Tarde de forcados em dia da mãe

Crónica

Na quente tarde de domingo, 7 de maio, a centenária Palha Blanco abriu as suas portas para a tradicional corrida concurso de ganadarias do 1º domingo de maio. Um terço de casa é uma estimativa generosa para avaliar a ocupação da bancada e as ilações acerca deste pouco abonatório facto poderão e deverão ser retiradas por quem de direito. Justificará e será benéfico para a tauromaquia Nacional a realização de 2 espetáculos à mesma hora, distanciados por cerca de 30 Km? Para além dos prémios de bravura e de apresentação para as ganadarias representadas disputarem, também estava em disputa o troféu João Diogo Villaverde para o grupo de forcados que obtivesse a melhor atuação nesta corrida.

Ditou o sorteio que o primeiro toiro a sair à praça fosse o exemplar de Passanha Sobral com cinco anos de idade e 510 Kg de peso. Um toiro castanho, com excelente presença mas que a nível de comportamento, impunha seriedade, limitou-se a “acampar” nos médios e a esboçar algumas investidas sempre que o cavaleiro Francisco Palha tentava uma abordagem de proximidade. Com tanta frieza por parte do oponente, não foi fácil ao Francisco Palha uma brega mais cuidada e acabou por efetuar uma lide esforçada e plena de dignidade onde, apesar de tudo, o seu esforço acabou por ser recompensado com merecida música após o 3º curto, valendo sobretudo a correta ferragem que ainda assim foi conseguindo cravar com boas sortes frontais.

Para a pega deste toiro, muito sério, foi escalado para a cara o forcado Rui Godinho do Grupo de Vila Franca de Xira. Com um cite sereno e concentrado, mandou no momento certo e foi com um temple muito bem conseguido que retirou a “mangada” que se adivinhava na reunião. Foi na zona de eleição do toiro, logo após os médios que esta pega se decidiu com entrada bastante oportuna e eficaz dos ajudas, através duma bem montada “teia” que conseguiu vencer já perto das tábuas a forte mas infrutífera oposição do toiro. Volta para Francisco Palha e Rui Godinho.

O segundo toiro da tarde foi aplaudido à entrada na arena. Um negro com 570 Kg do Engº Jorge de Carvalho, com bastante presença e talvez algum excesso de carne para o esqueleto. Acabou por cumprir razoavelmente, com investidas divididas entre o simples demarcar terrenos e o querer chegar à montada do João Maria Branco mas nunca demostrando uma genuína bravura. João Maria Branco acabou por conseguir uma lide regular, com uma ferragem correta e efetuando uma brega algo cuidadosa, sem arriscar em demasia. Após o 3º curto o diretor concedeu, merecidamente, música ao cavaleiro.

Saltou à praça como forcado da cara pelo Grupo de Alcochete, Fernando Quintela que brindou esta pega ao grupo de Vila Franca, na sequência da comemoração dos seus 85 anos de fundação. Na 1ª tentativa, apesar de um cite bem conseguido, uma reunião deficiente abortou de imediato a tentativa de pega. Na 2ª tentativa, o forcado da cara voltou a não se entender no momento da reunião e acabou novamente vencido pelo toiro, desta vez com sequelas físicas que o impediram de continuar em praça. Saltou para a dobra o forcado João Machacaz que esteve excelente na cara do toiro, mandou como deve ser e numa dura reunião contou com uma 1ª ajuda eficaz e de sacrifício de João Rei bem secundado pelo resto do grupo que fechou com sucesso esta pega. Volta para João Maria Branco e João Machacaz.

O cavaleiro Salgueiro da Costa foi o terceiro cavaleiro a entrar em praça e saiu-lhe em sorte o toiro da ganadaria Branco Núncio com 575 Kg. Um toiro alto e negro de pelagem, excelente presença mas onde destoava uma córnea baixel e algo curta. O toiro saiu a prometer muito mas acabou por cumprir pouco e o fulgor inicial com investidas de alguma qualidade a antever andamento para uma boa lide, foram-se diluindo num comportamento mais andarilho com o passar do tempo, culminando completamente apoderado da arena e com alguns “feios” pelo meio. Apelido de “lide” a atuação de Salgueiro da Costa mas tratou-se simplesmente de uma mal conseguida tentativa de lide onde o cavaleiro nunca conseguiu imprimir um fio condutor, a brega foi inexistente, teve de se confrontar em simultâneo com o toiro e com o cavalo com que tentou abrir os curtos e houve inclusivamente momentos a roçar o pânico com fortes toques junto às tábuas em terrenos impossíveis, na teoria e na prática, conforme se verificou. Atuação desoladora que não ficará na memória de ninguém, exceto pela negativa.

