Voltaram as Fabulosas Noturnas do Campo Pequeno

Não poderia ter tido melhor arranque a temporada taurina Lisboeta. Casa esgotada, muito expectativa antes e muita satisfação no final.

É assim que tem que ser, deixando de parte os conceitos, a primeira conclusão foi essa mesmo: praça esgotada, vitória da Tauromaquia.

A segunda conclusão e posso estar enganado e até mesmo dizer um disparate, mas não me recordo de um ídolo taurino, com a dimensão que Padilla conquistou no Campo Pequeno, desde Manuel Benítez, “El Cordobés” nos anos 60.

Dentro do seu conceito, no toureio que leva dentro, Padilla nunca defrauda e o público manifesta-se, transmite para as bancadas aquilo que se passa no ruedo.

Mas comecemos pelo princípio. A temporada lisboeta arrancou com uma lotação esgotada com o cartel anunciado de João Moura, Juan José Padilla e a apresentação de Andrés Roca Rey, Forcados Amadores de Vila Franca de Xira e touros de Vinhas (encaste Santacoloma, linha Buendía) para cavalo, e Herdeiros de Varela Crujo (Juan Pedro Domecq) para pé.

João Moura abriu a noite com disposição, colocando-se à porta gayola, pena que o touro não tenha correspondido ao cite, Moura imediatamente começou a lidar, sem ajudas, submetendo o Vinhas, muito no tipo Buendía, touro com classe, com tranco, nobreza e fixação, talvez um pouco pegajoso no inicio e nas distâncias mais curtas, de largo transmitia mais e galopava. Pequeno susto para João Moura quando o cavalo escorregou, a nobreza do toiro e a pronta ajuda de bandarilheiros e civis permitiram que não passasse de apenas um susto. Lide bem construída, que nunca acabou de explodir.

O primeiro da noite foi pegado pelo Cabo dos Amadores de Vila Franca de Xira, Ricardo Castelo, sereno no brinde e no cite, pega à segunda tentativa, na primeira o touro sai-lhe muito solto e de largo, Ricardo não mandou na sua investida e a reunião foi mais descomposta. Na segunda tentativa e já noutros terrenos, mandou e templou, reunindo com segurança para fechar uma pega bem ajudada, como é apanágio dos Amadores de Vila Franca de Xira.

No segundo, primeiro de Padilla começou a loucura, de facto é contagiante a relação entre Juan Jose e o público, um touro de Varela Crujo bem feito, baixo, com pescoço, muita nobreza e transmissão, bandarilhado com brilhantismo pelo toureiro de Jerez de la Frontera, na muleta, melhor pelo lado esquerdo, talvez tenha ficado sumo por espremer, mas o conceito de Padilla é assim e temos de aceitar, depois de duas tandas pela direita e uma ao natural e já com o touro “metido no bolso” começou com os adornos que levaram à loucura do público. Touro premiado com volta ao ruedo, muito aplaudido pelos aficionados mais atentos e depois da recolha aos currais, duas voltas ao ruedo de Padilla, acompanhado do Ganadeiro, responsável pela categoria, classe e bravura do Varela Crujo.

O terceiro da noite tocou a Roca Rey, toureiro que se apresentava em Lisboa. Embora seja difícil compartir cartel com Padilla em Lisboa, e tenham conceitos distintos, Roca esteve apagado, é certo que o touro e mesmo o seu lote por completo foi o menos luzido, mas a disposição do toureiro também não foi a maior, faena curta, informal e com pouco que se lhe possa realçar.

No quarto voltou Moura e um Vinhas, touro mais parado, com menos transmissão e que obrigou o Cavaleiro a puxar dos recursos, destacam-se dois ferros da porta dos curros para a dos cavalos, em terrenos de compromisso. Muito esforço e entrega de Moura, com pouca recompensa do público. O quarto da noite foi pegado igualmente à segunda, por Rui Godinho, um touro tardo na investida e no arranque, talvez menos fechado em tábuas e colocado mais para o burladero do setor 4, tivesse custado menos a sair, assim o forcado teve que entrar por ele, na primeira e segunda tentativas o touro sai com brusquidão fazendo com que a reunião tenha sido deficiente, o forcado veio encornalado num piton, na primeira rodou e saiu, na segunda e bem ajudado rapidamente, ficou e consumou a pega. Nunca é demais realçar o labor de Carlos Silva, veterano rabejador, que faz o difícil parecer fácil.

Estava tudo à espera do quinto e de Padilla, um Varela Crujo que veio de menos a mais, cresceu no final da lide, com mais mobilidade do que classe, humilhava pouco, mas mexia-se e transmitia, bandarilhado com a personalidade do Pirata, depois na muleta voltou a provar ambos os pitons, quando se sentiu a gosto, recorreu aos adornos, proximidades, pitons a passarem na cara, pernas, e o resultado foi mais uma vez a explosão da praça. Morte simulada no centro do ruedo, três voltas à arena, terceira Porta Grande e consagração de um ídolo.

No sexto e último, touro bonito, bem feito, pouca transmissão, rachou cedo, ao segundo muletazo virava a cara e procurava refúgio, Roca Rey esteve mais disposto que no primeiro, quis tourear, mas faltou touro, quem sabe se tem tido esta atitude no primeiro o resultado não tinha sido diferente.

Escutou-se o Hino e viu-se Padilla sair em ombros, pela terceira vez consecutiva, aclamado pelo povo. A primeira foi assim, venham as próximas, o Campo Pequeno já mexe.

 

foto:campopequeno

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