Um Rouxinol (en)cantou na Moita

Praça de Toiros Daniel do Nascimento na Moita do Ribatejo, domingo 16 de maio de 2019. Corrida à Portuguesa com a presença dos cavaleiros João Moura, António Telles e Luis Rouxinol Jr, Grupos de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira (cabo Vasco Pereira) e Amadores do Aposento da Moita (cabo Leonardo Mathias). Lidou-se um curro de 6 toiros Palha, numa tarde quente e com a lotação da praça a roçar os 3/4 de casa preenchidos, sobressaindo o setor de sombra quase totalmente composto. A corrida foi presidida pelo o diretor Tiago Tavares, assessorado pelo veterinário Dr. Jorge Moreira da Silva e pelo cornetim José Henriques, sendo a parte musical abrilhantada pela banda do Samouco.

Tratou-se da corrida inaugural da temporada neste tauródromo, agora gerido pela empresa Tauroleve que está de parabéns pela capacidade de criar um cartel apelativo que trouxe gente à praça e que acabou por resultar numa apenas razoável tarde de toiros para quem vinha à espera da emoção que os Palhas usualmente transmitem – emoção que só veio no fim – mas que que valeu sobretudo pela qualidade das pegas e por uma atuação de muito valor do jovem Rouxinol Jr, sobretudo no último toiro da corrida, um imponente Palha bem arrobado, a impor respeito e muita seriedade.

 

João Moura abriu praça e esforçou-se perante um feio toiro preto de Palha com 564 Kg que investiu sempre de um modo algo “pastelento” apesar de mostrar alguma franqueza e alguma reação ao castigo, nunca transmitiu e sempre que a distância ao cavaleiro aliviava, procurava refugio em tábuas. Perante a pouca alegria do toiro, João Moura pouco mais conseguiu que cumprir com correção o seu papel numa lide quase sem história.

O seu segundo toiro foi um borralho malhado de branco e com cabeça castanha estrelada, coloração bastante incomum nesta ganadaria, que acusou 500 Kg na balança e causou algum impacto na entrada em praça. Acabou por vir de mais a menos, tendo proporcionado ao cavaleiro alguns bons momento de início que se tornaram difíceis de repetir a partir do 2º curto que “doeu” ao toiro, altura em que rachou e praticamente apenas se defendeu dos ferros prejudicando o resto da lide. João Moura esteve sempre com uma grande atitude, com um bom toureio a tentar a brega possível e com preparações cuidadas, conseguindo apesar de tudo, uma boa ferragem e abandonou a arena ovacionado pelo público que compreendeu a dificuldade de retirar mais de tal oponente.

 

António Telles abriu com um Palha preto com 520 Kg, conseguindo uma lide correta que foi subindo de nível, mas ao escasso ritmo de um toiro pouco colaborante, o que não ajudou que a lide também “rompesse”. Ficaram na retina dois bons curtos.

O seu segundo toiro, outro feio negro de Palha com 495 Kg escasso de trapio, apresentava uma cabeça “avacada” e era bastante selado. No entanto, no que toca ao comportamento, mesmo não sendo o protótipo do génio da ganadaria “Palha”, deixou-se lidar, por vezes até aparentando alguma ingenuidade de novilho, o que permitiu ao António uma lide mais conseguida, mas apenas ao sabor do que o toiro permitia transmitir, onde impôs sempre o seu genuíno classicismo e cravou a ferragem com muita verdade, como é seu apanágio.

 

O jovem Luis Rouxinol Jr conseguiu uma lide alegre frente ao que acabou por ser um toiro cumpridor no que toca a comportamento, um alegre e algo codicioso preto de Palha com 470 Kg, também ele sem aquele génio caraterístico da Adema no temperamento – apesar de neste curro ter sido o que mais se aproximou – e que mesmo sem grande presença, saiu rematado. Esteve sempre correto em toda a lide e com bons momentos, especialmente nos curtos e no modo como se esquivava a algumas “tarrascadas” por alto com que o toiro respondia por vezes, tendo sabido transpor a alegria do toiro e a da sua lide para o público, que lhe dedicou uma forte ovação no final da lide.

O último toiro da corrida era um preto de 580 Kg, o tal que já parecia um Palha, em presença e de temperamento difícil, foi recebido numa porta da gaiola de “suster a respiração” pelo jovem Rouxinol que pôs o público em pé e logo o fez ganhar a Daniel do Nascimento. Daqui para a frente foi o confirmar desse grande momento, com o cavaleiro a não se atemorizar, sempre a ir para cima do toiro bregando e cravando com muito valor apesar do perigo iminente que essa estreita ligação transmitia e a aguentar com grande valor as fortes acometidas com que o perigoso oponente respondia sempre ao castigo. Saída apoteótica da arena para o jovem Luis Rouxinol Jr.

