sou eu?”.
Já reparou na expressão de alguém quando anuncia a sua aposentadoria? Existe uma hesitação, um instante em que o sorriso não chega a alcançar os olhos, e a palavra “aposentado” paira no ar como uma questão sem resposta.
Tomemos o exemplo de alguém que trabalhou quase quarenta anos no setor bancário, sempre na mesma instituição. Meses após a saída, continuava a acompanhar atentamente as notícias da antiga empresa, como se ainda estivesse **inserido** nela.
Surpreendia-se até a **oferecer ajuda** durante um evento, por mero reflexo. Isto não se tratava de uma questão material, mas da **falta de um papel**, de uma posição definida dentro de um contexto maior.
A crise de identidade que ninguém avisa

Uma das marcas da **psicologia da aposentadoria** é que a sociedade prepara financeiramente os indivíduos, mas negligencia o **terremoto existencial** que pode ocorrer. Pense connosco: durante quatro décadas, uma pessoa acorda a saber quem é. É gestora de projeto, professora ou contadora. Tem um título, um escritório, um papel reconhecido e validado pela sociedade. Então, numa sexta-feira à tarde, entrega o seu cartão de acesso e, num instante, confronta-se: e agora, quem sou eu?
Liu Ping Chen, do departamento de psiquiatria da Universidade de Ulsan, expõe a situação de forma clara:
« A aposentadoria pode diminuir ou eliminar estas fontes de **reconhecimento**, resultando numa diminuição da **autoestima**. »
Não é a falta dos **pausados cafés** com colegas que causa a tristeza. É a sensação de **perda de si mesmo**.
Quando o trabalho se torna a sua autobiografia
Recorda-se de quando era criança e os adultos lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande? Ninguém lhe perguntava quem queria **tornar-se**. A questão era sempre sobre trabalho, profissão, contribuição à economia.
Quarenta anos após, é óbvio que esta **educação** infantil cumpriu o seu propósito. O trabalho não apenas permitiu pagar as contas; estruturou toda a vida.
O surpreendente é que um estudo publicado na Current Psychology revela que trabalhadores mais velhos, muito envolvidos nas suas empresas, esperam viver uma transformação significativa na sua identidade aquando da aposentadoria, evidenciando o papel fundamental do trabalho na construção do eu.
Em suma, quanto mais se amava o trabalho, mais difícil se torna a aposentadoria. É como perder um membro do corpo de que não se conhecia a **utilidade**.
Artigos mais lidos sobre S & N:
O perigoso conforto de um objetivo emprestado

Este cenário torna-se evidente em casos como o de uma **executiva** que aceitou um pacote de rescisão aos cinquenta e oito anos. Em três meses, já tinha reorganizado toda a sua casa duas vezes, começou quatro novos hobbies e quase deixou o seu marido à beira do desespero com o seu **comportamento**.
Na verdade, ela procurava algo que o trabalho sempre lhe proporcionou: uma **razão** para se levantar de manhã sem ter que a inventar.
O psicólogo Mark Travers resume muito bem essa ideia: « A aposentadoria pode ser vista mais como uma **queda** do que como uma escolha, uma perda de um título que dava sentido à vida. »
O conforto de um **objetivo** emprestado reside no fato de que uma pessoa nunca tem de enfrentar a pergunta assustadora sobre o que realmente deseja dar à sua vida. O trabalho responde por ela, de segunda a sexta, das nove às cinco.
Por que a solidão após a aposentadoria é diferente?
Há a solidão comum, e depois há a solidão da aposentadoria. A solidão ordinária é a **falta** de outros; a solidão da aposentadoria é a **falta de si mesmo**.
Imagine uma pessoa com vinte anos, trabalhando num armazém, movendo televisores o dia todo. Pode sentir-se perdida e sem **propósito**, mas ao menos sabe que está à procura de algo. Os aposentados, por sua vez, muitas vezes só percebem o que perderam meses ou até anos após a aposentadoria.
Um estudo do Instituto Demográfico Interdisciplinar dos Países Baixos aponta que os aposentados frequentemente lamentam certos aspectos das suas vidas profissionais, como **contactos** sociais e status, demonstrando o forte vínculo entre trabalho e identidade.
Porém, o que essa pesquisa não capta é o **vertigem** da liberdade. Quando cada dia está à sua disposição para **criar**, quando não há patrão à espera, prazos a pressionar, nem reuniões agendadas, o único companheiro que resta é o mais desestabilizador de todos: você mesmo.
O mito dos **anos dourados**

« A aposentadoria é uma invenção ocidental de outro tempo, baseada em suposições incorretas de que queremos e podemos permitir-nos não fazer nada », escreve Neil Pasricha.
Reflita sobre isso por um momento. A sociedade construiu toda uma fase da vida em torno da ideia de que não fazer nada é a **recompensa** por quarenta anos de trabalho.
Contudo, o ser humano não foi feito para o **vazio**. Ele é feito para dar **sentido** à sua vida, para contribuir, para **evoluir**.
A filosofia oriental oferece uma perspectiva diferente: o objetivo não é alcançar um estado em que se pode finalmente parar; é um **devir** contínuo, uma contribuição contínua, um crescimento contínuo.
Recupere o controle da sua narrativa

O que acontece quando o trabalho deixa de escrever a sua **história**?
Você pega a caneta.
Não se trata de uma questão moralizadora. O que se pretende compreender é que a aposentadoria não significa uma **perda de identidade**; trata-se de descobrir que a identidade nunca foi apenas o trabalho.
As pessoas que conseguiram uma felicidade real na aposentadoria têm algo em comum: conseguiram reconstruir um sentido nas suas rotinas, fora do trabalho, redefinindo o que lhes dá uma razão para se levantar de manhã.
Este artigo é apresentado apenas para fins informativos e de reflexão. Não constitui aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As ideias apresentadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, não resultando de uma avaliação clínica. Para sua situação particular, consulte um profissional qualificado.




