Viagem a um paradoxo taurino

Crónica

Madrid, por San Isidro, a chamada capital mundial da Tauromaquia. Um mês consecutivo de Toiros na Monumental de “Las Ventas”, a Praça a que se atribui o máximo poder de construir e destruir carreiras, de levantar ou baixar “cachets”, fruto da importância que lhe é conferida pela exigência do toiro e do público.

Todo o aficionado sonha poder assistir um dia a uma ou mais corridas na mítica arena, mesmo aquele, como eu, algo desconfiado da sua real “seriedade” e papel de “farol” e barómetro do estado da Festa, no que à lide apeada diz respeito. Foi assim que, com moderada ilusão, empreendi este ano uma viagem de uma semana para assistir às corridas dos dias 13, 15 e 17 de Maio. Na escolha destes cartéis influiu, desde logo, a tentativa de evitar os tradicionais ambientes contrários nas tardes de grandes Figuras e ganadarias mais “comerciais”, procurando eleger ternas de Matadores que respeitassem (e que, sobretudo, fossem respeitadas) o flutuante gosto da afición madrilena, acompanhadas igualmente de “ferros” considerados mais encastados ou, pelo menos, que merecessem um maior beneficio da dúvida por parte do público da Monumental.

Surgiram assim, naturalmente, os nomes de Diego Urdiales, David Mora e José Garrido, frente a toiros de “El Pilar”, na primeira tarde, de Curro Díaz, Paco Ureña e López Simón, enfrentando-se à ganadaria de “Montalvo”, na segunda e, por último, de “El Fandi”, Miguel Ángel Perera e José Garrido, anunciados com o ferro de “Fuente Ymbro”.

Não me vou alongar muito na descrição do visto em cada um dos três festejos, uma vez que os respectivos apontamentos já foram dados à estampa aqui no “Tauronews” e existem crónicas bastante completas e elucidativas noutros sites espanhóis da especialidade. Mais do que isso interessa-me realmente reflectir sobre o ambiente que se vive desde há vários anos na Praça de “Las Ventas”, refém de um pequeno grande grupo que ocupa o famoso Tendido 7 e parte do 6, em que impera o fundamentalismo, a intransigência, o constante vociferar e, definitiva e paradoxalmente, um profundo desrespeito pelo ritual taurino e por todos os seus intervenientes, toiros, toureiros e restante público.

Os paradoxos de Madrid e dos seus entendidos…

A ditadura da “tablilla” dos pesos e das caras abertas e pítons infinitos, sem qualquer consideração por encastes e morfologias, originando um interminável desfile de toiros no limite das forças, por simplesmente não suportarem as anti-naturais “hechuras” que lhes são impostas, para passarem nos reconhecimentos veterinários, sempre temerosos do julgamento do “7”. Um público que vai à praça com lenços verdes nos bolsos, de forma a pedir as constantes devoluções de reses ao mínimo sinal de fraqueza, ignorando ou querendo ignorar (não sei o que é pior) que é sua a principal responsabilidade de que assim se apresentem.

Uma massa ululante que exibe constantes cartazes a pedir respeito e integridade da Festa, mas que não se coíbe de pregar a mais monumental, mal educada e injusta bronca a que assisti numa Praça (vi garrafas serem arremessadas para a arena) a David Mora, um homem que ainda há um par de anos atrás quase deixava a sua vida naquele mesmo cenário para o ano passado renascer e tornar-se num dos grandes triunfadores da Feira.

Gente que defende o toureio de sempre, puro, de dominar e embarcar as investidas, concedendo as máximas vantagens ao animal, independentemente da sua facilidade ou clareza, desde que esse toureio não seja executado por “El Fandi”, ao qual, após uma orelha injustamente negada por um Presidente igualmente refém do preconceito, rejeitaram inclusivamente a possibilidade de uma volta à arena, maioritariamente pedida pela restante Praça. Anteriormente, a Curro Díaz, toureiro de muitos quilates, mas que não passou de estar “pinturero” em alguns passes de adorno a um toiro “Escandaloso”, tudo foi exaltado e aplaudido. Mas, lá está, manda de forma total o preconceito, o dogma e o maneio mais ou menos avulso de duas ou três ideias fixas (com o cruzar-se ao píton contrário a ser rei e senhor), por mais que o visto na arena o contradiga. A isto se chama, lamento, fundamentalismo…

Vi um Paco Ureña a que só prestaram real atenção após uma feia colhida contra as tábuas, despertando mais o morbo e a heroicidade de sortear as incertas investidas, do que propriamente o desejo de ver tourear. Diego Urdiales, Miguel Ángel Perera e López Simón andaram à deriva, desanimados ante o péssimo ambiente, sem pena nem glória, os primeiros face às nulas possibilidades dos seus oponentes e o segundo, a quem o traje de luzes cada vez lhe parece pesar mais, mormente numa Praça como “Las Ventas”. A Garrido, que demonstrou sempre uma entrega total e foi responsável pela maioria dos momentos de bom toureio que se viram durante estas três tardes, ajuda-o não ter atingido, por enquanto, o estatuto de Figurão que se lhe intui, pelo que ainda foi merecedor dos raros momentos de respeito por parte do público que me foram dados a apreciar.

Madrid é cidade bonita, monumental e imponente, de grandes avenidas e, simultaneamente, de pequenos e acolhedores bairros e recantos, que convidam, acima de tudo, a passear e desfrutar das suas ruas. Mas é também uma gigante, efervescente e stressante metrópole, de trânsito constante e horários das “9 às 6”, onde se desenrola, durante todo o ano, mas com especial enfoque num mês ininterrupto, um estranho ritual telúrico e anti-urbano, ao qual comparecem, quase a diário, uma média de vinte mil almas… Em Madrid há Feira, mas não há “Feria”, a cidade não para nem se suspende, para sentir verdadeiramente o rito, e ruma, furando pelo trânsito ou apertada no metro para terminar a jornada de trabalho, indo aos toiros. E talvez seja aí, por causa desse encontro brutalmente antagónico entre a voragem da modernidade e o espírito tranquilo e contemplativo que é necessário para nos emocionarmos com a transcendência de uma Corrida, que nasce o seu grande paradoxo…

Não sei… Sei que para o ano voltarei… A Sevilha, é claro, onde a Festa é ritual, respeito, liturgia e verdadeiro tributo aos seus heróis, toiros e toureiros. Madrid é outra coisa, tribunal, assim lhe chamam…

Quem os elegeu juízes?…

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