Os **sistemas de recompensa** tornaram-se comuns na educação contemporânea. Muitas famílias recorrem a quadros de comportamentos, fichas ou aplicações que atribuem pontos para incentivar ações desejáveis. Estas ferramentas são frequentemente vistas como eficazes a curto prazo para motivar crianças e estão enraizadas na psicologia comportamental. No entanto, levantam questões sobre o que as crianças realmente compreendem sobre o conceito de **”agir corretamente”**.
A reflexão de educadores sobre os efeitos a longo prazo dessas abordagens
Numa creche, um menino de quatro anos recebe uma estrela sempre que ajuda um colega ou partilha um brinquedo. Nos primeiros meses, ele participa com entusiasmo nas atividades. Contudo, à medida que cresce, por volta dos cinco ou seis anos, os educadores notam que ele compartilha com menos espontaneidade quando não há recompensa esperada. Este fenómeno, observado em contextos semelhantes, intriga os profissionais da educação, ainda que os seus mecanismos não sejam facilmente identificáveis.
Emmanuel Kant, filósofo do século XVIII, já refletia sobre os impactos da recompensa e da punição na formação do caráter. Em suas considerações sobre pedagogia, ele alertava para uma educação baseada exclusivamente em incentivos externos. Segundo Kant, uma criança que age apenas para obter vantagem pode não desenvolver uma verdadeira autonomia moral. Ele defendia que a educação deveria gradualmente levar o indivíduo a agir por princípio e não por interesse.
O aviso baseado nos ensinamentos de Kant
Se uma criança é sistematicamente recompensada pelos bons comportamentos e punida pelos maus, corre o risco de associar a ação moral a um simples cálculo de interesses. Ao tornar-se adulta e confrontada com situações onde a justiça nem sempre é recompensada, pode passar a raciocinar principalmente em termos de benefícios pessoais. A formulação exata dessa ideia varia nas fontes, e é importante notar que a citação que circula online é uma paráfrase, e não um extrato autêntico dos textos de Kant.
O propósito desta reflexão não é descartar todas as formas de recompensa na educação, mas sim distinguir entre o que motiva temporariamente um comportamento e o que constrói uma consciência moral duradoura. Para Kant, uma ação só tem valor moral se for realizada por dever, e não por interesse. Esta distinção permanece no centro de muitas discussões contemporâneas sobre a educação das crianças e a formação do juízo moral.
A visão de Kant sobre sistemas de recompensa

Quando uma criança recebe uma recompensa por partilhar ou é privada de tempo de tela por agredir alguém, aprende a associar o seu comportamento às consequências. O que não aprende, segundo Kant, é porque partilhar é importante ou porque fazer mal a alguém é errado, além do custo pessoal.
Kant acreditava que esta abordagem trazia uma mentalidade **transacional**. A questão muda de “Qual é a coisa certa a fazer?” para “O que vou obter se o fizer?”. Esta alteração, embora sutil, torna-se mais evidente quando as recompensas cessam e o comportamento se deteriora. A alternativa de Kant baseava-se no que ele chamava de **dever**. Uma ação só tem valor moral se realizada porque é justa, e não porque proporciona prazer, evita dor ou garante vantagem.
Em seus Fundamentos da Metafísica dos Costumes, publicados em 1785 e disponíveis em formato digital, defendia que um ser racional reconhece a obrigação moral apenas pela razão. Sem recompensa. Sem ameaça de punição. O valor moral de uma ação reside inteiramente na sua motivação.
Pesquisas que Kant não pôde realizar
A psicologia moderna confirmou um mecanismo que Kant já tinha identificado, embora à época não pudesse realizar experiências controladas. Em um estudo de 1973 publicado no Journal of Personality and Social Psychology, os pesquisadores Mark Lepper, David Greene e Richard Nisbett dividiram crianças em três grupos. O primeiro grupo foi informado que receberia uma recompensa por seus desenhos. O segundo grupo recebeu uma recompensa inesperada após desenhar. O terceiro grupo não recebeu nenhuma recompensa. Mais tarde, durante uma sessão de brincadeira livre, o grupo que esperava a recompensa passou duas vezes menos tempo desenhando do que os outros dois grupos.
O estudo não provou que as recompensas diminuem a motivação, mas sim que as recompensas esperadas prejudicam a motivação intrínseca. As crianças que desenhavam por prazer continuaram a fazê-lo, enquanto aquelas que desenhavam em busca de uma recompensa prometida pararam assim que a recompensa desapareceu.
Esse comportamento era adquirido, não inato. Edward Deci e Richard Ryan, da Universidade de Rochester, dedicaram décadas a aprofundar essas descobertas. Em uma meta-análise publicada em 1999 no Psychological Bulletin, Deci, Ryan e Richard Koestner examinaram 128 estudos e confirmaram que recompensas materiais reduzem significativamente a motivação intrínseca relacionada à livre escolha.
Esse efeito era mais acentuado em crianças. A conclusão não era que as recompensas são desnecessárias, mas que elas promovem a submissão, não o comprometimento. Uma criança que devolve uma carteira perdida porque um pai prometeu um gelado não agiu de forma honesta; ela apenas calculou se o gelado valia a pena.
A alternativa exigente de Kant