 

O Grupo de Vila Franca teve como protagonista para a cara do 1º toiro o forcado João Luz que esteve corretíssimo a aguentar e a alegrar um toiro que investia pronto, mas com pouco “sal”, recebeu uma entrada pelos joelhos que o levou ao solo e dificultou que se fechasse, mas teve a alma necessária para “subir” pela cara do toiro e aguentar a chegada dos ajudas que estiveram num excelente nível a fechar esta pega.

Para a pega do 3º toiro, o jovem Guilherme Dotti foi o cara escalado pelo cabo. Num cite em que foi tentando entender o nível de incómodo que provocava ao toiro, esteve correto nos tempos de provocar a investida, recuar e fechar-se numa entrada do toiro de baixo para cima e mercê de se ter fechado bem na barbela, o toiro não o descompôs pelo que entrou bem fechado grupo dentro, tendo este estado bastante coeso a fechar esta boa pega.

A ultima atuação do Grupo de Vila Franca teve na cara o forcado Pedro Silva. Também ele esteve bastante correto na cara do toiro, soube carregar e aguentar a fração de tempo necessário para fixar o toiro antes de recuar, mercê de este ter tomado a primazia na investida, reuniu e fechou-se à córnea com grande convicção e eficácia numa viagem grupo dentro que mais uma vez esteve inexcedível a ajudar e a fechar mais uma excelente pega.

 

Pelo Grupo do Aposento da Moita, abriu a atuação desta tarde o cabo Leonardo Mathias. Esteve exemplar do principio ao fim da pega, sereno no cite, mandou no toiro, carregou, recuou e recebeu sem mácula a entrada forte do toiro fechando-se à barbela com grande consistência e tendo o grupo reagido nos mesmos termos do forcado da cara, com todo o grupo a ajudar bem. Destaque para o forcado Ruben Serafim que acabou por se lesionar e teve de ser retirado de maca, felizmente acabou por recuperar na enfermaria e voltou para dar o seu contributo ao grupo.

A quarta pega da tarde teve na cara o forcado João Ventura. Tentou que o toiro investisse de mais largo, o que era difícil face às caraterísticas do oponente. Este, por várias vezes iniciou meias investidas a “medir” o forcado mas sem dar seguimento. Entre avisos das tábuas, o forcado a carregar e as meias investidas do toiro, o forcado conseguiu que o toiro arrancasse, sacou-se bem a uma investida descomposta no início e acabou por obter uma boa reunião à barbela, enchendo a cara ao toiro e seguindo numa viagem em que foi bem ajudado pelos restantes ajudas, numa boa pega que certamente secou a boca ao forcado da cara.

O ultimo toiro da corrida é o que geralmente se apelida do “toiro da pega”. Para a cara o forcado eleito pelo cabo foi Martim Lopes. Não se antevia tarefa simples e veio-se a verificar. O forcado acabou por ter de ir buscar o toiro a terrenos de grande compromisso, bastante em curto. O toiro acabou por investir e teve uma reunião áspera descompondo o forcado que foi sempre a “guerrear” na cara do toiro e a tentar compor-se enquanto o grupo ia tentando ajudar o que acabou por só ser conseguido com a eficaz entrada das terceira ajudas junto às tábuas (que por pouco cediam) e acabou por fechar uma pega difícil a um toiro que nunca facilitou e tinha poder para causar estrago. No final, com inteira justiça, o ajuda Martim Afonso foi chamado a dar volta com forcado da cara e cavaleiro.

 

Nota negativa para a falta de qualidade e consistência das tábuas da trincheira da Daniel do Nascimento, a precisar de remodelação urgente enquanto se mantêm “de pé”, para além dos blocos de cimento que as fixam. Não tenho a certeza, mas julgo que tanto o estribo como as vigas verticais de suporte serão antirregulamentares, são muito perigosas para os forcados – e não só, mas principalmente – e na última pega, o forcado embateu a pouca distância de uma delas. Também não consigo compreender – alguém na praça terá compreendido? – porque o forcado Luis Fera, rabejador do Grupo local deu volta no final da 4ª pega da tarde. Terá sido apenas pelo mero desplante de abrir a jaqueta ao toiro depois da saída? Trata-se de uma corrida séria numa praça séria e as voltas devem premiar atitude positiva, valor, sucesso, pelo menos é assim que entendo.

 

Paulo Paulino

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