O Grupo de Vila Franca pegou este toiro e teve como forcado da cara, Vasco Pereira que brindou à Exº Srª Paula Villaverde. Que soberba pega que este jovem forcado efetuou. Perfeitamente compenetrado no cite, sereno, mandou no toiro no momento certo quando este já abandonava os terrenos ideais, aguentou a investida para permitir fixar o toiro que saiu algo solto, recuou o necessário, recebeu aguentando um forte derrote para o ar e trancou-se numa viagem veloz, grupo dentro até às tábuas. O grupo teve dificuldade em controlar os pitons do toiro, com a já referida córnea caída a dificultar, mas quando o toiro e o Vasco saíram do meio do grupo, vinha o ajuda José Francisco Pereira perfeitamente enganchado num piton e a compor o cara, tornando-se fundamental antes da chegada do resto do grupo que deste modo fechou a pega com sucesso. O rabejador Carlos Silva esteve imponente no remate desta pega. Volta para Vasco Pereira e, por insistência do público, a José Francisco Pereira com a curiosidade destes 2 forcados serem irmãos.

No intervalo da corrida, homenagem da Misericórdia de Vila Franca de Xira à corrida efetuada há 40 anos na Palha Blanco, onde foram lidados e mortos em praça 6 toiros, num saudoso momento da tauromaquia Nacional. Nas arcadas da Palha Blanco foi descerrada uma placa alusiva a essa efeméride e um dos toureiros presente nesse cartel foi o maestro José Júlio que nesta tarde foi ovacionado no centro da arena.

Francisco Palha enfrentou o quarto toiro desta corrida, de António Silva, negro e com um peso de 530 Kg. O cavaleiro chamou à arena os cabos de ambos os grupos de forcados presentes, Ricardo Castelo (Vila Franca de Xira) e Nuno Santana (Alcochete) a quem brindou a lide, colocou-se posteriormente em frente à porta de saída dos curros para efetuar uma sorte de gaiola. O toiro saiu veloz e a sorte resultou em pleno com Francisco Palha a cravar um ferro muito bem conseguido, enfrentou uma forte carga do toiro com várias voltas à arena e deste modo foi atingido um dos grandes momentos desta tarde de toiros com o cavaleiro a empolgar o público e o toiro a mostrar que havia ali qualidades a explorar. No meio disto, sucede o azar do toiro ter ficado condicionado da mão direita, certamente nalgum momento da desenfreada investida após o ferro. Francisco Palha foi aliviando cada vez mais a brega, eventualmente numa tentativa de conseguir ter toiro para toda a lide, ficando também ele condicionado por este facto. Acabou por se presenciar uma lide de mais a menos por parte de Francisco Palha que acabou por não conseguir ligar-se muito ao toiro, a ferragem esteve aquém da qualidade obtida na sua primeira atuação e foi-se desvanecendo assim toda a empatia criada com o público no momento do 1º comprido.

Para pegar este toiro, o Grupo de Alcochete saltou à praça tendo Manuel Pinto como forcado da cara. Na 1ª tentativa o cara esteve bem no cite e correto a provocar a investida ao toiro que veio de largo e franco. O cara adiantou-se ligeiramente a receber e tal tornou-se fatal visto que não se conseguiu fechar, tendo a tentativa de pega acabado logo ali. Na 2ª tentativa, Manuel Pinto esteve novamente bem no cite, com qualidade e serenidade, mandou na investida do toiro e desta vez recebeu com perfeição numa tentativa que resultou tecnicamente perfeita. O toiro, certamente por estar condicionado da mão direita acabou por baixar a cara e terminar a viagem na zona dos 2ºs ajudas, pelo que o grupo não teve dificuldades de maior para ajudar a consumar esta pega. Volta apenas para o forcado Manuel Pinto visto que o diretor de corrida não autorizou a volta a Francisco Palha, numa decisão algo discutível.

