10 habilidades das crianças de 10 anos das décadas de 70/80 quase desaparecidas hoje

Por vezes, um simples cheiro, uma canção ou uma imagem podem fazer ressurgir toda uma parte da nossa infância. Ao relembrá-la, percebemos quão diferente era o nosso quotidiano: embora parecesse mais livre, também era repleto de desafios. Recorda-se da época em que os miúdos saíam de casa logo após o pequeno-almoço e só regressavam ao cair da noite, sem que ninguém se alarmasse? Onde a iluminação pública servia como toque de recolher e onde dávamos os primeiros passos na autonomia, simplesmente porque não havia outra alternativa? Crescer nos anos 70 ou 80 em Portugal significava aprender as lições da vida por necessidade, e não através de tutoriais online ou conselhos retirados das redes sociais.

Esses lembranças voltam frequentemente à minha mente, especialmente ao observar as crianças de hoje, que evoluem num mundo bem diferente do que conhecemos. O seu quotidiano é mais estruturado, mais seguro e também mais interligado. As competências que adquirimos antes de completarmos dez anos parecem-lhes, às vezes, surpreendentes, quase irreais. Não porque não sejam capazes, mas porque os seus ambientes atuais não estimulam o desenvolvimento destas habilidades da mesma maneira que os nossos.

Não se trata aqui de cair na nostalgia ou de idealizar o passado. Cada época traz desafios e riquezas próprias. Contudo, é intrigante notar como esses aprendizados precoces marcaram profundamente a nossa geração, influenciando a nossa forma de resolver problemas, estabelecer relações e lidar com o inesperado. Esta experiência moldou a nossa autonomia, o nosso sentido de responsabilidade e a nossa capacidade de adaptação.

1. Cumprir promessas e respeitar compromissos

Imagens Pexels

Sem telemóveis, quando marcávamos um encontro para as 15h no campo de futebol, estávamos lá a tempo. Não havia mensagens para avisar de atrasos ou para adiar no último minuto. Um compromisso era um compromisso.

Isto ensinou-nos a ser fiáveis e a respeitar o tempo dos outros. Assim, antecipávamos imprevistos: quanto tempo esperar? Onde nos encontrar caso nos falhássemos? Desenvolvíamos naturalmente um sentido de organização.

2. Gerir o dinheiro e dar troco

“São 2 escudos e 10 cêntimos. Deste-me 5 escudos, aqui estão 2 escudos e 90 cêntimos de troco.” Fazíamos este tipo de contas mentais mais rápido do que uma calculadora. As idas à padaria da esquina para comprar rebuçados transformavam-nos em verdadeiros campeões do cálculo.

A minha mãe enviava-nos à loja com a quantia exata num envelope e uma lista precisa.

Se os preços mudassem, tínhamos que nos adaptar. Era impossível telefonar para casa ou concluir as compras com um cartão: tínhamos que calcular no imediato e voltar com o troco correto.

3. Encontrar o caminho sem GPS

Memorizar pontos de referência, nomes de ruas e até mesmo a posição do sol, eram algumas das estratégias que utilizávamos. Perder-se significava ter que se desenrascar sozinho ou pedir informações a estranhos. Não havia um ponto azul no ecrã que mostrasse a nossa localização: era preciso observar e refletir.

Lembro-me de, aos 8 anos, ter andado de bicicleta até casa de uma amiga no outro lado da cidade, e de ter demorado quase uma hora a encontrar o caminho de volta.

Essa experiência ensinou-me muito mais sobre orientação e resolução de problemas do que qualquer aplicativo poderia fazer. Hoje em dia, mesmo com GPS ativo, ainda instintivamente identifico os marcos ao descobrir um novo lugar.

4. Saber consertar objetos com algumas ferramentas

A corrente da bicicleta caía? Colocávamo-la de novo no lugar. A antena da televisão precisava de ser ajustada? Alguém subia ao telhado. A torneira que gotejava? Apertávamos o anel ou arranjávamos uma solução com o que tínhamos à mão.

Aprendemos a lidar com chaves de fenda, martelos e alicates desde cedo.

Crescer numa família de classe operária com vários filhos significava que os objetos se estragavam frequentemente… e que tínhamos que os consertar nós próprios.