Kant não propôs aos pais um método mais fácil. Ele sugeriu uma norma mais exigente. A **lei moral**, afirmava ele, deve ser autoimposta. Ele formulou o imperativo categórico, princípio pelo qual se deve agir apenas de acordo com regras que poderiam se tornar leis universais. A questão a ser colocada não é o que se vai ganhar, mas se se deseja que todos ajam da mesma forma.
Durante suas aulas de pedagogia na Universidade de Königsberg, Kant reconhecia que as crianças muito pequenas não conseguem compreender conceitos morais abstratos, mas enfatizava que a educação moral deve, desde o início, orientar a criança para o dever, mesmo que ela ainda não possa explicá-lo. O objetivo é formar um caráter íntegro, capaz de se sustentar sem apoio externo.
É aqui que a filosofia de Kant se choca com a realidade de uma cozinha às 7 horas da manhã. Um pai que usa uma aplicação de acompanhamento comportamental para gerir a manhã participa de um sistema que Kant condenaria. Esse mesmo pai pode não ter a disponibilidade mental para um raciocínio moral antes do pequeno-almoço. A crítica filosófica é clara. A alternativa prática, no entanto, não é.
Como os especialistas modernos em parentalidade divergem de Kant
O psicólogo do desenvolvimento William Damon, ex-diretor do Centro Stanford sobre a adolescência, refutou o absolutismo kantiano. Em seu livro de 1988, O Filho Moral, Damon argumenta que o desenvolvimento moral segue uma sequência progressiva. As crianças precisam de um acompanhamento respeitoso e adequado à sua idade, e não de um condicionamento rígido ou de considerações filosóficas abstratas. Ele afirma que “nenhum aprendizado mecânico ou doutrinação preparará as crianças para a diversidade de situações que enfrentarão na vida”.
Damon teme que a solução kantiana exija capacidades cognitivas que as crianças ainda não possuem e uma constância parental que a maioria dos adultos não consegue garantir.
A Dra. Becky Kennedy, psicóloga clínica e fundadora da plataforma parental Good Inside, chegou a uma conclusão semelhante através de sua prática clínica. Ela iniciou sua carreira usando modelos de recompensa e punição, e percebeu que eram “terríveis tanto para crianças quanto para pais”. Sua abordagem alternativa baseia-se na teoria do apego, na atenção plena, na regulação emocional e na teoria dos sistemas familiares internos.
O modelo de Kennedy partilha a desconfiança de Kant em relação a uma educação transacional, mas substitui a abstração do dever por uma conexão e uma liderança assertiva. Onde Kant pedia à criança que raciocinasse com base em uma lei universal, Kennedy convida o pai a perceber a criança por trás do comportamento.
O seu modelo não pretende resolver o problema de Kant

Ele visa tornar esse problema mais gerenciável dentro de um lar real. Kennedy lançou Good Inside com sua colega Erica Belsky em 2020; essa plataforma traduz conceitos psicológicos complexos em estratégias concretas para pais que não são filósofos e crianças que não são meramente seres racionais.
A tensão entre o ideal kantiano e os dados das ciências do desenvolvimento não é irreconciliável porque os pesquisadores continuam a debater. Ela é por conta de que os dois objetivos — desenvolver um senso moral e permitir que as crianças vivam um dia comum — constituem projetos distintos.
As recompensas geram uma obediência imediata, mas a um custo. A alternativa kantiana exige uma maturidade que se desenvolve lentamente, de forma irregular e sem um cronograma fixo. A pesquisa confirma os receios de Kant, mas não facilita a implementação de sua solução.
Este artigo é fornecido a título informativo e reflexivo. Não constitui de forma alguma um conselho médico, psicológico ou profissional. As noções abordadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.