O quinto toiro a sair à praça pertencia à ganadaria Sommer de Andrade, um negro bragado meano que acusou 500 Kg na balança. O toiro pouco ou nada comunicou durante esta segunda atuação de José Maria Branco que também não lhe conseguiu impor uma lide digna desse nome. Esteve infeliz a cravar onde apenas em raros momentos se entendeu com os terrenos adequados. A pouca regularidade que conseguiu nos compridos desvaneceu-se completamente nos curtos onde, após troca de montada e logo no 1º curto, literalmente “perdeu os papéis” e acabou por ser obrigado a uma segunda troca de montada. Posteriormente esboçou alguma coerência na lide, conseguindo levar a montada a entrar em terrenos do toiro mas o cavaleiro continuou sem se entender nas colocações e culminou mais uma lide para esquecer com um violento toque junto às tábuas.

Para fechar a sua atuação, o grupo de Vila Franca de Xira saltou à praça com o forcado Márcio Francisco para tentar pegar de caras. O Márcio Francisco esteve a um nível elevado, com muito saber dos terrenos e dos tempos a aplicar. Mandou vir o toiro de meia praça, aproveitou a investida bastante franca para aguentar e recuar o estritamente necessário, recebendo exemplarmente o toiro e “trancou-se” para não mais sair da córnea. A viagem levou toiro e forcado para dentro do grupo onde, junto às tábuas, conseguiu livrar-se de todos menos do cara, do ajuda Diogo Duarte e do rabejador Carlos Silva que conseguiram conter a fuga do toiro ao grupo até à chegada do resto do grupo que nesse momento acabou por vencer esta dura batalha. Volta apenas para o forcado Márcio Francisco e, a pedido do público, acompanhado pelo ajuda Diogo Duarte e o rabejador Carlos Silva.

O sexto e último toiro desta corrida foi um toiro negro com bom tipo, 520 Kg de peso, com cara e pertencente à ganadaria de São Torcato. Foi um dos toiros que melhor cumpriu, sempre voluntarioso e que não denotou crenças de realce durante toda a lide. O cavaleiro Salgueiro da Costa tentou apagar a má imagem que havia deixado na sua atuação inicial e apesar de o ter conseguido parcialmente, nunca atingiu um nível digno de realce. Sentiu grandes dificuldades na colocação do toiro para cravar os ferros compridos, só o tendo conseguido com a ajuda dos peões de brega. Nos curtos, a atuação melhorou realçando-se uma boa nota em 3 dos 4 curtos, mas que não foi o suficiente para conseguir chegar ao público. Acabou por ter uma atuação de menos a mais, mas sempre distante de conquistar empatia com o público.

Para completar as pegas do Grupo de Alcochete, saiu o forcado Pedro Viegas para a cara deste São Torcato. O toiro por não estar totalmente em tábuas, acabou por sair algo solto e com “pata”, o forcado esteve correto a fixá-lo e a receber, aguentou bem algumas sacudidelas que o obrigou a ir-se compondo durante a viagem que culminou num bloco coeso formado pelo grupo de ajudas que esteve muito bem e a reagir com uma eficácia assinalável. O diretor apenas concedeu volta ao forcado Pedro Viegas que se limitou a agradeceu nos médios.

No final da corrida, a entrega dos vários troféus em disputa, com o prémio de apresentação a ir para o toiro Passanha Sobral e o de bravura para o toiro de António Silva. Neste caso, notou-se alguma contestação por se tratar de um toiro coxo que esteve condicionado numa das mãos durante toda a lide e julgo que não desmereceria se o prémio tivesse sido entregue ao exemplar de São Torcato, ou até deixar esse prémio deserto porque na verdade nunca se chegou a presenciar um toiro com a bravura que justificasse a entrega do referido prémio. No que toca ao prémio João Diogo Villaverde para premiar a atuação do melhor grupo de forcados em praça, foi entregue sem qualquer contestação e com justiça ao grupo de Vila Franca de Xira.

Este espetáculo contou com a presença da banda do Ateneu Artístico Vilafranquense tendo sido dirigida pelo diretor de corrida Sr. João Cantinho, assessorado pelo veterinário Dr. José Manuel Lourenço e pelo cornetim, Sr. Nuno Narciso.

Ultimos Artigos

Artigos relacionados