O meu pai chegava a casa do trabalho cansado, mas sempre encontrava tempo para nos ensinar a reparar um pneu ou apertar uma maçaneta. Ele costumava dizer que **não são as ferramentas que consertam, mas o saber-fazer**.

5. Resolver conflitos sem a intervenção de um adulto

No recreio, as desavenças eram frequentemente resolvidas entre nós. Os adultos não intervinham a cada desentendimento.

Assim, descobríamos as consequências dos nossos atos.

Empurrar alguém longe demais tinha uma reação. Quebrar um brinquedo obrigava a consertar ou substituir. Isso desenvolvia o sentido de responsabilidade e competências reais em gestão de conflitos.

6. Ler um mapa e seguir instruções escritas

As viagens de carro exigiam que alguém segurasse um grande mapa rodoviário, anunciasse as saídas e identificasse as direções.

Aprendíamos a distinguir o norte do sul, a estimar distâncias e a compreender símbolos.

Dobrar corretamente um mapa em viagem era quase um feito. Mas, acima de tudo, desenvolvíamos o nosso sentido de orientação e a capacidade de visualizar um percurso na totalidade, em vez de seguir apenas uma sequência de instruções.

7. Esperar sem distrações

À espera de consultas médicas, idas ao dentista, longas viagens de carro ou nas filas do supermercado, tínhamos que esperar. Sem telemóveis, sem tabletas, sem consolas portáteis.

Aprendemos a estar sozinhos com os nossos pensamentos, a observar e a praticar a paciência.

Essa capacidade de existir sem uma estimulação constante, de nos aborrecer, frequentemente fomentava a criatividade e ajudava-nos a dominar as nossas emoções sem distração.

8. Usar cabines telefónicas e memorizar números

Cada criança conhecia de cor o seu número de telefone fixo, o do seu melhor amigo e alguns outros.

Conservávamos sempre moedas para as cabines telefónicas e sabíamos quais funcionavam.

Isso exigia antecipação e ingeniosidade. Era impossível enviar uma mensagem a alguém para que nos fosse buscar: tínhamos que encontrar uma cabine, ter moedas e conhecer o número a discar.

9. Divertir-se sem ecrãs

O aborrecimento fazia parte do quotidiano, e era necessário ser criativo. Construíamos cabanas, inventávamos jogos, apreciávamos as nuvens. Aprendíamos a criar a partir do nada.

Um professor de Harvard especialista em liderança, Arthur Brooks, mostrou que o tédio é fundamental para o pensamento crítico.

Partilhar um quarto com irmãos implicava negociações contínuas.

Transformávamos caixas em naves espaciais e inventávamos regras improváveis.

Saber divertir-se sozinho é um músculo que se exercita, e nós o fazíamos diariamente. Pesquisas apontam que crianças pequenas que recebiam telas para se acalmarem acabam, mais tarde, com dificuldades em regular as suas emoções.

10. Falar com adultos e estranhos

Conversávamos ao telefone sem saber quem ligava. Interagíamos com vizinhos, comerciantes e pais dos nossos amigos.

Aprendíamos a olhar as pessoas nos olhos, a adaptar o nosso tom e a manter uma conversa com indivíduos de todas as idades.

Para além dos bons modos, isto ensinava-nos a decifrar sinais sociais e a ganhar segurança.

Telefonar a um amigo muitas vezes significava primeiro ter que conversar com um pai ou um irmão, um excelente exercício de educação e comunicação.

Últimas reflexões

Estas competências não eram meras habilidades práticas. Representavam a base da nossa independência, resiliência e autonomia.

Aprendíamos pela experiência, errando, ajustando e buscando soluções por nós mesmos.

Não afirmo que tudo era melhor antes. As inovações tecnológicas e a ênfase na segurança atualmente são, sem dúvida, relevantes.

Mas o fato de termos que nos desenrascar com o nosso bom senso e com o que tínhamos nos bolsos ensinou-nos algo essencial.

Talvez a habilidade mais duradoura que desenvolvemos tenha sido a **adaptabilidade**, e, ao refletir, percebo que essa permanece mais imprescindível do que nunca.



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